Montadoras chinesas, lideradas pela Build Your Dreams (BYD) e pela Great Wall Motor (GWM), estão expandindo agressivamente a produção e as vendas no Brasil, gerando preocupações das montadoras tradicionais sobre a concorrência desleal e alarmando especialistas sobre possíveis riscos à segurança de dados e vigilância por parte de Pequim.
Em 1º de Júlio, a BYD começou a produção em sua fábrica na Bahia, onde planeja produzir até 300.000 carros por ano, enquanto a GWM, que comprou uma fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis, São Paulo, espera iniciar a produção ainda este ano. A forte entrada da GWM no mercado é evidente: um navio cargueiro com 900 veículos da GWM atracou no porto de Vitória em meados de abril, e seu modelo Haval H6 superou as vendas de concorrentes estabelecidos no primeiro trimestre do ano.
Esse aumento levou a acusações de dumping por parte da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que representa a maioria das montadoras que mais vendem no país. A Anfavea alega que as importações chinesas estão se beneficiando de impostos significativamente mais baixos, criando uma “distorção perigosa” no mercado. Em 2024, o Brasil importou 466.505 carros, um aumento de 33 por cento em relação a 2023, com a maioria dos veículos elétricos vindo do exterior. A indústria automobilística nacional está pedindo ao governo que restaure imediatamente um imposto de importação de 35 por cento para veículos híbridos e elétricos, atualmente previsto para meados de 2026.

“A Anfavea contratou um escritório especializado para avaliar a viabilidade de ingressar com uma ação antidumping contra uma ou mais importadoras chinesas”, disse a Anfavea em um comunicado à Diálogo.
O presidente da Anfavea, Igor Calvet, observou uma queda de 5,9 por cento na produção doméstica comparada com abril, sinalizando uma perda de participação nas vendas quanto às importações. Os veículos de origem chinesa representaram 58.118 unidades de janeiro a maio, um aumento de 35,9 por cento em relação ao mesmo período de 2024, impulsionando 54 por cento do crescimento geral das vendas.
“No caso dos modelos vindos da China, verificamos um ingresso atípico, beneficiado por uma taxação bem inferior à que vemos em outros países produtores, o que gera uma perigosa distorção em nosso mercado”, alertou Calvet.
Além do impacto econômico, especialistas em segurança da informação alertam para uma nova era de riscos à privacidade, especialmente com veículos elétricos conectados. Essa capacidade de coleta de dados levanta sérias preocupações para a segurança nacional, dada a conhecida capacidade e disposição do Partido Comunista da China (PCC) de aproveitar informações de empresas privadas para fins de inteligência e vigilância. Thiago Guedes, CEO da Deserv, uma empresa de segurança da informação e privacidade de dados, enfatizou o potencial para uma ampla coleta de dados.
“Veículos elétricos e conectados operam como verdadeiros dispositivos de coleta de dados sobre os hábitos dos motoristas: geolocalização em tempo real, rotas percorridas, voz, imagem, perfis de condução, dados biométricos e até integração com smartphones, disse Guedes à Diálogo. “O perigo aumenta quando esses dados são processados por sistemas em nuvem hospedados fora do país, ou controlados por empresas estrangeiras com baixa transparência sobre práticas de segurança.”
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) do Brasil estabelece regras rígidas para o processamento e a transferência internacional de dados. Guedes observou que o processamento de dados confidenciais sem justificativa legal pode violar a LGPD. No entanto, ele enfatizou que a eficácia da lei depende da aplicação ativa e da cooperação entre órgãos técnicos e reguladores.
Guedes declara que “o Brasil pode adotar critérios técnicos rigorosos de homologação, exigindo auditorias de cibersegurança, transparência nos fluxos de dados, localização de servidores e contratos com cláusulas robustas de proteção de dados”. Ele acredita que “uma abordagem baseada em compliance tecnológico e privacidade por design permite viabilizar a inovação com segurança, sem depender de medidas protecionistas”.
Embora a Estrutura do Marco Civil da Internet do Brasil, uma lei abrangente que estabelece direitos e responsabilidades para os usuários da internet, ofereça alguma cobertura subsidiária, “falta um marco regulatório setorial claro, que defina padrões mínimos de cibersegurança automotiva, requisitos de interoperabilidade e certificações obrigatórias para fabricantes internacionais”, finaliza Guedes.
A rápida expansão das montadoras chinesas no Brasil apresenta um duplo desafio: proteger a indústria nacional da suposta concorrência desleal e, ao mesmo tempo, desenvolver urgentemente regulamentações robustas para proteger dados confidenciais dos consumidores contra uma possível vigilância estrangeira. As autoridades brasileiras enfrentam a complexa tarefa de equilibrar o crescimento econômico com a segurança nacional no crescente mercado de veículos elétricos.


