Este artigo foi publicado originalmente na revista ADF do Comando dos Estados Unidos para a África, em 7 de maio de 2026.
Quando extremistas da Província da África Ocidental do Estado Islâmico (ISWAP) lançaram quatro ataques mortais simultâneos contra forças militares nigerianas no final de outubro de 2025, os drones armados desempenharam um papel fundamental.
Os ataques contra posições nas comunidades de Dikwa, Gajibo, Mafa e Katarko mataram cinco soldados e incendiaram uma base militar.
As tropas nigerianas conseguiram repelir os ataques e matar 50 combatentes do ISWAP. No entanto, a ofensiva demonstrou como os drones se tornaram parte integrante das operações terroristas na África.
Embora os governos africanos tenham gastado milhões de dólares na aquisição de drones de uso militar, como os Bayraktar TB2 e Akinci, da Turquia, os grupos terroristas gastaram significativamente menos em drones quadricópteros disponíveis comercialmente, que podem ser facilmente equipados com explosivos e transformados em dispositivos explosivos improvisados (IEDs) voadores. Esses quadricópteros são usados contra forças governamentais em Burkina Faso, Mali, Níger, Nigéria e Somália. Fronteiras porosas e vínculos familiares ou étnicos em toda a região facilitam a circulação da tecnologia e dos conhecimentos técnicos que sustentam as operações terroristas com drones, segundo especialistas.
Os ataques com drones se intensificaram rapidamente desde que o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) lançou seu primeiro ataque com um drone kamikaze em 2023. Desde então, o JNIM transformou os ataques com drones kamikaze em um componente fundamental de sua estratégia de combate, lançando dezenas deles contra alvos civis e militares em Burkina Faso, Mali e Níger.
O Policy Center for the New South, do Marrocos, registrou mais de 30 ataques com drones no Sahel entre setembro de 2023 e junho de 2025. A maioria deles — 82% — ocorreu entre março e junho de 2025. Entre eles estava um ataque do JNIM contra uma base militar do Mali em Boulikessi que matou mais de 100 soldados.
À medida que os grupos terroristas recorrem cada vez mais aos drones para realizar ataques do tipo kamikaze contra posições terrestres, eles também conseguem manter seus próprios combatentes afastados do confronto direto com as forças militares. Como resultado, as estratégias baseadas em drones que estão surgindo no Sahel podem oferecer uma prévia dos combates do futuro, segundo John Sunday Ojo, pesquisador do Institute of Security and Global Affairs.
“Vários ataques recentes foram bem-sucedidos devido à adoção de drones pelo ISWAP”, disse Ojo à ADF. “Nessa região, estamos caminhando para um tipo de ambiente em que o combate terrestre não será capaz de conter a guerra contra o terrorismo. Será uma espécie de guerra remota, na qual os terroristas nem sequer precisarão se esforçar para alcançar seus objetivos.”
Um fenômeno global
As tropas ucranianas têm estado na vanguarda do emprego de drones de tipo comercial, armados e não armados, contra as forças invasoras russas.
“Eles são improvisados, da mesma forma que aqueles construídos por pessoas em suas garagens na Ucrânia”, disse à ADF a analista Niccola Milnes, coautora de um estudo publicado pelo Policy Center for the New South.
Enquanto a Ucrânia utiliza tecnologia de drones disponível comercialmente para repelir as forças invasoras russas, grupos em todo o mundo observam essas táticas e podem tentar replicar seus resultados, disse à ADF Don Rassler, do Combating Terrorism Center de West Point.
“O conflito na Ucrânia é um importante laboratório de aprendizagem”, afirmou Rassler.
Inovações locais
Na Somália, as autoridades de Puntland interceptaram, em 2024, cinco drones comerciais armados enviados por rebeldes houthis do Iêmen a terroristas na Somália.
O al-Shabaab continua utilizando drones principalmente para reconhecimento, mas seu rival no norte do país, a Província da Somália do Estado Islâmico, já os empregou em combate contra forças regionais.
“A Província da Somália do Estado Islâmico é um dos grupos que preocupam”, disse à ADF a analista Clara Broekaert, do The Soufan Center. “Eles têm os recursos; estão se tornando um polo para combatentes estrangeiros e recrutam com base em habilidades.”
A crescente relação entre o al-Shabaab e os rebeldes houthis do Iêmen também é preocupante, afirmou Rassler. Os houthis vêm trabalhando para ampliar o alcance de seus próprios drones kamikaze comerciais.
“Os houthis têm buscado e experimentado formas singulares de tecnologia, como células de combustível de hidrogênio”, afirmou. “Esses são sinais de alerta sobre os rumos que os conflitos podem tomar no Sahel.”
No Mali, o JNIM e a Frente para a Libertação de Azawad (FLA) parecem estar realizando uma transferência de conhecimentos semelhante. Em meados de 2024, o coronel Hussein Ghulam deixou a FLA e passou para o JNIM, sendo posteriormente associado ao ataque com drones do JNIM em Dioura, em maio de 2025, que matou 41 soldados malineses.
“Embora não seja possível confirmar uma coordenação direta entre os dois grupos, a coincidência temporal e geográfica sugere a possibilidade de transferência de conhecimentos ou observação mútua”, escreveram Milnes e Rida Lyammouri para o Policy Center for the New South.
O JNIM e outros grupos terroristas africanos receberam pouca ou nenhuma ajuda direta das organizações centrais da al-Qaida ou do Estado Islâmico, que enfrentam forte pressão dos governos em seus países de origem, segundo analistas.
“É principalmente algo desenvolvido localmente”, disse Rassler sobre as inovações dos extremistas africanos com drones. “Eles não precisam depender muito do núcleo do Estado Islâmico para obter orientação. Basta acessar o YouTube ou o Instagram para coletar informações sobre o que vem acontecendo na Ucrânia.”
A rápida expansão da inteligência artificial pode facilitar ainda mais a transformação de drones comerciais em armas por grupos extremistas.
“É aqui que a IA muda tudo”, afirmou Milnes. “Você não precisa ser especialista em tecnologia. Usa a IA para aprender a usar a IA.”
Em alguns ataques recentes, grupos terroristas empregaram drones equipados com inteligência artificial capazes de localizar e atacar seus alvos sem um operador humano. Os chamados drones autônomos não conectados não podem ser bloqueados ou redirecionados da mesma forma que os drones controlados por um operador, o que dificulta sua neutralização.
“Se essas tendências continuarem, novas adaptações, como maior autonomia a bordo ou coordenação ampliada, poderão surgir com o tempo”, escreveram Milnes e Lyammouri.
Um aspecto da guerra com drones permaneceu, até agora, fora do alcance tanto de extremistas quanto de forças militares: os enxames. Especialistas estão preocupados com a possibilidade de que o JNIM, o ISWAP ou outros grupos terroristas possam, um dia, lançar um ataque de grande escala contra uma comunidade ou posto militar utilizando dezenas de drones autônomos coordenados por inteligência artificial.
“É uma área que precisamos observar”, afirmou Rassler.
O custo da assimetria
Apesar de todos os investimentos em tecnologias de alto perfil, como os drones Bayraktar TB2, as forças militares do Sahel não dispõem de um mecanismo operacional específico para combater os drones empregados por grupos terroristas, segundo Ojo.
“A assimetria de custos na guerra com drones é incrivelmente alta”, disse Broekaert à ADF. “[Os governos] estão investindo milhões em sistemas que podem ser facilmente neutralizados.”
Por exemplo, as medidas adotadas por forças militares que utilizam bloqueadores como o sistema antidrones lituano EDM4S SkyWiper para interromper o sinal entre o drone e seu operador podem ser superadas por extremistas que empregam drones equipados com sistemas autônomos de IA.
A tecnologia de bloqueio também pode ser superada pelo emprego de drones conectados por longos cabos de fibra óptica — uma tecnologia que se tornou comum na Ucrânia, mas que ainda não foi utilizada no Sahel ou na Somália.
“É um avanço preocupante que precisamos continuar acompanhando”, afirmou Rassler.
Em última análise, à medida que os grupos terroristas ampliam suas capacidades com drones, eles estão superando as forças militares encarregadas de contê-los, segundo observadores. Os esforços diretos das forças militares para neutralizar drones no campo de batalha ou impedir que cheguem às mãos de civis tiveram pouco efeito, deixando as forças militares em desvantagem.
A rápida evolução de tecnologias como inteligência artificial e impressão 3D provavelmente tornará ainda mais difícil para os governos acompanhar as inovações dos terroristas no uso de drones.
“Esses grupos estão superando amplamente [as forças militares] neste momento com drones comerciais bastante baratos, desenvolvidos localmente e fáceis de modificar”, afirmou Milnes. “E estão ampliando suas capacidades muito rapidamente.”
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