Arquitetura criminosa do regime venezuelano: Narcotráfico, alianças estrangeiras e colapso institucional — Parte II

Na primeira parte desta entrevista, Luis Fleischman, especialista em relações internacionais, professor de sociologia no Palm Beach State College e copresidente fundador do Centro para a Democracia de Palm Beach, revelou as raízes criminosas que sustentam o regime de Nicolás Maduro e a estreita colaboração com grupos armados e estruturas ilícitas, que operam dentro e fora da Venezuela.

Nesta segunda parte, Fleischman amplia o mapa dessa rede criminosa, ao examinar a aliança operacional com o Irã e o papel que países como Cuba e Nicarágua desempenham na projeção estratégica de Teerã no Hemisfério Ocidental. Sua análise desperta o alarme sobre a necessidade urgente de uma cooperação democrática real e de enfrentar, sem ambiguidades, estruturas criminosas de grande escala, cuja capacidade operacional supera a de muitos sistemas democráticos atuais.

Diálogo: O senhor afirma que a cooperação entre Irã e Venezuela é operacional. Qual é a dimensão mais alarmante da penetração do Irã no aparato estatal criminoso do regime de Maduro? O que essa parceria permite que o Irã faça, que ele não conseguiria fazer a partir do Oriente Médio, e quais vantagens o Irã oferece à Venezuela em troca?

Luis Fleischman, especialista em relações internacionais e copresidente fundador do Centro para a Democracia de Palm Beach: É importante entender que o Irã não controla a Venezuela, mas coopera estreitamente com o regime e existe uma profunda afinidade ideológica entre os dois. Durante anos, o Irã esteve sujeito a sanções internacionais e, nesse contexto, aproveitou sua relação com a Venezuela para evitá-las, por meio de cooperação bancária, operações financeiras secretas e transações petrolíferas, que ajudaram Caracas a contornar as restrições.

Mas, além dessa colaboração prática, existe uma conexão política e ideológica. Chávez via a Revolução Islâmica como uma revolução irmã e admirava a doutrina da guerra assimétrica e o uso de proxies como o Hezbollah. Esse modelo influenciou diretamente a construção da doutrina militar bolivariana e continua vigente sob Maduro.

Além disso, ambos os países se consideram Estados marginalizados pelo Ocidente. Essa percepção os levou a alinharem-se com potências como a Rússia e a China. A Rússia, por exemplo, vendeu armas à Venezuela que acabaram nas mãos das FARC, um episódio que se encaixa na visão de guerra assimétrica promovida por Chávez.

Em resumo, o Irã busca usar a Venezuela como uma plataforma multifuncional, onde convergem a evasão de sanções, a cooperação financeira, o intercâmbio de petróleo e as afinidades políticas. Mas, acima de tudo, ele a concebe como um ponto estratégico, a partir do qual poderia projetar capacidade operacional, caso seja necessário, diante de um adversário.

Diálogo: A Venezuela forneceu passaportes a agentes estrangeiros, o que facilitou a lavagem de identidade. Que riscos surgem quando os Estados latino-americanos replicam a estratégia de lavagem de identidade da Venezuela para operações extrarregionais?

Fleischman: É um dos precedentes mais perigosos que contaminou gravemente a segurança regional. Há evidências de que funcionários venezuelanos, entre eles Tarek El Aissami, concederam passaportes a cidadãos iranianos envolvidos em operações ilícitas. Com um passaporte venezuelano, essas pessoas puderam entrar em vários países e cometer atos criminosos, algo que já foi documentado na Europa. O risco é enorme, pois o Irã consegue acesso a lugares onde seus cidadãos enfrentariam fortes restrições.

A crise migratória venezuelana agrava ainda mais esse cenário. Entre milhões de deslocados, podem infiltrar-se operários vinculados ao crime organizado ou ao terrorismo, aproveitando a disposição de muitos países da região de receber mais facilmente aqueles que fogem do regime de Maduro. Já vemos sinais alarmantes no Uruguai, por exemplo, um país historicamente alheio a essas ameaças, o qual detectou a presença do Hezbollah, algo impensável décadas atrás.

Mas hoje a situação mudou. Embora, durante anos, muitos países tenham demorado a reconhecer que a Venezuela havia se tornado um rogue state, hoje essa percepção é muito diferente, e os portadores de passaportes venezuelanos enfrentam um escrutínio muito maior. Esse precedente deslocou a estratégia para outros Estados, especialmente nos pequenos países do Caribe, onde o Irã estaria tentando obter nacionalidades alternativas.

Em conjunto, todo esse fenômeno deteriora a segurança regional e coloca em risco a população da América Latina. Cada agente criminoso que consegue entrar representa uma ameaça potencial para toda a região.

Diálogo: Como países como Venezuela, Nicarágua e Cuba facilitam a projeção estratégica e militar do Irã no hemisfério ocidental?

Fleischman: O Irã vê esses países como aliados militares e estratégicos. Em outras palavras, considera que certas nações latino-americanas funcionam como plataformas operacionais, a partir das quais pode projetar sua influência, seja para lançar ataques, operar à distância, ou executar ações semelhantes às da AMIA, além de outras atividades subversivas ou criminosas. Não podemos subestimar o Irã como um país cuja indústria militar é um de seus pilares mais fortes. Nesse contexto, a incorporação de aliados na região adquire um papel central em sua estratégia de base militar e torna o Irã uma ameaça crescente, que torna o hemisfério um objetivo cada vez mais relevante para o alcance de seus objetivos.

Diálogo: O que constituiria um verdadeiro ponto de inflexão no confronto entre os atores estatais criminosos e a arquitetura democrática e de segurança da região?

Fleischman: Uma democracia só pode sobreviver com um Estado forte. Quando o Estado é corroído pelo crime organizado, ele se torna frágil. O ponto de inflexão surge quando uma democracia enfrenta diretamente estruturas criminosas de grande escala, com uma capacidade operacional que muitos sistemas democráticos não estão preparados para exercer [porque os métodos convencionais costumam ser insuficientes].

O essencial é que, mesmo quando medidas duras são tomadas, haja transparência, legalidade e controle judicial. Também é necessária uma aliança entre democracias; as democracias devem cooperar, compartilhar inteligência e não mostrarem-se fracas.

No final, o que é necessário é uma transformação democrática que gere legitimidade, força institucional e capacidade real para enfrentar o crime organizado, sem renunciar aos princípios fundamentais que sustentam a democracia.

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