As organizações criminosas utilizam cada vez mais drones comerciais em toda a América Latina para contornar medidas de segurança, monitorar atividades das forças de segurança, transportar materiais ilícitos e apoiar operações criminosas a partir de centros penitenciários e áreas remotas. Sua crescente acessibilidade e versatilidade representam um desafio em constante evolução para as instituições de segurança, defesa e ordem pública da região.
A ameaça nas prisões do Equador
No final de abril, o ministro do Interior do Equador, John Reimberg, informou que cerca de 600 drones ligados a grupos do crime organizado haviam tentado chegar à prisão de El Encuentro desde o início da construção do centro penitenciário, em junho de 2024. Segundo reportagens da imprensa equatoriana, as organizações criminosas têm utilizado drones para introduzir armas, manter comunicação com detentos e coordenar atividades ilícitas a partir dos estabelecimentos penitenciários.
A situação evidencia um desafio mais amplo enfrentado pelo sistema penitenciário equatoriano. Desde 2018, mais de 680 pessoas privadas de liberdade foram assassinadas em confrontos violentos entre gangues criminosas dentro das prisões do país, refletindo a crescente influência do crime organizado tanto dentro quanto fora dos presídios.
Daniel Potón, reitor da Escola de Segurança e Defesa do IAEN, destacou em declarações à Diálogo: “As prisões, na prática, são o centro de operações do crime. Introduzir tecnologia, comunicações ou recursos nesses espaços fortalece suas capacidades operacionais”.
O uso crescente de drones demonstra como as organizações criminosas estão explorando o domínio aéreo para contornar medidas tradicionais de segurança destinadas a impedir a circulação de pessoas, armas e comunicações por via terrestre.
Inovação criminosa e drones comerciais

Incidentes recentes na Colômbia evidenciam a rapidez com que grupos criminosos e armados estão ampliando o uso de drones comerciais. Em maio de 2026, as autoridades colombianas neutralizaram um drone carregado com explosivos nas proximidades do Aeroporto Internacional El Dorado, em Bogotá, e do vizinho Comando Aéreo de Transporte Militar. Os investigadores associaram o dispositivo à Frente Carlos Patiño, uma estrutura dissidente das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Semanas antes, um ataque com drones atribuído aos Comandos da Fronteira causou a morte de três soldados colombianos perto da fronteira com o Equador.
No Brasil, organizações criminosas têm utilizado repetidamente drones para introduzir celulares, drogas e outros itens de contrabando em centros penitenciários, permitindo que os detentos mantenham comunicações e atividades criminosas a partir da prisão. No México, as autoridades apreenderam repetidamente drones modificados por cartéis para transportar explosivos, especialmente em estados como Michoacán e Jalisco, onde essas organizações os têm utilizado contra grupos rivais e forças de segurança.
Em conjunto, esses episódios demonstram como drones comerciais vêm sendo adaptados para tarefas de vigilância, logística e até operações ofensivas por grupos criminosos e armados em toda a região.
Disponíveis por uma fração do custo das plataformas aéreas tradicionais, esses sistemas oferecem às organizações criminosas capacidades que antes estavam associadas principalmente a atores estatais.
Potón destacou a capacidade de adaptação dessas estruturas criminosas: “As organizações criminosas são extremamente inovadoras. Elas aproveitam os avanços tecnológicos e tiram proveito de lacunas jurídicas ou de áreas com presença estatal limitada”.
Ao contrário dos métodos tradicionais de contrabando, os drones podem contornar postos de controle, terrenos acidentados e barreiras físicas, reduzindo ao mesmo tempo a exposição dos seus operadores. Seu custo relativamente baixo também permite que as organizações absorvam perdas e substituam rapidamente os equipamentos apreendidos.
Analistas alertam que os grupos criminosos continuam ampliando o uso de tecnologias emergentes, enquanto os governos precisam investir em capacidades de detecção, monitoramento e neutralização cada vez mais sofisticadas, incluindo sistemas de inibição de sinais, radares e tecnologias antidrones. O desafio é particularmente grave em corredores do narcotráfico, áreas de mineração ilegal, regiões fronteiriças e outros territórios onde o crime organizado busca limitar a presença do Estado e preservar sua liberdade de ação.
Além das prisões, os drones são utilizados para apoiar atividades criminosas em áreas remotas, onde podem monitorar movimentos das forças de segurança, transportar cargas pequenas, mas de alto valor, e fornecer informações em tempo real a redes criminosas que operam em terrenos de difícil acesso.
As forças de segurança se adaptam
Em resposta à crescente ameaça, o Equador ampliou o uso de tecnologia para fortalecer as capacidades de vigilância e monitoramento em áreas estratégicas afetadas pelo crime organizado. As autoridades incorporaram sistemas de drones de longo alcance e outras ferramentas tecnológicas para aprimorar a consciência situacional e apoiar operações de segurança. Esses esforços também foram reforçados por meio da cooperação com os Estados Unidos, que forneceram treinamento, apoio de inteligência, assistência em segurança e financiamento para sistemas aéreos não tripulados e outras capacidades de vigilância utilizadas no combate às organizações criminosas transnacionais (OCT).
A participação do Equador na Coalizão das Américas contra os Cartéis fortalece ainda mais essa resposta regional. A iniciativa reúne países parceiros comprometidos em aprimorar a coordenação, o compartilhamento de informações e a cooperação operacional no combate aos cartéis e às organizações narcoterroristas, oferecendo uma estrutura para que os países enfrentem ameaças emergentes — entre elas o uso de drones pelo crime organizado — antes que elas se espalhem além das fronteiras.
A Força Aérea Equatoriana também colocou em operação a esquadrilha de drones Rayo Justiciero em setembro de 2025. No início de 2026, a unidade já havia realizado mais de 1120 missões em apoio a operações antinarcóticos e de segurança interna. Os drones têm sido utilizados para detectar pistas clandestinas, monitorar áreas de mineração ilegal, identificar rotas de tráfico ilícito e fornecer inteligência em tempo real às forças militares e de segurança que atuam contra as OCT.
Em toda a região, as forças de segurança estão se adaptando cada vez mais a um ambiente operacional no qual o espaço aéreo de baixa altitude se tornou mais um domínio explorado por redes criminosas. Isso tem impulsionado uma maior ênfase no intercâmbio de inteligência, na inovação tecnológica e no desenvolvimento de capacidades antidrones.
Lições para a América Latina e o Caribe
A experiência equatoriana demonstra como tecnologias relativamente baratas podem ampliar significativamente o alcance operacional do crime organizado.
Potón concluiu: “Uma coisa é a tecnologia em si; outra é a forma como ela pode ser adaptada para múltiplos propósitos. A velocidade de adaptação do crime organizado frequentemente supera a capacidade de reação dos Estados”.
Para as instituições de segurança e defesa da América Latina e do Caribe, o desafio não consiste apenas em acompanhar o ritmo das mudanças tecnológicas, mas também em antecipar como as organizações criminosas adaptarão as tecnologias emergentes para apoiar atividades ilícitas.
Os investimentos em sistemas de vigilância, tecnologias de bloqueio de sinais, integração de inteligência e cooperação regional serão fundamentais para combater essas ameaças em constante evolução.
O desafio já não se limita a rastrear redes criminosas em terra e no mar. As forças de segurança também precisam lidar com um espaço aéreo de baixa altitude em rápida expansão, onde tecnologias comerciais de baixo custo podem proporcionar às organizações criminosas capacidades de vigilância, comunicação, logística e até mesmo capacidades ofensivas.



