À medida que os desafios de segurança e humanitários persistem no Haiti, o país enfrenta a difícil tarefa de reduzir a violência enquanto reconstrói a confiança pública nas instituições do Estado. Grupos armados ampliaram sua presença em extensas áreas da capital, Porto Príncipe, contribuindo para o deslocamento em massa da população e para interrupções na vida cotidiana, nas rotas de abastecimento e no acesso a alimentos, atendimento médico e outros serviços essenciais.
Nesse contexto, os esforços para restabelecer a segurança vão além do combate às gangues. Eles também envolvem o fortalecimento da capacidade do Estado de proteger a população civil, manter o acesso a serviços essenciais e criar condições que permitam às comunidades se recuperar e avançar rumo a uma maior estabilidade.
Nesse cenário, a Força de Repressão às Gangues (GSF), apoiada pelos Estados Unidos e por parceiros internacionais, reflete uma resposta mais coordenada e robusta já em implementação, voltada não apenas para reduzir a violência, mas também para fortalecer, a longo prazo, a credibilidade institucional.
Autorizada no final de setembro de 2025 pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, a GSF baseia-se no Apoio Multinacional à Segurança (MSS) liderado pelo Quênia, reunindo até 5500 efetivos de diversas regiões, com o apoio de um componente civil e o respaldo logístico da ONU.
Vários países da América Latina e do Caribe continuam desempenhando um papel no esforço multinacional. Guatemala, El Salvador, Jamaica, Bahamas e Belize contribuíram anteriormente com pessoal na missão MSS, experiência que agora ajuda a orientar a transição para a GSF. Da mesma forma, parceiros regionais como as Bahamas, El Salvador, Guatemala e Jamaica participam da estrutura de coordenação da missão ao lado de contrapartes internacionais, refletindo uma cooperação hemisférica mais ampla para enfrentar desafios de segurança compartilhados.
Abordagem multidimensional para construir confiança
Uma das características mais marcantes da missão é a integração de capacidades civis com as operações de segurança. Embora de tamanho limitado, esse componente civil contribui para a supervisão, a coordenação e o fortalecimento do vínculo com instituições e comunidades.
Isso reflete uma compreensão mais ampla de que restabelecer a segurança no Haiti não pode depender exclusivamente do uso da força. Os esforços de estabilização também exigem o fortalecimento da capacidade institucional, da prestação de contas e da confiança pública nas autoridades.
Nesse sentido, a ONU estabeleceu mecanismos de acompanhamento que prevêem relatórios periódicos sobre o andamento da missão, com o objetivo de reforçar a transparência e permitir ajustes durante sua implementação. Ao mesmo tempo, iniciativas como a capacitação de jornalistas para cobertura em zonas de conflito e o apoio a populações vulneráveis afetadas pela violência buscam fortalecer os laços entre a missão e a sociedade civil.
“Trabalhar com diversos parceiros é positivo e, de olho no futuro, será observando sinais concretos da sociedade e seu retorno à normalidade — por exemplo, com a reabertura contínua das escolas — que se medirá o impacto do bom funcionamento dessa estratégia”, explicou ao Diálogo o especialista em segurança sediado em Washington, Scott Morgan.
Mudança na abordagem operacional
A GSF também reflete uma mudança na abordagem operacional. Enquanto o MSS se baseava principalmente em unidades policiais, o novo esforço incorpora um componente militar mais robusto, o que permite operações mais eficazes em zonas onde grupos armados mantêm um controle significativo.
“É uma mudança significativa porque altera as regras de confronto. A opção militar atua no terreno de forma mais contundente, permitindo, por exemplo, expulsar as gangues dos bairros, inclusive com o uso da força, se necessário”, explicou Morgan.
Em uma coletiva de imprensa realizada poucos dias antes da aprovação da resolução, Henry Wooster, encarregado de negócios na Embaixada dos Estados Unidos no Haiti, descreveu a mudança de estratégia ao definir o novo mandato como “mais sólido, mais contundente” e com uma “liberdade de manobra para perseguir essas gangues, para levar a luta diretamente ao seu território”.
Entre os desenvolvimentos mais relevantes está o envio de tropas do Chade, cujo exército consolidou sua reputação nos últimos anos por sua capacidade de operar em ambientes complexos e de alto risco. “A reputação do exército chadiano em operações de manutenção da paz melhorou consideravelmente nos últimos anos. No Mali, eles demonstraram ser eficazes operando em terrenos difíceis. Essa é uma vantagem que a polícia queniana no Haiti não tinha”, explicou Morgan.
Essas capacidades são especialmente relevantes em um contexto no qual a violência se espalhou para além de Porto Príncipe, atingindo departamentos como Artibonite e o Centro, onde grupos armados — incluindo gangues como Gran Grif e a coalizão Viv Ansanm — consolidaram seu controle sobre rotas estratégicas e recursos locais.
Dados recentes refletem a magnitude do desafio. Somente em 2025, mais de 5900 pessoas foram assassinadas no Haiti, contra mais de 5600 em 2024. Em algumas áreas de Porto Príncipe, as taxas de homicídio estão entre as mais altas do mundo.
Além da segurança
O impacto da GSF é cada vez mais medido por sua contribuição para restabelecer a presença do Estado em áreas há muito tempo afetadas pelo controle das gangues. Isso inclui melhorar o acesso a estradas e rotas de abastecimento, facilitar a entrega de ajuda humanitária e criar condições para a reabertura de escolas, mercados e serviços essenciais.
À medida que as operações avançam e a coordenação melhora, a presença de forças de segurança mais coordenadas e sustentadas contribui para restabelecer a ordem e a previsibilidade nas comunidades afetadas, um passo fundamental para reconstruir a confiança nas instituições. Em um contexto no qual grupos armados exerceram controle por meio da coerção e onde a presença do Estado tem sido limitada, a presença sustentada de forças de segurança profissionais e responsáveis é essencial para restabelecer a normalidade e reforçar a confiança pública.



