
Em menos de dez anos, o Equador deixou de ser o segundo país mais seguro da América Latina para se tornar o mais violento da região. De acordo com o anual Boletim de Homicídios Intencionais do Observatório Equatoriano do Crime Organizado (OECO), em 2023, com uma média de 47,25 homicídios por 100.000 habitantes, o Equador está na lista dos 10 países do mundo com maior incidência de crimes. O narcotráfico foi o fator decisivo para essa transformação.
María Paula Romo Rodríguez, ex-ministra do Interior do Equador (2018-2020), hoje uma investigadora associada da Universidade Internacional da Flórida, explica à Diálogo que “até alguns anos atrás, a indústria criminosa do narcotráfico era a mais importante do país, mas hoje é um erro fazer um diagnóstico focado nela. As atividades criminosas se expandiram e se diversificaram e, entre as mais importantes, devemos considerar a mineração ilegal, o tráfico de pessoas, o corte ilegal de árvores, o tráfico de espécies e, em termos de afetar uma grande porcentagem da população, a extorsão”.
De acordo com Romo, são múltiplas as razões para essa crise de segurança que ameaça toda a região. O aumento da pobreza e do desemprego durante a pandemia da COVID-19, as más decisões de políticas públicas, a corrupção, bem como os problemas decorrentes da desmobilização dos grupos armados na Colômbia, tiveram um papel importante no aumento da criminalidade.
“No país vizinho, o número de hectares plantados com coca se multiplicou e, enquanto isso, o Equador subsidiou precursores como a gasolina, estradas, portos, aeroportos e um sistema financeiro dolarizado”, que atraíram criminosos, explica Romo.
O crescimento exponencial do mercado ilegal de armas é uma das consequências mais graves de todas essas atividades ilícitas. De acordo com o Índice Global de Crime Organizado 2020, produzido pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), o tráfico de armas é considerado o mercado criminoso mais predominante no Equador, o que torna o país um “espaço altamente vulnerável”.
“O que vemos no Equador é que cada vez há armas de maior potência no mercado, para justamente garantir uma maior proteção aos grupos criminosos envolvidos no tráfico de drogas ou na mineração, por exemplo. No caso da mineração, os grupos que a controlam precisam estar armados para poder intimidar as comunidades e poder expulsá-las efetivamente”, disse à Diálogo Carla Álvarez, professora do Instituto de Altos Estudos Nacionais do Equador e autora do livro El paraíso perdido? Tráfico de armas de fuego y violencia en Ecuador, publicado em junho pela GI-TOC, com o apoio do OECO.
As armas de grupos criminosos estrangeiros

O Equador não é um produtor industrial de armas. Em 2012, como parte das medidas para conter a crescente violência, o governo equatoriano proibiu a fabricação artesanal de armas de fogo em todo o país, mas muitas pequenas oficinas optaram pela produção clandestina, especialmente nas regiões de Chimborazo e Bolívar.
No entanto, nos últimos dois anos, especialistas e autoridades também registraram um incremento no mercado ilegal de armas industriais, devido à presença cada vez mais maciça no território de grupos criminosos estrangeiros, como os cartéis mexicanos e as máfias albanesas.
“Esses grupos internacionais têm fácil acesso a armas. A novidade é que há uma relação direta entre eles e os grupos criminosos equatorianos. Cada grupo tece sua própria relação. Por exemplo, um grupo local como Los Lobos tem um relacionamento com um cartel mexicano e esse cartel o abastece diretamente com armas. Não há nenhum intermediário ou traficante que venha ao Equador e distribua armas para os diferentes grupos, mas sim cada grupo monopoliza seu próprio suprimento de armas”, afirma Álvarez.
No Equador, operam principalmente os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nueva Generación (CJNG), que, de acordo com o governo mexicano, traficam centenas de milhares de armas no país, que também são desviadas para o Equador, onde esses cartéis operam. De acordo com as autoridades locais, essas armas são trocadas por drogas, dinheiro e até mesmo informações com organizações criminosas locais, como Los Choneros, Los Lobos e Los Tiguerones.
Com relação aos criminosos albaneses, que no Equador trabalham principalmente para a máfia calabresa ‘Ndrangheta, o promotor italiano Nicola Gratteri alertou para a possibilidade de que as armas usadas no conflito na Ucrânia possam em breve acabar também na América Latina.
De acordo com Álvarez, as rotas aéreas e marítimas do tráfico de armas a partir da América Central até o Equador se cruzam com as do tráfico de drogas. Em novembro de 2023, nas Ilhas Galápagos, por exemplo, a polícia fez a maior apreensão de armas da história do Equador: 122 fuzis de assalto, 48 pistolas e 124 carregadores. Mais recentemente, em agosto de 2024, as autoridades de El Salvador apreenderam 1,2 tonelada de cocaína, munição e 34 armas de grosso calibre, incluindo fuzis AR-15 e AK 47, a bordo de duas embarcações, uma mexicana e outra equatoriana.
Por terra, por outro lado, as armas chegam da Colômbia e do Peru. Em março de 2023, foi descoberta na fronteira peruana entre Piura e Tumbes uma rede criminosa chamada Los Abastecedores de Lima y Callao, especializada nesse tipo de tráfico. De acordo com a agência de notícias France Press, as autoridades peruanas suspeitam que foi essa mesma rede que forneceu uma das armas que matou o candidato presidencial equatoriano Fernando Villavicencio, em agosto de 2023, em Quito.
“A falta de controles sobre o tráfico de armas em outros países facilita fluxos de armas maiores e mais diretos, o que permite que grupos criminosos ganhem poder no Equador”, disse Álvarez.
Cooperação internacional

A cooperação internacional “é vital, e a situação atual também pode ser explicada pelos anos nos quais se perdeu essa cooperação e trabalho. A colaboração com os Estados Unidos pode ser crucial em vários setores, como inteligência criminal, intercâmbio de informações, investigação e técnicas de investigação e a profissionalização das forças de segurança”, explica Romo.
Quando o governo equatoriano pediu ajuda internacional em sua guerra contra o crime organizado, os Estados Unidos estavam entre os países que responderam rapidamente. Em janeiro de 2024, por exemplo, durante sua visita ao Equador, a General de Exército Laura J. Richardson, do Exército dos EUA, comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), anunciou o Roteiro de Assistência ao Setor de Segurança do Equador, ou ESSAR, um plano de cinco anos que descreve as prioridades de segurança compartilhadas por Estados Unidos e Equador.
“Já temos um portfólio de investimentos muito sólido com o Equador […]. E trata-se de uma cooperação entre forças militares, entre o Comando Sul dos EUA e o Exército Equatoriano”, disse a Gen Ex Richardson, em uma entrevista ao jornal equatoriano Primicias. “Nosso portfólio tem um valor de US$ 93,4 milhões e inclui não apenas a transferência de equipamentos militares, mas também assistência humanitária e resposta a desastres, bem como educação militar profissional. Também inclui capacitação em assistência cibernética e intercâmbio de forças especiais”, acrescentou.
De acordo com Álvarez, a colaboração internacional na questão das armas também é importante para o Equador. “O Equador precisa de tecnologia estrangeira e, nesse espaço, poderia haver uma cooperação adequada sobre rastreamento”, declarou.
Considerando o papel central das armas de fogo no aumento da violência no país, a redução de sua posse ilegal, desvio e tráfico é fundamental para frustrar, em última instância, o crime organizado, concluiu.


