Contribuir para a estabilidade e a segurança da região por meio de uma cooperação séria com as nações parceiras, militares e organizações intergovernamentais é um dos principais objetivos do General de Brigada Werner Guiseppe Kioe A Sen, comandante das Forças Armadas do Suriname (SAF). Desde que assumiu o comando das SAF no final de 2022, o Gen Bda Kioe A Sen tem se concentrado no fortalecimento da interoperabilidade e no diálogo entre as forças e os parceiros regionais, para melhor combater o crime transnacional. Diálogo teve a oportunidade de conversar com o Gen Bda Kioe A Sen sobre os desafios de segurança e a cooperação regional, entre outros tópicos.
Diálogo: Quais são os últimos avanços na luta contra o crime organizado no Suriname?
General de Brigada Werner Guiseppe Kioe A Sen, comandante das Forças Armadas do Suriname: Estamos fazendo alguns avanços. Em nível político, estamos tendo mais compromissos. Informamos o presidente sobre todas as questões de segurança e a burocracia que administramos porque, quando as operações precisam ser implementadas, às vezes enfrentamos restrições financeiras. Esses briefings para o presidente são valiosos para que ele remova todas essas barreiras – isso em nível político.
Nos níveis estratégico e operacional, também incrementamos os diálogos entre todas as forças de segurança e, dentro desse contexto, temos mais operações em nível de interagências. Um exemplo disso é a operação de domínio marítimo implementada recentemente, chamada Sparimaka, que significa Stingray em inglês, na qual queríamos unir todas as forças de segurança no domínio marítimo. Foi uma operação piloto por cerca de dois meses e, nessa operação, inspecionamos mais de 120 embarcações e encontramos cerca de 34 imigrantes ilegais, a maioria proveniente da Guiana e do Brasil. Também inspecionamos uma embarcação onde nos deparamos com contrabando. Foi um conceito bem-sucedido ao qual daremos continuidade; esse é um dos avanços da fusão de todas as forças de segurança.
No mesmo contexto, também temos mais compromissos para lidar com pistas de pouso ilegais. Começamos a fazer uma operação em nível de agência para destruir pistas de pouso. Começamos novamente em 2022, após um longo hiato e, desde então até agora, destruímos cerca de 16 pistas de pouso. Sabemos que isso é apenas uma parte, mas nós a abordamos, e esse é um dos avanços que fizemos por meio de engajamentos nos níveis político, estratégico e operacional; e aumentamos todas as operações interagências.
Diálogo: O que há de novo em relação aos esforços de cooperação com os países vizinhos, como Guiana Francesa, Brasil e Guiana, para combater o narcotráfico e as organizações criminosas transnacionais?
Gen Bda Kioe A Sen: Temos um instrumento chamado Diálogo Estratégico do Escudo da Guiana. É um instrumento muito valioso para nós, porque, nessa plataforma, compartilhamos conhecimentos e desafios. Também identificamos as capacidades que eventualmente compartilhamos entre nós. Uma das conclusões do recente Diálogo, realizado em fevereiro de 2024, é que sincronizaremos todas as operações marítimas. Recentemente, conversei com o general, o comandante das forças francesas na Guiana Francesa, e tínhamos previsto manter uma discussão de acompanhamento a respeito, sobre como coordenar a sincronização de todos os domínios e das operações marítimas.
Vimos que, se um Estado controla ou aumenta o controle, as atividades criminosas transnacionais de fronteira fluem para a área de fronteira de outro parceiro do Escudo da Guiana. Portanto, criamos um plano para sincronizar todas essas operações marítimas. Essa é uma das principais conclusões do Diálogo Estratégico.
Diálogo: Em que tipo de compromissos, intercâmbios e treinamentos a SAF tem se concentrado até agora neste ano com o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM)? Como isso beneficia as SAF?
Gen Bda Kioe A Sen: Mantemos contatos regulares com o SOUTHCOM. No momento, estamos concentrando-nos no desenvolvimento de capacidades. Temos 10 militares que estão participando de atividades ou cursos de formação nos Estados Unidos. Também temos contatos regulares, por exemplo, com a CARICOM, onde realizamos cursos de treinamento, intercâmbio de assuntos, intercâmbio de especialistas e também visitas periódicas de autoridades dos EUA. Também enviamos militares aos Estados Unidos para efetuar visitas. Há uma boa cooperação com os Estados Unidos.
Outra coisa em que nos concentramos com o SOUTHCOM é o intercâmbio de informações sobre atividades criminosas transnacionais. No ano passado [2023], recebemos algumas informações sobre o aumento de voos ilegais que chegam ao Suriname que, infelizmente, aumentaram em 100 por cento. Internamente, analisamos essa ameaça e aumentamos nosso compromisso nos níveis político e estratégico, para responder a esse crime transfronteiriço. Isso faz parte de nosso compromisso com os Estados Unidos.
Trabalhamos em muitas coisas com os Estados Unidos, não apenas com o SOUTHCOM, mas também como parte do Programa de Parceria Estatal, no qual colaboramos com Dakota do Sul. Lá, temos um índice de compromissos muito elevado; acho que entre 20 e 25 compromissos por ano. Isso é muito. Também temos, por exemplo, intercâmbios de especialistas no assunto e operações humanitárias. Essa cooperação é muito valiosa para nós.
Diálogo: A segurança cibernética desempenha um papel crucial na defesa moderna, mas é um processo intrinsecamente dinâmico, no qual defensores e atacantes desenvolvem perpetuamente respostas às ações uns dos outros. Em maio, o governo do Suriname sofreu um ataque cibernético. Que tipo de cooperação e intercâmbio de melhores práticas com as nações parceiras como os Estados Unidos as SAF estão realizando, para fortalecer suas capacidades cibernéticas, para combater as ameaças cibernéticas?
Gen Bda Kioe A Sen: Efetivamente. A segurança cibernética é a principal responsabilidade da nossa Diretoria de Segurança Nacional, que faz parte do Gabinete do Presidente, e é a agência responsável pela segurança cibernética. Com relação ao incidente de maio deste ano, quando o descobriram, fecharam todos os sites [da internet] do governo, mas conseguiram colocar todos esses sites online novamente e, desde então, mudaram a interface, para ter mais controle sobre ela. Isso é em relação à segurança nacional. Mas, se observarmos o Ministério da Defesa, ainda não temos a capacidade para auxiliar o diretor de segurança nacional. O que implementamos há dois anos foi uma célula de segurança cibernética dentro do Ministério da Defesa, mas, no momento, ela está mais no nível de medidas ou instruções para o pessoal da defesa sobre como gerenciar a segurança, a segurança cibernética, as redes sociais etc. Essa é a fase em que estamos no momento. Ainda não temos a capacidade de enfrentar ou ajudar a mitigar ou contra atacar os ataques cibernéticos. Ainda não chegamos nesse nível.
Diálogo: Este ano, o senhor participou como observador da Conferência dos Exércitos Americanos (CEA), realizada em meados de fevereiro na Cidade do México. Quais foram algumas das conclusões mais importantes desse fórum multilateral para as SAF?
Gen Bda Kioe A Sen: Tivemos o prazer de participar da CEA. Após 12 anos de ausência, participamos novamente como observadores. Para nós, esse é um veículo para estarmos presentes na região e em fóruns internacionais. É importante estar presentes, porque nesses fóruns ficamos sabendo das últimas atualizações, das informações mais recentes e compartilhamos as melhores práticas. Além disso, ampliamos a rede de contatos. Para nós, é importante fazer parte dessas plataformas multilaterais, como a CEA. Nesse contexto, tivemos o prazer de participar das atividades. Recentemente, eles realizaram um primeiro exercício de comunicação com todos os países participantes e o Suriname fez parte dele. Depois de tanto tempo, a interação internacional foi motivadora para nossas tropas. Essa é uma das muitas coisas boas que recebemos da CEA. O mais importante é que você precisa estar presente nessas plataformas. Eles precisam ouvir sua opinião sobre determinadas questões e é melhor dar contribuições para gerenciar e influenciar na região, do que ficar atrás dos fatos. É muito importante que participemos da CEA.
Diálogo: Quais foram alguns dos avanços na luta contra a mineração ilegal de ouro? Que tipo de cooperação mantêm com o vizinho Brasil e as demais nações parceiras, para combater esse flagelo, que destrói e polui o meio ambiente?
Gen Bda Kioe A Sen: Para ser franco, estamos progredindo lentamente. Não é o que esperamos, mas isso se deve ao fato de termos instituições que trabalham lado a lado. Precisamos unir nossas forças, precisamos unir todas as capacidades, mas ainda não chegamos lá. Com relação à responsabilidade da Força de Defesa, se observamos nossa constituição, temos duas tarefas principais: uma é defender o Estado, a nação do Suriname, contra qualquer agressão militar estrangeira, e a segunda tarefa é apoiar as autoridades civis. Uma dessas autoridades civis são as forças policiais. Também damos apoio ao departamento de justiça pública. Sempre que eles solicitem apoio, precisamos ajudá-los. Nesse sentido, vimos que o Ministério Público está aumentando sua aplicação da lei sobre crimes ambientais, e é dessa forma que apoiamos a mineração ilegal de ouro.



