A rápida expansão no Brasil de centros de dados e plataformas de inteligência artificial (IA) chineses, como os de ByteDance, Huawei e Tencent, está suscitando preocupação. Os especialistas temem a possibilidade de espionagem cibernética, acessos não autorizados, vigilância sistémica e uso indevido de dados sensíveis para fins políticos ou comerciais, o que representa um risco para a soberania nacional e digital.
No Ceará, a ByteDance, proprietária do TikTok, está considerando construir um megacentro de dados de 900 MW na área de Pecém. Esse projeto despertou alarme, devido à sua imensa demanda de água e energia em uma região com escassez de recursos hídricos. Em abril, a Agência Nacional de Energia Elétrica rejeitou o pedido de conexão desse projeto à rede elétrica nacional, alegando insuficiência de capacidade. Mas, o verdadeiro ponto crucial não é apenas ecológico e de infraestrutura. Trata-se de quem controlará os dados brasileiros e que normas éticas e jurídicas serão aplicadas em seu gerenciamento.
“As leis de segurança da China permitem que o governo acesse dados armazenados por suas empresas nacionais, o que representa uma ameaça direta à privacidade dos cidadãos brasileiros”, disse à Diálogo Oerton Fernandes, professor e especialista brasileiro em segurança cibernética. Ele acrescenta que a infraestrutura desses centros de dados poderia tornar-se alvo de ataques cibernéticos avançados, como ransomware e ameaças persistentes avançadas (APTs).
“Os hackers poderiam aproveitar as vulnerabilidades para comprometer sistemas, bloquear o acesso a informações estratégicas e até mesmo modificar dados armazenados, prejudicando empresas e órgãos públicos, que dependem desses serviços”, afirmou Fernandes.
A posição estratégica de Pecém, com acesso a energias alternativas e sua proximidade de Fortaleza, um nódulo crucial de telecomunicações globais, amplifica essas preocupações. Na realidade, nada menos que 16 cabos submarinos que conectam o Brasil à América, África e Europa passam por essa área. Qualquer sabotagem a essas infraestruturas poderia ter repercussões em escala mundial.
Vários relatórios indicam que Pequim não possui apenas a capacidade técnica, mas também mostrou uma clara intenção estratégica de atacar essas conexões importantes em nível global, em situações de guerra híbrida ou pressão geopolítica. Como escreveu Lane Burdette na Revista de Assuntos Públicos e Internacionais da Universidade de Princeton, “a China não vê os cabos submarinos como um componente neutro de uma rede global mutuamente benéfica, mas como ativos estratégicos que poderiam ser interceptados ou cortados em um possível conflito futuro”.
Exportação de IA e governança digital
Também em Fortaleza, será criado o Centro Virtual de Investigação e Desenvolvimento em Inteligência Artificial. Essa iniciativa, resultado de um acordo que permite à Huawei (proibida em muitos países por questões de segurança) usar os data centers da Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência, Dataprev, a empresa pública brasileira responsável pelo gerenciamento do Banco de Dados da Previdência Social. O objetivo é criar a Infraestrutura Brasileira de Dados de Inteligência Artificial, “cooperar na infraestrutura de IA e construir conjuntos de dados de alta qualidade”.
Em março, a Huawei lançou no Brasil a versão em português do seu modelo generativo Pangu para aplicações industriais e empresariais. Paralelamente, a plataforma DeepSeek foi integrada aos serviços de nuvem locais, oferecendo ferramentas de IA em português.
Por meio desses projetos, a China exporta não apenas tecnologia, mas também seu próprio modelo de governança digital. De acordo com Asia Times, “a estratégia de IA da China está profundamente entrelaçada com suas ambições econômicas e políticas e visa servir aos objetivos do Estado, em vez da inovação tecnológica livre”.
Ameaça à segurança cibernética
“As empresas e os governos brasileiros que utilizam serviços em nuvem chineses podem ficar vulneráveis a bloqueios ou manipulações externas, em caso de tensões políticas ou comerciais entre o Brasil e a China”, afirma Fernandes. Segundo ele, a infraestrutura dos data centers e dos centros em nuvem não só pode ser objeto de ataques cibernéticos, mas também pode servir de plataforma facilitadora de tais ameaças. “Os sistemas mal configurados ou que carecem de medidas de segurança avançadas podem permitir que os hackers acedam e controlem os servidores, amplificando o impacto de seus ataques”, explica o especialista brasileiro.
Um dos maiores riscos é a propagação de ransomware, em que os criminosos criptografam dados essenciais, para obter pagamentos exorbitantes.
“Outra ameaça grave é a modificação dos dados armazenados, em que os cibercriminosos podem alterar informações críticas sem o conhecimento da vítima. Isso pode afetar setores como finanças, saúde e administração pública, levando a tomar decisões erradas com base em dados alterados”, afirma Fernandes.
Segundo o especialista, “há também o risco de APTs, nas quais grupos especializados em espionagem cibernética se infiltram na infraestrutura digital, permanecem ocultos por longos períodos e lançam ataques, quando as condições são favoráveis”. Tais atividades representam um risco direto à soberania nacional, pois informações estratégicas podem ser acessadas e exploradas por entidades estrangeiras.
A necessidade de controles mais rígidos
Essa integração da tecnologia chinesa ocorre em um contexto de fragilidade regulatória do Brasil, que carece de um marco legal sobre IA. Além disso, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados tem poderes limitados para lidar com as implicações sistêmicas da IA estrangeira.
“Embora representem avanços importantes na defesa dos direitos digitais dos brasileiros, é fundamental que haja um monitoramento contínuo, investimentos em infraestrutura de segurança informática e alternativas tecnológicas nacionais”, concluiu Fernandes. Sem esses controles, o Brasil poderia tornar-se vulnerável a riscos digitais, que afetam tanto a privacidade dos cidadãos, quanto a soberania nacional.


