Precipitação radioativa

Precipitação radioativa

Por Equipe do Comando Estratégico dos EUA
novembro 20, 2021

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Na esteira do segundo aniversário do desastre radioativo de Nyonoksa, a federação russa continua desenvolvendo sua arma nuclear no centro da tragédia.

Em março de 2018, o presidente russo Vladimir Putin revelou seu plano de desenvolver seis novos sistemas avançados de armas. A joia da coroa dessas armas é o Míssil Burevestnik 9M730. Essa arma, que a OTAN denominou SSC-X-9 Skyfall, utiliza um reator nuclear para aspirar, comprimir e aquecer o ar, para propulsionar o míssil que tem uma ogiva termonuclear.  Um infeliz subproduto do uso de um reator nuclear como dispositivo de propulsão é que, durante o processo de compressão do ar, ele se torna irradiado e, consequentemente, expele radiação. Desde o anúncio de sua criação, a arma já passou por inúmeros testes, a maioria deles sem sucesso. O mais desastroso desses fracassos ocorreu em 2019, quando cientistas russos que trabalhavam no projeto foram recolher o corpo do míssil disparado mais de um ano após o teste. O reator nuclear explodiu ao ser recuperado, matando cinco cientistas e dois soldados. A precipitação radioativa nuclear atingiu a cidade próxima de Nyonoksa, elevando a quantidade de radiação na área em até 200 vezes o nível normal. Sem qualquer alerta por parte do governo russo de que os testes nucleares estavam sendo realizados, a população de Nyonoksa enfrentou potenciais riscos de doenças radiológicas de longo prazo, abastecimento de água irradiado e a rotina diária foi suspensa até que a quantidade de radiação atingisse novamente níveis seguros.

Existem dois meios diferentes pelos quais os seres humanos podem ser expostos à radiação: externa e internamente. A exposição externa ocorre através de contato físico direto com partículas de precipitação radioativa no ar. Isso é comum em explosões nucleares, porque a radiação é projetada no ar em alta velocidade e tem a capacidade de percorrer centenas de quilômetros, de acordo com a velocidade e a direção do vento. Os seres humanos podem também entrar em contato direto com a precipitação radioativa depois que ela atingiu o solo. Como as precipitações radioativas podem permanecer potencialmente ativas durante anos, dependendo do material usado no reator nuclear, os habitantes das cidades mais próximas às explosões nucleares correm maior perigo. A exposição interna ocorre através de meios indiretos. Um exemplo de contato indireto é quando a precipitação repousa nas colheitas consumidas por seres humanos ou até mesmo por gado que produz leite posteriormente. Os laticínios poderiam conter partículas radioativas que seriam perigosas para quem os consumir. Tanto a exposição externa como a interna à precipitação radioativa pode ameaçar a saúde dos seres humanos, que terão consequências duradouras, que eventualmente não serão detectadas sem o equipamento adequado.

Já vimos diversos desastres nucleares anteriormente – uma lição que não se aprendeu e que sempre se repete. Em abril de 1986, o mundo assistiu a um devastador desastre nuclear na cidade de Chernobyl. A usina nuclear explodiu e enviou plumas de cerca de 6,5 toneladas de radiação a centenas de quilômetros de distância. Milhões de pessoas tiveram algum tipo de contato com a radiação e a estimativa inicial das Nações Unidas foi de que 4.000 pessoas morreriam sob os efeitos da precipitação radioativa. No entanto, essa estimativa não considerou a exposição interna à radiação de muitas colheitas e do gado. Isso significa que o número de pessoas afetadas pelas complicações de saúde de longo prazo é significativamente maior e estima-se que seja superior a 16.000, sendo talvez impossível de se mesurar com acuidade estatística.

Embora o nível da radiação de Nyonoksa não chegue nem perto do de Chernobyl, os resultados da precipitação radioativa poderiam ser os mesmos. Como o governo russo se recusou a notificar os moradores próximos sobre a explosão durante muitos dias, a radiação teve tempo de avançar e atingir os reservatórios de água potável, o gado e o abastecimento de alimentos. Pode demorar anos ou até décadas até que os afetados pela explosão comecem a sentir os efeitos colaterais da radiação, mas, enquanto isso, a Rússia continua testando sua arma nuclear. O mundo aguarda com desaprovação o próximo desastre nuclear. Se fazer a mesma coisa várias vezes esperando obter resultados diferentes se chama insanidade, então esse míssil nuclear é uma insanidade!

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