O vice-ministro de Unidades Especiais do Ministério da Segurança Pública da Costa Rica, Manuel Jiménez Steller, adiciona ao seu importante cargo uma sólida formação em direito penal e uma vasta experiência como procurador. Depois de ter conduzido investigações complexas sobre crime organizado e recebido formação especializada em áreas como lavagem de dinheiro, operações marítimas contra o narcotráfico e segurança cibernética, seus conhecimentos especializados contribuem diretamente para a resposta estratégica do país às ameaças em constante mudança na área de segurança.
Nesta entrevista à Diálogo, o vice-ministro Jiménez detalha as iniciativas integrais que está promovendo, desde a segurança de portos cruciais e a melhoria da cooperação internacional, até a gestão de fluxos migratórios sem precedentes e o reforço das defesas de cibersegurança.
Diálogo: A Costa Rica está passando por uma onda de violência ligada ao crescimento do crime organizado. Que estratégias o Ministério da Segurança implementou para combater esse flagelo?
Vice-ministro de Unidades Especiais do Ministério da Segurança Pública da Costa Rica, Manuel Jiménez Steller:
Há aproximadamente 10 ou 15 anos, a Costa Rica vem enfrentando um aumento na presença de grupos criminosos internacionais. Isso fez com que o país fosse usado como ponto de armazenamento de drogas em trânsito para os Estados Unidos e a Europa. No início, essas organizações pagavam a logística em dinheiro vivo, mas depois passaram a pagar com drogas. Isso gerou uma mudança, pois as organizações criminosas tiveram que distribuir essas drogas no mercado local, o que provocou um aumento da violência, de homicídios e assassinatos por encomenda, devido à luta pelo controle dos pontos de distribuição e dos lucros.
Então, tivemos que repensar nossa abordagem a esses fenômenos criminosos. A primeira medida tomada pela Presidência da República foi dar início à Operação Soberania, que consiste em assumir o controle da segurança dos portos, que antes contavam com segurança privada. Pela primeira vez, a polícia entrou no porto de Moín, concessionado a uma empresa europeia, e assumiu o controle, em 13 de junho de 2023. Foi implementada a utilização de scanners para examinar 100 por cento das exportações, o que significa que todos os contêineres que saem do país são escaneados.
Também tivemos que mudar as estratégias de investigação. Nossa polícia de controle de drogas, responsável pela investigação de psicotrópicos, saiu de alguns postos fixos para postos móveis, modificando suas operações para concentrar-se em redes criminosas de longo alcance. Isso nos obrigou a abrirmo-nos internacionalmente, a estabelecer contato com países aliados, para o intercâmbio de informações e operações conjuntas. Também criamos um importante centro, onde concentramos as informações de inteligência e as operações. Esse centro reúne todas as unidades policiais, bem como outras instituições, como alfândegas, agricultura e saúde, que são instituições administrativas, mas que acabam tendo impacto na questão da segurança.
Diálogo: De acordo com a Organização Internacional para as Migrações, a Costa Rica tem experimentado um aumento sem precedentes no número de pessoas em trânsito que chegam ao país. Como a imigração afetou a segurança da Costa Rica? E que medidas as autoridades costarriquenhas tomaram internamente e com o apoio de nações parceiras, para mitigar essa crise migratória?
Vice-ministro Jiménez: Tivemos um pico muito alto de grupos migratórios que viajavam do sul para o norte. Os países da região não têm capacidade econômica nem infraestrutura para dar apoio e sustentabilidade a grupos tão grandes de migrantes. Então, estabelecemos uma estratégia, principalmente com o Panamá, para realizar um fluxo controlado de migrantes, a fim de permitir uma passagem controlada e segura dessas pessoas, evitando que fossem expostas a organizações criminosas que se dedicam ao tráfico de pessoas. Isso garante a segurança enquanto transitam por nossos países.
Para isso, foi necessária a coordenação com as instituições de migração, saúde e segurança social, uma vez que esse fluxo migratório incluía algumas pessoas que podiam comprometer a segurança de ambos os países. Recebemos também muita cooperação a nível internacional, para poder fazer um controle biométrico dessas pessoas e identificar algumas ameaças e riscos.
Diálogo: No início de fevereiro de 2025, a Costa Rica anunciou que serviria como “país ponte”, colaborando com os Estados Unidos na repatriação de migrantes indocumentados de países distantes. Qual é a importância dessa cooperação com os Estados Unidos para a segurança regional? Que medidas foram tomadas para abrigar e prestar assistência aos deportados?
Vice-ministro Jiménez: A Costa Rica abriu as portas para receber essas pessoas que seriam repatriadas. Temos um centro de atendimento a migrantes no sul do país. Essas pessoas foram recebidas e transferidas para esse centro; elas não estão privadas de sua liberdade, estão lá voluntariamente. O que fazemos é garantir que tenham teto, comida, acesso à saúde e estamos colaborando e facilitando o processo de repatriação para seus países de origem ou para terceiros países que queiram recebê-los. Recebemos um total de 200 pessoas [até início de abril] e pelo menos 90 delas já foram repatriadas. Explicamos quais são seus direitos e obrigações para permanecer no país e nesse centro. Todo esse processo é realizado em colaboração com nossos aliados internacionais e a ONU.
Diálogo: Em dezembro de 2024, a Costa Rica e o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) descobriram e frustraram uma ameaça de agentes maliciosos baseados na China, que tinham se infiltrado nas redes do país centro-americano. Como tem sido a colaboração com o SOUTHCOM em matéria de segurança cibernética?
Vice-ministro Jiménez: Essa cooperação tem sido vital e fundamental, sobretudo porque a Costa Rica não tinha uma plataforma de controle no ciberespaço. Lembremos que, em 2022, o país sofreu um ataque de hackers às suas principais instituições, que colapsaram durante algumas semanas. Recebemos muitíssimo apoio dos governos dos Estados Unidos, Israel e Espanha.
A partir disso, o SOUTHCOM integrou-se aos esforços de cooperação com a Costa Rica, para evitar situações semelhantes. Nesse momento, graças às doações do SOUTHCOM, estamos desenvolvendo dois centros dedicados à proteção das instituições e do ciberespaço costarriquenho. O primeiro será integrado ao Ministério da Indústria, Telecomunicações e Comércio, e o segundo ao Ministério da Segurança Pública. Isso nos permitirá, pelo menos, blindar as principais instituições para evitar esse tipo de ataque.
Diálogo: A missão Promessa Continua do SOUTHCOM fez escala na costa caribenha da Costa Rica, para prestar assistência humanitária e apoio cívico às comunidades locais. Qual é a importância dessa missão para o governo da Costa Rica e sua população?
Vice-ministro Jiménez: A Costa Rica e os Estados Unidos compartilham uma longa trajetória de cooperação, amizade e irmandade. Esse tipo de iniciativa reforça esses laços. Elas prestam assistência às comunidades mais necessitadas e nos permitem ter também uma referência crucial, demonstrando o apoio do SOUTHCOM e dos EUA na região, na Costa Rica, para essas populações que são mais vulneráveis.


