Empresas chinesas estão se estabelecendo na Nicarágua, sufocando as pequenas empresas com produtos mais baratos, mas de qualidade muito inferior, causando uma redução nas vendas locais de até 70 por cento em algumas áreas do país, informou o diário independente nicaraguense Confidencial.
“Isso se aprofundou quando a China e a Nicarágua assinaram um acordo de livre comércio em 2023”, disse à Diálogo, em 25 de junho, Fabián Calle, professor de relações internacionais da Universidade Austral da Argentina. “Foi assim que suas relações bilaterais aumentaram, depois que a ditadura de Ortega-Murillo rompeu os laços com Taiwan e se alinhou com Pequim.”
Confidencial realizou uma reportagem entrevistando esses comerciantes, que se queixam de não poder competir com os produtos chineses, que são vendidos no varejo a preços inferiores aos preços de atacado que podem obter no mercado local.
As empresas chinesas vendem eletrodomésticos, móveis, artigos domésticos e de escritório, bem como produtos de moda, incluindo roupas, cosméticos e produtos de beleza. Elas oferecem seus produtos por até metade do preço que podem oferecer os empresários nicaraguenses, em sua maioria em lojas familiares.
A expansão das lojas chinesas na Nicarágua começou em Manágua, no Mercado Oriental, o maior da América Central, que cobre aproximadamente 88 hectares e recebe uma média de 100.000 visitantes por dia, informou o portal Desde Nicaragua.
Por outro lado, a abertura de lojas também está se espalhando pelas principais avenidas, shopping centers e locais centrais da capital, oferecendo produtos de todos os tipos a varejistas e atacadistas.
Lojas como Bazar Chino, China Mall, La Estrella, Nicaragua Electrónica, Mundo Nica e Supermercado Chino estão entre as mais conhecidas de Manágua.
“Além de seus interesses em áreas críticas, como infraestrutura estratégica, investimentos em tecnologias sensíveis, controle de cadeias e pontos de logística, a China também empurra produtos como têxteis, telefonia, eletrodomésticos e alimentos a baixo custo, prejudicando o mercado local”, alertou Calle.
Em agosto de 2023, abriu suas portas Casa China, o primeiro supermercado chinês em Manágua, de acordo com o site salvadorenho El Economista. As importações de produtos chineses de consumo em massa cresceram 114 por cento nos últimos quatro anos na Nicarágua, de acordo com Confidencial.
Pressão chinesa

Uma reportagem de junho da rede de notícias alemã DW afirma que a importação de produtos chineses não afeta apenas a Nicarágua, mas também outros países, como o Brasil, onde há um mal-estar no setor têxtil em relação aos fornecedores do regime de Pequim.
A raiva se baseia no fato de que as corporações chinesas, como a Shein, que podem produzir em condições diferentes das pequenas empresas brasileiras, já estão expulsando milhares de empresas locais do mercado. Em nível popular, há uma impressão crescente de que a estratégia da China está destruindo as estruturas empresariais locais, em vez de permitir que elas se beneficiem.
“Ultimamente, os desafios e os riscos associados à ascensão da China como participante dominante em muitas áreas econômicas e tecnológicas têm se tornado cada vez mais claros na América Latina”, disse à DW Christian Hauser, da Universidade de Ciências Aplicadas de Graubünden, na Suíça.
“A China vem interferindo política e economicamente na América Latina com seu poder financeiro e comercial há vários anos. Ela precisa desesperadamente de suprimentos de longo prazo de alimentos, peixes e minerais, como cobre, ferro e lítio. No Cone Sul, somos todos grandes produtores desses produtos”, acrescentou Calle.
A China proibiu as importações de café guatemalteco e outros produtos. Não houve uma explicação oficial, mas o presidente guatemalteco, Bernardo Arévalo, declarou que isso tinha a ver com as relações de seu país com Taiwan, observou DW.
Essa ação também prejudica os empresários da República Dominicana, onde há uma proliferação de grandes estabelecimentos comerciais chineses com um portfólio crescente de produtos, especialmente artigos como ferramentas de construção, roupas e artigos domésticos, informou o diário dominicano El Día.
Em meados de abril, uma delegação governamental do Partido Comunista Chinês visitou a Nicarágua, para reunir-se com representantes do regime Ortega-Murillo, a fim de fortalecer os laços de amizade e a cooperação econômica, relatou o site Infobae.
Desde que a ditadura nicaraguense retomou as relações diplomáticas com a China, ela anunciou mais de uma dúzia de projetos que podem afogar o país centro-americano em dívidas milionárias, relatou o portal Despacho 505.
Nesse sentido, de acordo com dados do Banco Central, a Nicarágua acumulou uma dívida externa de US$ 15 bilhões, equivalente a 97,3 por cento do seu produto interno bruto. Se os projetos propostos pela China se concretizarem, o montante da dívida aumentaria significativamente e poderia transformar o país em “uma colônia chinesa”, disse em Despacho 505 o economista e analista político nicaraguense José Dávila Membreño.
“Todos esses problemas e a influência da China são prejudiciais aos pequenos comerciantes da Nicarágua e de outros países do hemisfério. A concorrência local é desigual, desleal e antipatriótica”, concluiu Calle. “As empresas chinesas têm enormes benefícios ao assinar acordos com nações como a Nicarágua, que isentam as empresas do país asiático do pagamento de impostos. Esse tipo de ação tem ocorrido nos últimos anos em vários países da América Latina.”


