Combate a ameaças transnacionais são foco de exercício naval multinacional

Multinational Naval Exercise Focuses on Fight against Transnational Threats

Por Andréa Barretto/Diálogo
julho 06, 2017

Situações de pirataria, tráfico de drogas, armas e pessoas, imigração ilegal e terrorismo são consideradas algumas das novas ameaças à segurança marítima em todo o mundo. A fim de trocar experiências sobre o enfrentamento desse problema internacional contemporâneo, que afeta nações em diferentes graus e de diferentes formas, representantes de 12 marinhas estrangeiras, além da brasileira, estiveram juntos durante cinco dias, no Rio de Janeiro, pensando e aplicando soluções para casos bem reais, só que em cenários simulados. O exercício, batizado de “Bell Buoy”, acontece anualmente sob a égide do Grupo de Trabalho sobre o Tráfego Marítimo nos Oceanos Pacífico e Índico (PACIOS WG, por sua sigla em inglês). A Marinha do Brasil (MB) integra o grupo desde 2012 e foi a primeira vez que conduziu o evento com a participação de 30 militares brasileiros e 23 militares de marinhas estrangeiras, entre as quais estiveram a dos Estados Unidos, do Chile, da Colômbia, do Peru, da Argentina e do Equador. Todas as atividades foram desenvolvidas entre 8 e 12 de maio, no Centro de Jogos de Guerra, unidade da Escola de Guerra Naval que possui 16 salas de jogos onde foram realizadas as simulações dos casos de crise. Por se tratar de um exercício essencialmente de simulação, não foram mobilizados meios navais. “Geramos situações de acidente de navegação, sabotagem de infraestrutura portuária, sequestro de navio, invasão de plataforma petrolífera, poluição ambiental, pirataria, crise imigratória, combate à epidemia de doença infectocontagiosa e terrorismo”, contou o Capitão-de-Mar-e-Guerra da MB Paulo Renato Rohwer Santos, comandante do Controle Naval do Tráfego Marítimo (COMCONTRAM), organização da MB que planejou o “Bell Buoy 2017”. Doutrina internacional Perante as circunstâncias apresentadas, a proposta era aplicar a doutrina de Cooperação Naval e Orientação para o Tráfego Marítimo (NCAGS, por sua sigla em inglês), conjunto de medidas previstas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para combater as chamadas novas ameaças. “O Bell Buoy é o sucessor dos exercícios da doutrina Navy Control Shipping [Controle de Tráfego da Marinha] (NCS, por sua sigla em inglês) realizados desde 1951, no contexto da Guerra Fria, e fruto de um acordo firmado entre a [Marinha dos EUA] e a [Marinha Real da Austrália]”, explicou o Contra-Almirante Flávio Augusto Viana Rocha da MB, diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha. A transição da doutrina NCS para a doutrina NCAGS ocorreu quando se percebeu a migração de um cenário de Estados aliados que atuavam contra uma ameaça comum e poderosa para um cenário regional envolvendo ameaças assimétricas e não Estatais, quer dizer, “ameaças praticadas por agentes de organismos clandestinos (não necessariamente associados a um Estado), com técnicas muitas vezes simples e com grande apelo ideológico”, esclareceu mais uma vez o C Alte Rocha. Face aos problemas emulados, também foi dada aos participantes a oportunidade de conhecer e empregar os protocolos estabelecidos pelas agências governamentais brasileiras, tendo em vista que o “Bell Buoy” estava sendo realizado nesse país. A aplicação das soluções pensadas pelos grupos participantes foi feita virtualmente no sistema simulador de guerra naval. Por meio de sua interface gráfica, os simuladores retratam diversos aspectos dos cenários criados, a capacidade logística empregada, os resultados dos engajamentos entre unidades, os meios disponíveis, as informações geográficas e as condições climáticas. Com isso, os jogadores participantes podem coletar os dados necessários ao apoio às suas decisões. Terrorismo no mar O terrorismo não é uma ameaça presente, nos dias atuais, nas águas brasileiras, de acordo com o CMG Rohwer. Porém, ele diz que, considerada essa hipótese, a MB prevê uma resposta por meio de uma operação de garantia da lei e da ordem, autorizada pela Presidência da República, conforme determinado na Constituição Federal. Em muitos países, a prática de ações terroristas nas águas é, no entanto, uma realidade. Sobre isso, o CMG Rohwer ressaltou que “a Marinha brasileira acompanha atentamente a evolução da NCAGS e seus resultados reais bastante eficazes, principalmente no Chifre da África (costa da Somália e adjacências) e Golfo de Aden, em relação à pirataria e ao terrorismo”. A observação do que acontece no mundo, aliada à consciência sobre as particularidades nacionais, ajudaram a construir as situações de terrorismo que desafiaram os militares participantes do “Bell Buoy 2017”. Dentre os casos, destaca-se a infiltração de terroristas armados em um navio de passageiros; a tentativa de abordagem de um navio mercante por extremistas a bordo de uma lancha rápida; e a tentativa de terroristas de abordar e danificar uma plataforma de petróleo. Tudo isso estaria hipoteticamente ocorrendo dentro das Águas Jurisdicionais Brasileiras. Com base na doutrina NCAGS e em suas próprias experiências, os participantes apresentaram alternativas de solução para cada um dos problemas colocados. “Para nós, é de extrema valia toda experiência trazida por aqueles que praticam NCAGS em situações reais contra o terrorismo”, avaliou o CMG Rohwer. Para ele, esse intercâmbio é um dos aspectos que faz o exercício “Bell Buoy” ser tão proveitoso. “A importância de participar como membro efetivo do PACIOS WG, bem como dos exercícios “Bell Buoy”, reside fundamentalmente na oportunidade ímpar de acompanhar de perto as evoluções doutrinárias, nos permitindo, inclusive, adaptar suas melhores práticas à nossa doutrina, quando isso se identifica adequado à nossa realidade.”
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