Em um importante esforço internacional, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica, patrocinada pelos Estados Unidos e pelo Panamá, que autoriza a criação da Força de Repressão às Gangues (GSF), no Haiti. O objetivo é claro e urgente: enfrentar diretamente o crime organizado que, há anos, semeia o terror na ilha caribenha e perpetra assassinatos em massa contra a população civil.
A força multinacional será composta por 5.550 efetivos, dos quais 5.500 serão militares e policiais, e 50 civis, de acordo com a ONU. Essa estrutura marca a transição da anterior Missão Multinacional de Apoio à Segurança (MSS), liderada por Quênia. A GSF está projetada para ser uma força maior e mais robusta, com um mandato explícito de perseguir as redes criminosas.
Primeiras operações e desafios de segurança regional
“A decisão de criar essa nova força é de extrema importância, uma vez que esse país atravessa há muitos anos uma crise complexa, na qual grupos armados mantêm a população como refém, além do fato de que a sociedade haitiana está sendo drasticamente afetada no acesso a bens e serviços essenciais, como alimentos, água, saneamento e assistência médica”, alertou à Diálogo o especialista argentino em Relações Internacionais e questões de segurança, Luis Somoza.
Desde então, a GSF entrou em ação. Em colaboração com a Polícia Nacional do Haiti (PNH) e as Forças Armadas do Haiti (FAD’H), realizou operações direcionadas e patrulhas focadas no departamento de Artibonite, por exemplo, desobstruindo a rota crucial Petite-Rivière–Liancourt–Pont Sondé.
Apesar da forte resistência da gangue criminosa Gran-Griff, a equipe conjunta GSF/PNH manteve sua missão principal: garantir a segurança da rodovia entre Pont Sondé e Verret, em Liancourt, e assegurar a entrega de veículos blindados às delegacias locais, reforçando significativamente a segurança na região.
A missão da força é ampla e ambiciosa. Ela se concentra em operações dirigidas pela inteligência contra as gangues, na proteção de infraestruturas críticas e rotas-chave, no fortalecimento das capacidades operacionais da PNH e das FAD’H, no combate ao tráfico e ao desvio de armas ilícitas, no apoio à polícia nacional na manutenção da ordem pública e na captura de líderes e colaboradores criminosos.

Ameaça transnacional
A crise no Haiti não é um caso isolado, mas representa uma ameaça importante à segurança regional, que se estende por todo o Caribe. A expansão do controle das gangues e da violência está diretamente relacionada às operações das organizações criminosas transnacionais (OCTs), que aproveitam o colapso institucional do Haiti para facilitar seu comércio ilícito.
Essa ameaça é amplificada pela expansão de grupos originários da Venezuela, como o Tren de Aragua (TdA), um grupo que foi designado como organização terrorista por vários países e cujas atividades são facilitadas pelo regime de Nicolás Maduro. Embora o TdA explore principalmente as rotas migratórias de todo o continente para o tráfico de pessoas, o tráfico de drogas e a extorsão, sua presença evidencia a vulnerabilidade dos países do Caribe diante de grupos terroristas sofisticados e bem dotados de recursos.
As gangues do Haiti, empoderadas pelo fluxo maciço e ilícito de armas e que coordenam cada vez mais seus ataques, funcionam essencialmente como parceiras em um ecossistema criminoso regional mais amplo. Portanto, o sucesso da GSF em neutralizar esses grupos armados e proteger os portos e rotas de trânsito importantes do Haiti é considerado uma medida essencial para prevenir a desestabilização regional e combater as OCTs que ameaçam todo o Hemisfério Ocidental.
A crise humanitária é profunda. “O Haiti é o país mais pobre do hemisfério e um dos mais pobres do mundo, pois cerca de 60 por cento de sua população vive abaixo da linha da pobreza e os grupos criminosos tomaram locais estratégicos nos arredores da capital Porto Príncipe, o que facilita o tráfico de drogas e armas”, destacou Somoza.
Reações internacionais e cooperação
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, comemorou o destacamento da GSF e defendeu uma ação “rápida”, instando outros países a unirem-se ao esforço, segundo informou EFE.
Vários países já comprometeram pessoal para a força. Quênia continua sendo a nação líder e outros países, como Bahamas, Belize, El Salvador, Guatemala e Jamaica, se comprometeram ou enviaram efetivos militares em apoio à missão.
Um exemplo notável do compromisso é o Exército da Guatemala. Um contingente de 150 militares guatemaltecos concluiu recentemente seu treinamento para integrar-se à força. O Coronel Luis Alfredo Sáenz, comandante do grupo, declarou ao Diario Las Américas: “Isso demonstra o grande compromisso que temos como policiais militares em ser embaixadores com uniforme, guardiões da paz e soldados da esperança para o povo haitiano.”
A situação em Porto Príncipe é crítica: os grupos armados controlam 90 por cento da cidade, bloqueando estradas, atacando infraestruturas e aterrorizando a população com sequestros, violações e assassinatos. Só em 2024, mais de 5.600 pessoas foram assassinadas, segundo indicou a ONU.
Desde março de 2025, a violência se espalhou para outras áreas antes consideradas seguras, como os departamentos de Artibonite e Centro, onde o deslocamento forçado já afeta mais de 239.000 pessoas. No total, mais de 1,3 milhão de haitianos foram deslocados, com serviços essenciais, como assistência médica e distribuição de alimentos, colapsados.
Gangues aliadas e caça de líderes
As gangues, outrora rivais, deixaram de lado suas diferenças para enfrentar juntas as forças da ordem. “Essas facções criminosas que antes eram rivais, que em algum momento tiveram confrontos por disputas territoriais, agora uniram forças e formaram alianças para lutar contra os esforços da Polícia Nacional do Haiti”, alertou Somoza.
Em agosto, o Departamento de Estado dos EUA aumentou a recompensa para US$ 5 milhões por informações que levem à captura de Jimmy Cherizier, conhecido como Barbecue, o líder mais temido das gangues armadas haitianas.
A promotora Jeanine Ferris, do Distrito de Columbia, justificou a recompensa: “Ele é o líder de gangue responsável por abusos atrozes aos direitos humanos, incluindo violência contra cidadãos norte-americanos no Haiti […]. Nosso escritório se compromete a garantir a segurança dos norte-americanos em qualquer lugar do mundo, e a violência das gangues que afeta o Haiti deve acabar.”
O futuro do Haiti: entre a esperança e o desafio
Para Somoza, a GSF deve agir com firmeza para conter a onda de violência. “É transcendental que os Estados Unidos e os países da região apoiem com ajuda humanitária e segurança, buscando consensos diplomáticos e acordos de cooperação para que o Haiti consiga neutralizar essas gangues”, afirmou.
Do Haiti, a resposta institucional tem sido de cautelosa esperança. Laurent Saint-Cry, presidente do Conselho Presidencial de Transição, comemorou a criação da GSF. O primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, por sua vez, considerou que a força “constitui um avanço importante na colaboração entre o Haiti e a comunidade internacional”, segundo informou France 24.
Luis Somoza concluiu com um apelo à ação internacional: “Uma ação internacional decidida e coordenada será o eixo para alcançar a estabilidade do Haiti, acabando com a brutalidade com que as gangues assolam o país e, dessa forma, garantir a paz nessa região do Caribe.”


