Uma organização criminosa transnacional (OCT) chinesa, composta por cidadãos chineses e chilenos, foi desmantelada em Iquique, após uma investigação conjunta entre a Polícia de Investigações (PDI) e o Ministério Público do Chile, com o apoio do Departamento Federal de Investigação (FBI) dos EUA. Embora a rede utilizasse dezenas de subordinados para a logística local, a empresa foi identificada como uma entidade do tipo tríade chinesa, que utilizava a região de Tarapacá como centro estratégico para crimes financeiros globais.
Operando a partir de armazéns e empresas fictícias dentro da Zona Franca de Iquique (ZOFRI), essa organização liderada por chineses defraudou mais de US$ 200 milhões de centenas de vítimas, entre elas cidadãos norte-americanos. Esse caso expõe a sofisticação das máfias chinesas na hora de explorar os sistemas financeiros locais, para facilitar a fraude internacional em grande escala.
Fraudes transnacionais e lavagem de dinheiro
A investigação começou em maio de 2025, após uma denúncia internacional do FBI, detalhando fraudes predatórias de investimento online. As vítimas eram contatadas através das redes sociais, onde se construía uma relação de confiança, antes de persuadi-las a transferir grandes somas de dinheiro para contas no Chile.
Para ocultar a origem ilícita do dinheiro, a quadrilha criou cerca de 119 sociedades comerciais, entre empresas fictícias e outras legítimas, que permitiam fragmentar e triangular os fundos.
“Ficou demonstrado que existe um corredor para a lavagem de dinheiro em nosso país”, disse à imprensa o prefeito inspetor Erick Menay, chefe nacional contra o Crime Organizado da PDI. “O dinheiro passava por diferentes contas até perder o rastro e ser instalado em empresas consolidadas, disfarçando esse patrimônio.”
A operação principal, realizada em janeiro de 2026, mobilizou mais de 500 detetives e resultou em dezenas de buscas. A Promotoria Regional de Tarapacá conseguiu a prisão preventiva de 12 líderes da organização, aos quais é atribuído o controle estratégico e financeiro da rede.
A vulnerabilidade da ZOFRI
Embora a ZOFRI seja uma pedra angular do comércio regional, este caso revelou como suas disposições tarifárias e controles limitados a tornaram um “alvo” para as OCTs. Guillermo Holzmann, analista internacional, alertou à Diálogo que a vulnerabilidade da zona é agravada pela falta de um intercâmbio de dados modernizado e em tempo real. “O sistema precisa ser modernizado em vários níveis”, afirmou.
O caso também ressalta a importância da colaboração internacional para neutralizar o crime transnacional. “Os fatos demonstram que existe uma vontade política para avançar nessa área […]”, declarou Holzmann. Além disso, destacou como os grupos de trabalho integrados, como a cooperação entre a PDI e o FBI, geram resultados eficazes.
As raízes das máfias chinesas no Chile
O caso não é um fato isolado. Diversas investigações demonstraram como as máfias chinesas encontraram no Chile um terreno propício para operar, aproveitando-se de lacunas legais e do seu conhecimento do marco normativo local. De acordo com InSight Crime, desde 2010, essas organizações têm estado envolvidas em crimes como roubo de propriedade intelectual, tráfico de maconha, operação de cassinos ilegais, tráfico de pessoas, comércio sexual e lavagem de dinheiro.
Paralelamente ao crescimento do comércio e da migração, as organizações criminosas se enraizaram. À medida que o número total de cidadãos chineses no Chile crescia significativamente – chegando a mais de 13.000 pessoas em 2018, de acordo com o Serviço Nacional de Migrações do Chile –, as células mafiosas aproveitaram esses fluxos crescentes de pessoas para encobrir suas operações ilícitas.
Em 2020, a Promotoria Sul desmantelou uma célula vinculada ao grupo do crime organizado Bang, originário da província de Fujian, na China. Essa rede operava em regiões como O’Higgins e Metropolitana e se especializava no cultivo de maconha em escala industrial e no tráfico de cidadãos chineses para trabalhos forçados. A descoberta de estufas automatizadas de alta tecnologia e centros de entretenimento clandestinos refletiu um novo nível de sofisticação criminosa e de incursão territorial no país.
A barreira linguística é mais do que um obstáculo para as investigações; é um mecanismo de defesa calculado. Ao utilizar dialetos regionais, essas organizações criam um vazio que as autoridades locais têm dificuldade para penetrar. Como ressaltou Holzmann, esse isolamento linguístico costuma funcionar como um escudo processual nos tribunais, onde a falta de serviços de interpretação especializados pode comprometer a capacidade do Estado para obter uma condenação.
Problema transnacional
Embora a expansão do comércio entre o Chile e a China se baseie em acordos bilaterais legítimos, o mero volume desse intercâmbio comercial fornece uma camuflagem para que organizações criminosas e, de forma não intencional, redes criminosas integrem suas operações, usando a aparência de negócios legítimos, para explorar as zonas cinzentas da regulamentação.
Além disso, embora o Estado chinês não sancione oficialmente os atos criminosos, muitas vezes existe uma tolerância tácita em relação às organizações, cujas operações estão alinhadas com os objetivos estratégicos. Isso cria uma zona cinzenta, na qual os grupos criminosos operam com um nível de liberdade que sugere que suas atividades são consideradas um lucro líquido para a influência regional do seu país de origem.
Nesse contexto, a presença dessas organizações no Chile não apenas representa um desafio para as autoridades locais, mas também para a cooperação internacional na luta contra o crime transnacional. Essa evolução criminosa e a falta de transparência que a cerca representam uma ameaça significativa para a estabilidade e a segurança de longo prazo de toda a região.


