Entrevista com o General-de-Brigada César Acosta Bonilla, chefe do Estado-Maior Conjunto, Forças Armadas de El Salvador.

Interview with Major General César Adonay Acosta Bonilla

Por Dialogo
maio 29, 2012


Em abril de 2012, líderes militares e civis de 13 países do hemisfério ocidental reuniram-se em São Salvador durante a Conferência Centro-Americana de Segurança. O evento, auspiciado pelo Comando Sul dos EUA e pelas Forças Armadas de El Salvador, somou-se aos esforços para fortalecer a cooperação e combater o crime organizado na região.

O anfitrião do país sede, General-de-Brigada César Adonay Acosta Bonilla, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de El Salvador, fez uma pausa para conversar com Diálogo sobre os desafios que enfrentam os militares salvadorenhos, a violência gerada pelas quadrilhas de narcotraficantes e o investimento de seu país para a paz internacional.

Diálogo: Qual é seu principal desafio como chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de El Salvador?

General-de-Brigada César Adonay Acosta Bonilla, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de El Salvador: Temos dois desafios principais: continuar com o desenvolvimento institucional e a profissionalização das Forças Armadas, para sermos mais eficazes no cumprimento de nossas missões, e realizar mais efetivamente os planos que relacionamos com o apoio dado à segurança pública no combate à criminalidade. Hoje em dia o desafio também é procurar saber como podemos integrar esses esforços no âmbito regional entre as Forças Armadas e este fórum na verdade trata desta questão. É um desafio, na medida em que cada país tem suas estratégias unilaterais, mas nosso desafio é saber como integrar todas essas estratégias em um objetivo comum: combater o crime organizado transnacional.

Diálogo: Como o senhor acha que se pode atingir esta coordenação citada entre as Forças Armadas dos países da América Central, América do Sul e Caribe?

General-de-Brigada Acosta: Um fórum como este, como a Conferência Centro-Americana de Segurança, busca exatamente isto, trocar ideias, enfoques, estratégias. Assim sendo, a chave está em como concatenar tais esforços em função deste grande objetivo. Para isto, acredito que a harmonia entre nossas instituições legais e a disposição de integrarmos nossos esforços constituirão uma estratégia muito importante, de onde poderemos traçar diferentes planos para combater este flagelo.

Diálogo: Já existem exemplos desta cooperação que o senhor menciona?

General-de-Brigada Acosta: Evidentemente! Na realidade, reconhecemos os esforços do Tenente-Brigadeiro-do-Ar Douglas Fraser, a quem atribuímos a liderança, por ter tido a iniciativa de integrar esses esforços. A Operação Martillo é um claro exemplo de como se pode buscar esta integração das estratégias, para que nossos países usufruam de um grau mais alto de estabilidade para servir à paz, à democracia e para criar um clima mais favorável ao desenvolvimento nacional.

Diálogo: O senhor poderia elaborar sobre o tema da participação das Forças Armadas de El Salvador na Operação Martillo?

General-de-Brigada Acosta: A Operação Martillo começou em janeiro no Atlântico, mas nossas costas estão no Pacífico. Existe disposição e vontade, primeiramente do governo de El Salvador, de se integrar a esses esforços. No momento, o esforço principal é o Pacífico. Nós, como país e como Força Armada de El Salvador, estruturamos nosso plano, que servirá para apoiar esta iniciativa e para integrar esses esforços dos quais estamos falando. Coordenamos com o Tenente-Brigadeiro-do-Ar Fraser a maneira através da qual podemos participar desta Operação Martillo, para que nasçam os frutos e os resultados que todos esperamos.

Diálogo: Os militares salvadorenhos têm um papel muito ativo e diversificado na vida do seu país e, além disto, participam de missões de paz em nações muito afastadas do nosso continente. O senhor poderia nos falar sobre o grupo que seguirá em breve para o Afeganistão?

General-de-Brigada Acosta: Entre as principais experiências do trabalho conjunto que realizamos homem a homem com os Estados Unidos, sobressai-se a Operação Libertad para o Iraque, para a qual destinamos 11 contingentes (de 2003 a 2007). Essa foi uma experiência muito valiosa em vários sentidos. Primeiramente, porque integramos esforços a favor da paz mundial e trabalhamos com muito prazer com o Exército dos Estados Unidos e, em segundo lugar, porque nos permitiu profissionalizar nossas forças através da experiência que adquirimos com as operações. Felizmente, cumprimos a missão que tínhamos no Iraque e agora estamos preparando nosso segundo contingente para o Afeganistão, o que fazermos com muito prazer, como país e como Força Armada. Continuaremos ali, enquanto for necessário.

Diálogo: Qual é a intensidade do vínculo existente hoje entre as quadrilhas e o narcotráfico em El Salvador? Qual é a estratégia das forças militares para combater este fenômeno?


General-de-Brigada Acosta:* Sim, de fato o fenômeno das quadrilhas e do narcotráfico em El Salvador toma um rumo especial, porque eles se mesclam. Nós reconhecemos que a região é um corredor do narcotráfico, mas estas atividades do sul para o norte em nossos países criam níveis de violência incomensuráveis. As quadrilhas transformam-se em um fenômeno onde também existe uma luta pelo controle do mercado e dos territórios gerada pela violência. Por isto é que nós aqui confirmamos esta situação de que as quadrilhas traficam com armas, formando o que denominamos o narcovarejo, um gerador de violência.


Ciente disto, a partir de 6 de novembro de 2009, nosso presidente pôs à disposição as Forças Armadas em um apoio decisivo e direto à Polícia Nacional Civil para a segurança pública. Assim foram criados vários esforços. Por um lado temos o Comando Zeus, enviado para as 33 regiões de maior incidência de criminalidade, e depois de dois anos desse esforço os resultados têm sido muito positivos. Por outro lado, estamos também desenvolvendo operações de apoio à segurança pública na região da fronteira, através do Comando Sumpul. O que pretendemos ali, nos pontos não habitados das fronteiras, que são 62 pontos que cobrimos, é exatamente erradicar e evitar o tráfico de drogas, evitar o contrabando, evitar todo tipo de crimes que possam circular através da fronteira. Por fim, temos o Comando San Carlos, pois vimos que a partir dos centros penais partiam ordens de crimes até o exterior. Assim decidimos assumir o controle parcial dos centros penais. Atualmente, esta missão foi retomada por tais centros, mas nós continuamos com o Comando San Carlos, dando segurança e proteção aos centros penais.

Desde 1993 estamos apoiando a Polícia Nacional Civil, através do que denominamos agora Grupos Conjuntos de Apoio à Comunidade, que são equipes de tarefa formadas por policiais e soldados que estão nas comunidades, proporcionando segurança e melhorando seus níveis nas diferentes localidades.

Diálogo: Nesse momento, como é feita a colaboração com os militares dos demais países da região?

General-de-Brigada Acosta: Felizmente temos na América Central uma entidade denominada Conferência de Forças Armadas da América Central, onde existe um diálogo franco entre as Forças Armadas e também estamos envidando esforços para combater a criminalidade.

Uma das maneiras de fazê-lo é a coordenação constante que temos entre os comandantes das unidades de fronteiras. Mantemos reuniões mensais entre os comandantes; para citar um exemplo, o comandante de uma unidade de fronteira de El Salvador reúne-se com o comandante de uma unidade de fronteira de Honduras e com outro comandante de uma unidade de fronteira da Guatemala. Eles se reúnem e coordenam esforços nas unidades de fronteiras para desenvolver patrulhamentos que localizem e apreendam grupos de criminosos que tentam praticar atividades ilícitas. Isto gera um clima de confiança e cooperação entre os países para enfrentarem os diversos desafios que representam as ameaças transnacionais.

Diálogo: Se o senhor tivesse a possibilidade de fazer algo mais para melhorar a situação do narcotráfico e do crime organizado transnacional, o que o senhor faria?

General-de-Brigada Acosta: Como já dissemos, o problema é regional ou global e necessita de soluções globais. Primeiramente, é preciso ver a origem deste fenômeno. Sabemos que há uma base de produção e uma base de consumo. Entre a base de produção e a base de consumo há uma rota que une os dois fenômenos. Então creio que seria interessante estruturar uma estratégia continental voltada para esta situação e desenvolvê-la, porque temos estratégias para combater o fenômeno do narcotráfico, o fenômeno do crime organizado. Existe uma estratégia para este combate, mas acredito que seja preciso trabalhar muito em uma estratégia voltada para erradicar a produção e também orientada para o consumo. Se existe produção haverá consumo e se há consumo existirá a produção. Quando esses dois fatores se unem, surge a violência. Assim sendo, é preciso buscar ideias ou estratégias para esta questão também.

Diálogo: O senhor tem algo mais a comunicar aos leitores de Diálogo?

General-de-Brigada Acosta: Gostaria de agradecer ao Comando Sul por sua presença aqui [na Conferência Centro-Americana de Segurança], e reafirmar, em nome das Forças Armadas de El Salvador, nossa disposição de integrar todos os esforços possíveis para que tenhamos um continente melhor, que a América seja verdadeiramente um continente de paz, de segurança e de democracia.



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