Frente hemisférica: Resposta estratégica do Peru às ameaças mutantes

O General de Exército David Guillermo Ojeda Parra, do Exército do Peru, condecorado e experiente chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, dedicou 38 anos a um serviço distinto. Sua carreira, que inclui ampla experiência no terreno e cargos de liderança, desde os Andes até o Comando Geral do Exército, lhe proporciona uma perspectiva única sobre os desafios de segurança que a região enfrenta.

Diálogo teve a oportunidade de conversar com o Gen Ex Ojeda, durante a Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC) 2025, na Argentina, onde falou sobre sua visão estratégica para as Forças Armadas do Peru, os sucessos do país na luta contra ameaças transnacionais e o papel fundamental da cooperação internacional.

Diálogo: Quais são suas impressões sobre a Conferência Sul-Americana de Defesa deste ano e os temas analisados?

General de Exército David Guillermo Ojeda Parra, do Exército do Peru, chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas: Foi um reencontro com amigos da Conferência do ano passado, no Chile. Temos trabalhado para alcançar os objetivos que nos propusemos, fortalecendo alguns e avançando em outros, e acredito que estamos no caminho certo. Verificamos que as ameaças comuns – ameaças transnacionais que se transformam, integram-se e minam o Estado de Direito –  estão se fortalecendo. Se nós, como forças armadas e sociedades civilizadas, não nos unirmos, poderíamos enfrentar sérios problemas. Felizmente, estamos unidos e temos objetivos claramente definidos. Acredito que chegaremos a acordos que nos permitirão combater eficazmente essas ameaças.

Diálogo: Quais são seus principais objetivos, como chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru, e como avalia o panorama atual das ameaças transnacionais?

Gen Ex Ojeda: Meus principais objetivos são três: o primeiro é fortalecer nossas capacidades, para podermos enfrentar com eficácia qualquer ameaça externa ou interna. As ameaças externas provêm do crime organizado transnacional, que transcende as fronteiras. As ameaças internas são o produto da instabilidade causada por essas mesmas organizações criminosas. Em segundo lugar, nosso objetivo é fortalecer a segurança interna. E, em terceiro lugar, queremos contribuir para o desenvolvimento nacional.

Diálogo: As Forças Armadas do Peru estão na linha de frente da luta contra o narcotráfico. Qual é a sua estratégia geral para restabelecer a estabilidade das regiões mais afetadas e qual é o balanço das operações nessa luta, no decorrer deste ano?

Gen Ex Ojeda: O balanço é positivo. Tivemos resultados muito bons nas operações contra o narcotráfico nas zonas rurais, o que representa uma clara melhoria em comparação com o ano passado. Estamos combatendo o tráfico de drogas com bastante firmeza.

Até agora, neste ano, tivemos um impacto, quanto ao tráfico ilícito de drogas, de mais de US$ 100 milhões, e esse número está aumentando. Destruímos várias pistas de pouso clandestinas não autorizadas e nos concentramos em trabalhos de interdição, erradicação e controle territorial. Também combatemos o tráfico de insumos químicos fiscalizados, em estreita colaboração com a Polícia Nacional. Nosso trabalho se concentra no Vale dos rios Apurímac, Ene e Mantaro (VRAEM), mas nossas Forças Armadas também operam em outras regiões. Nossa Marinha de Guerra, por meio da divisão da Capitania dos Portos, controla os rios navegáveis e o mar territorial.

Diálogo: Em 2025, o Peru desferiu duros golpes contra a mineração ilegal em várias regiões onde essa atividade é mais prevalente, como Madre de Dios, Pataz e a área adjacente à Reserva Nacional Tambopata. Quais foram os fatores-chave na luta contra uma atividade ilícita, que ganha terreno em nível regional, e como trabalham com seus homólogos regionais, para combater esse flagelo que ameaça a segurança e o meio ambiente?

Gen Ex Ojeda: A mineração ilegal é um flagelo que assola toda a região. Todo o eixo dos Andes é uma zona mineradora e o Peru, por excelência, é um país minerador. Em algumas regiões, a mineração ilegal serve como economia de apoio ao tráfico de drogas e outros crimes relacionados. Para as organizações criminosas, é mais fácil lavar dinheiro através da mineração ilegal do que através do tráfico de drogas, que é mais detectável. É muito mais difícil traficar com insumos para [traficar as] drogas, do que para a mineração ilegal.

A mineração ilegal causa danos imensos. A mineração aluvial destrói as florestas e contamina os rios com mercúrio e outros insumos químicos, enquanto outras formas de mineração também causam danos ambientais significativos. Isso leva a outros crimes, como roubos, tráfico de armas, tráfico de pessoas, subcontratação de escravidão, tráfico de pessoas e outros crimes relacionados, como assassinatos. Para combater isso, precisamos da colaboração multidisciplinar das Forças Armadas, da Polícia Nacional, do Ministério Público, da Procuradoria da Nação, da Direção de Meio Ambiente da Polícia Nacional e da Direção de Investigação Criminal. Também precisamos da colaboração da Superintendência Nacional de Controle de Serviços de Segurança, Armas, Munições e Explosivos de Uso Civil; da Migração; do Ministério da Economia e Finanças; da Superintendência Nacional de Alfândega e da Administração Tributária; bem como da Defensoria do Povo e da Superintendência Nacional de Transporte Urbano, porque intervém em tudo.

Diálogo: É mais complexo combater a mineração do que o tráfico de drogas?

Gen Ex Ojeda: Acho que sim. Com a mineração, é muito mais difícil rastrear a cadeia de abastecimentos, porque muitos insumos podem ser adquiridos legalmente. A mineração não precisa apenas de mercúrio, mas também de escavadeiras, pás mecânicas, capacetes e lanternas. Trata-se de equipamentos básicos pessoais que podem ser adquiridos legalmente, mas cujo uso pode ser ilegal.

Nossas ações estão dando resultados muito bons. Especificamente, no setor de Pataz, tivemos um impacto de [mais de US$ 86 milhões], com a destruição de galerias, escavadeiras, dragas e outros tipos de materiais utilizados na mineração ilegal. A sinergia das instituições está dando resultados muito bons, que podem ser replicados em outras áreas.

Diálogo: A região enfrenta uma ameaça crescente de ataques cibernéticos direcionados a instituições governamentais e militares. Como o senhor avalia essa ameaça e que medidas estão tomando as Forças Armadas do Peru, para proteger a infraestrutura nacional crítica?

Gen Ex Ojeda: Nós temos um Comando Operacional de Defesa Cibernética, que está permanentemente em contato com outras instituições. Participamos de seminários e conferências e realizamos exercícios permanentes, para poder capacitar nosso pessoal e também dar capacitações a outras entidades do Estado. É uma necessidade nacional saber que sistemas temos e quais são os mecanismos para defender-nos.

Diálogo: A Guarda Nacional da Virgínia Ocidental e as Forças Armadas do Peru são parceiras há 28 anos, no âmbito do Programa de Parceria Estatal. Quais foram algumas das atividades mais significativas dessa parceria neste ano e que outros planos existem em matéria de cooperação bilateral?

Gen Ex Ojeda: A Guarda Nacional da Virgínia nos oferece uma grande oportunidade para poder melhorar nossas capacidades em matéria de controle de riscos em desastres. Realizamos vários exercícios. No ano passado [2024], participamos do Resolute Sentinel, um excelente exercício, que nos permitiu demonstrar nossas capacidades de resposta a emergências aéreas e operacionais. Vamos continuar com esse tipo de exercícios e capacitar nosso pessoal em todas as áreas de gerenciamento de riscos, desde desastres por inundações, até tsunamis e movimentos sísmicos, que possam ocorrer nesse círculo de fogo do Pacífico.

Diálogo: A longa parceria entre as Forças Armadas do Peru e o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) é baseada na confiança e na amizade. Qual é o valor estratégico dessa aliança para construir uma frente unificada contra ameaças comuns e quais são os resultados mais impactantes para as Forças Armadas do Peru?

Gen Ex Ojeda: O Comando Sul dos EUA é um grande aliado para nós. Essa aliança nos permite ser interoperáveis e enfrentar as ameaças que pairam sobre nossos países, nossas democracias, nosso sistema de vida, nossa população e o meio ambiente.

A América do Sul é a reserva ecológica do mundo e devemos defendê-la. Devemos defender nossa biodiversidade. A América do Sul não deve ser vista como uma fonte de recursos naturais. Devemos vê-la como uma riqueza natural que deve ser preservada. Também contamos com uma imensa riqueza de talento humano e temos o desejo de viver em paz e harmonia. Mas, se queremos viver em paz e harmonia, temos que estar em condições de defender nossa sociedade e nosso meio ambiente das ameaças híbridas e até mesmo transnacionais, que se apresentam na forma de criminalidade organizada. Acreditamos que o mundo é para todos e que todos temos o direito de viver em paz. O Comando Sul dos EUA nos dá a oportunidade de sermos interoperáveis e melhorar nossas capacidades militares, para poder defender a sociedade à qual devemo-nos.

Diálogo: Como o senhor imagina que será o seu legado, quando terminar o seu mandato como chefe do Comando Conjunto das Forças Armadas do Peru?

Gen Ex Ojeda: A vocação para o serviço não termina com o serviço militar. Acredito que a vocação para o serviço é uma qualidade que nasce em nós, permanece ao longo do tempo e termina conosco.

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