A América Latina tem experimentado um aumento notável de ciberataques atribuídos a grupos apoiados pelo Partido Comunista Chinês (PCC), o que destaca uma ameaça crescente e persistente à infraestrutura digital da região. De acordo com o Relatório do Panorama de Ameaças na América Latina para 2025, elaborado pela empresa de tecnologia de segurança cibernética Crowdstrike, em 2024, as atividades de coletivos vinculados ao PCC cresceram em 150 por cento, em comparação com o ano anterior.
Entre os grupos identificados, estão Vixen Panda, Aquatic Panda e Liminal Panda, que direcionaram suas operações para redes governamentais, infraestruturas de telecomunicações e sistemas de defesa. CrowdStrike destaca que esses grupos utilizam táticas de infiltração persistente, movimento lateral em redes e extração de dados, alinhando suas operações aos interesses estratégicos do PCC.
“Pequim fornece recursos diretos a esses grupos. Muitos de seus membros foram treinados dentro do Exército da China, que conta com uma unidade cibernética formal. Alguns desses elementos são posteriormente integrados a coletivos que operam como ameaças persistentes avançadas (APT)”, explicou à Diálogo Víctor Ruiz, fundador do centro de segurança cibernética SILIKN, no México.
Ruiz também destacou que, além do apoio de Pequim, esses grupos possuem autonomia financeira. “Eles contam com táticas definidas, ferramentas sofisticadas e acesso a fundos tirados de bancos ou criptomoedas, o que lhes permite realizar operações de longo alcance.”
Países como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, México, Panamá, Peru e República Dominicana têm sido alvo dessas campanhas. Os ataques exploraram vulnerabilidades em serviços críticos que utilizam tecnologia 5G, armazenamento em nuvem e centros de dados fornecidos por empresas chinesas, indica o relatório de Crowdstrike.
A Lei de Segurança de Dados da China obriga suas empresas a compartilhar informações com o regime, por motivos de segurança nacional. Essa obrigação legal cria um canal direto para o acesso aos dados, uma preocupação que se amplifica quando as empresas chinesas fornecem infraestruturas críticas. Por exemplo, Pequim ofereceu serviços de conectividade 5G a governos latino-americanos. Esse destacamento generalizado de redes 5G chinesas e do armazenamento em nuvem e centros de dados associados é motivo de alarme, pois poderia fornecer acesso oficial ao tráfego de rede e aos fluxos de dados sensíveis da região, facilitando a espionagem.
Riscos estruturais
“Utilizar infraestrutura tecnológica da China aumenta a exposição dos países latino-americanos. Empresas como a Huawei, por lei, devem compartilhar informações com o PCC, o que permite cruzar dados entre o que coletam legalmente e o que obtêm grupos APT como os Pandas. Assim, a espionagem combina capacidades civis e militares”, alertou Ruiz.
“O risco se amplifica quando fornecedores estrangeiros gerenciam infraestruturas críticas. Se uma empresa detecta informações sensíveis, pode transferi-las ao regime, que, por sua vez, as entrega a um grupo APT. Isso complica a atribuição internacional, uma vez que os ataques são atribuídos a atores desconhecidos e não ao fornecedor, nem ao governo envolvido”, acrescentou.
Cooperação hemisférica e capacidades conjuntas
Reconhecendo a ameaça persistente da espionagem cibernética, a cooperação internacional tornou-se um pilar fundamental da estratégia de defesa da América Latina. O Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), por exemplo, tem colaborado ativamente com vários governos latino-americanos, para revisar a segurança de suas infraestruturas digitais. Essas avaliações detectaram vestígios de infiltração cibernética ligada a atores estatais chineses.
Por exemplo, em dezembro de 2024, a Costa Rica e os Estados Unidos revelaram que, após uma revisão conjunta, foram identificadas infiltrações da China em sistemas de telecomunicações costarriquenhos. Um mês antes, uma avaliação semelhante no Paraguai detectou a presença do grupo Flax Typhoon, ligado ao PCC, em redes governamentais.
Após um importante ataque cibernético em 2022 feito pelo grupo de ransomware Conti, ligado à Rússia, os Estados Unidos forneceram um investimento inicial de
US$ 25 milhões dos EUA à Costa Rica, para reforçar as capacidades de cibersegurança do país e criar seu Centro de Operações de Segurança. O SOUTHCOM ampliou esse investimento com uma iniciativa de assistência em matéria de segurança de quase US$ 10 milhões, para fortalecer as capacidades de segurança cibernética do Ministério da Segurança Pública. Em outubro de 2024, a Costa Rica também anunciou a criação de laboratórios de inteligência cibernética e forenses, bem como uma rede segura de intercâmbio institucional, com apoio da União Europeia (UE), segundo CrowdStrike.
Ao longo de 2024, continuou o impulso para fortalecer a aliança. A Argentina e o Uruguai assinaram memorandos de entendimento com os Estados Unidos, para melhorar a cooperação em ciberdefesa e fomentar alianças tecnológicas público-privadas, detalha o relatório da CrowdStrike. O Paraguai aderiu a uma versão ampliada do acordo sobre crimes cibernéticos promovido pela UE, ao mesmo tempo em que o Chile assinou um acordo com essa entidade, para melhorar a resiliência cibernética regional.
“Os Estados Unidos estabeleceram acordos estratégicos com alguns países da região, mas é necessário ampliar essa cooperação”, indicou Ruiz. “Esses acordos permitem conhecer as capacidades cibernéticas dos aliados e antecipar ameaças, como ocorreu nos casos da Costa Rica e do Paraguai.”
Subestimação do risco
De acordo com o relatório LatAm Cyber Summit 2024, de Cybersecurity for Critical Assets, uma série de cúpulas mundiais que reúnem profissionais de segurança cibernética, a região registra mais de 1.600 ciberataques por segundo. Em alguns países, as perdas econômicas ultrapassam um por cento do Produto Interno Bruto (PIB) e podem chegar a seis por cento, quando afetam infraestruturas críticas.
“Na América Latina, não se avaliou o risco que representa a espionagem digital ligada ao Partido Comunista Chinês. O problema não é apenas a falta de conscientização, mas a ausência de prioridade. Muitos governos permitem o destacamento de tecnologia da China em telecomunicações, sem estabelecer mecanismos de monitoramento, nem medidas de segurança adequadas”, concluiu Ruiz.



