A China fortaleceu sua influência na América Latina através de mecanismos de pressão política, que complementam sua crescente presença econômica. Um caso recente no Panamá ilustra como Pequim intervém em decisões internas, para proteger seus interesses geopolíticos. De acordo com o meio de investigação centro-americano Expediente Público, deputados panamenhos enfrentaram pressões para cancelar uma viagem a Taiwan.
Diplomacia no Panamá
Em novembro de 2025, a embaixada da China no Panamá instou vários legisladores a suspender sua visita a Taiwan, argumentando que isso violava diretamente o princípio de “uma só China”, conforme relatou o jornal panamenho La Prensa. Os deputados confirmaram ter recebido mensagens diretas da embaixadora Xu Xueyuan, o que provocou críticas no Parlamento, que as qualificaram como uma forma de pressão diplomática, com o objetivo de influir as decisões internas.
Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores do Panamá emitiu um comunicado, no qual rejeitou qualquer tentativa de interferência externa, afirmando que a política externa é de competência exclusiva do Poder Executivo. Embora tenha esclarecido que a viagem não contava com o apoio oficial, enfatizou a importância de preservar a autonomia institucional diante de pressões diplomáticas externas.
Esse incidente desencadeou um debate interno sobre os limites da interlocução diplomática. Em vez de utilizar os canais formais entre os Estados, a embaixada chinesa estabeleceu uma comunicação direta e informal com legisladores individuais. Analistas consultados por Expediente Público alertaram que essa metodologia funciona como uma técnica precisa de pressão política projetada para eludir os protocolos tradicionais. Isso permite que uma potência estrangeira exerça influência nas estruturas funcionais mais profundas de um governo anfitrião, moldando efetivamente os resultados políticos, por meio de uma abordagem pessoal de alta pressão. Apesar da pressão de Pequim, os deputados decidiram continuar com sua viagem a Taipei.
Luis Fleischman, professor de sociologia e ciências políticas da Universidade Estadual de Palm Beach, e copresidente do Palm Beach Center for Democracy, explicou à Diálogo que “a capacidade de pressão da China na América Latina se baseia em seu peso econômico e na alta permeabilidade política da região”. Ele alertou que essa vulnerabilidade não se limita a casos de corrupção direta, mas é exacerbada por ambientes institucionais frágeis, que facilitam a interferência externa.
Padrão mais amplo de pressão
O caso do Panamá não é um fenômeno isolado, mas parte de uma tendência documentada. Em toda a região, a China tem usado sistematicamente advertências diplomáticas e contatos políticos de alto nível, para desencorajar iniciativas relacionadas a Taiwan. Essa prática reflete um padrão de influência direcionado a atores chave específicos no processo de tomada de decisões, de acordo com Expediente Público.
Em 2024, legisladores da Bolívia, Colômbia, Eslováquia, Macedônia do Norte e Bósnia Herzegovina denunciaram publicamente pressões por parte de Pequim, para que não participassem de uma conferência em Taiwan. Os parlamentares informaram que os esforços chineses buscavam evitar qualquer sinal de apoio político a Taipei, evidenciando mais uma prova da extensão da diplomacia chinesa, além dos canais formais.
Guatemala e Paraguai também enfrentaram pressões políticas relacionadas ao objetivo da China de isolar diplomaticamente Taiwan na América Latina. Em ambos os casos, Pequim combinou incentivos econômicos com gestões diplomáticas dirigidas a atores políticos, embora sem conseguir mudanças formais de reconhecimento diplomático, de acordo com o centro de análise AidData.
No Brasil, em 2020, a embaixada da China solicitou formalmente aos deputados federais que se abstivessem de pronunciamentos públicos a favor de Taiwan, considerando o tema uma “questão interna” de Pequim. Os legisladores brasileiros classificaram a comunicação como uma pressão sobre uma instituição independente, o que gerou críticas públicas com respeito à ingerência da China no debate político interno, informou o meio de comunicação brasileiro UOL.
Fleischman alertou que esse tipo específico de pressão política também está relacionado ao interesse da China em influenciar decisões sobre setores estratégicos. “Recursos como o lítio, essenciais para a produção de microchips e tecnologias digitais, ocupam um lugar central nessa lógica, devido ao seu valor para a competitividade tecnológica e a projeção econômica de longo prazo”, afirmou.
Estratégia de captura de elites
De acordo com Expediente Abierto, a China implementou uma “estratégia de captura de elites”, que combina pressão diplomática, opacidade nos acordos e recompensas seletivas a atores locais alinhados com seus interesses. Essa prática transcende embaixadas ou Institutos Confúcio, incluindo interações diretas com figuras políticas e econômicas, para influenciar decisões internas.
A mesma fonte adverte que essa estratégia encontra um terreno fértil em países com instituições fracas ou elites com práticas iliberais, o que pode resultar em uma cessão gradual da soberania política. Nesse contexto, a China prioriza influenciar as elites políticas antes do que os cidadãos ou grandes projetos de infraestrutura, uma abordagem que resulta mais rentável do ponto de vista geopolítico.
Empréstimos, doações e projetos específicos têm servido para integrar atores-chave em redes ligadas ao Partido Comunista Chinês (PCC), especialmente na Ásia-Pacífico, África e América Latina. Essa dinâmica permite que Pequim molde decisões internas e consolide sua influência sem recorrer a mecanismos coercitivos tradicionais.
Resposta regional e fortalecimento institucional
De uma perspectiva de política internacional, Fleischman sustenta que “a principal defesa contra a pressão política seletiva é o fortalecimento efetivo do Estado de Direito”. Ele ressaltou que “o desafio não reside na ausência de marcos legais, mas em sua aplicação consistente, particularmente na independência judicial e na prestação de contas dos funcionários públicos”.
Além disso, ele alertou que a corrupção representa o maior fator de vulnerabilidade institucional na América Latina. “Sistemas judiciais frágeis, práticas políticas opacas e a presença do crime organizado geram condições propícias para essas pressões”, uma dinâmica que, segundo o acadêmico, “não se reverte apenas com abordagens econômicas, mas com uma maior transparência e responsabilidade pública”.