As redes criminosas latino-americanas estão fortalecendo seu poder, graças à aplicação estratégica da inteligência artificial (IA), uma mudança que está transformando profundamente suas atividades e aumentando sua rentabilidade. Não se trata simplesmente da aplicação de ferramentas tecnológicas para fins ilícitos, mas de uma mudança estrutural mais ampla. Ao operar dentro de um ecossistema digital cada vez mais automatizado e fragmentado, no qual a interação pessoal direta não é mais necessária, os grupos criminosos se tornaram mais eficientes, mais complexos de rastrear e menos expostos aos riscos tradicionais da aplicação da lei.
“A IA reduz custos, aumenta lucros e, acima de tudo, lhes dá anonimato. Em muitos casos, o crime não é mais executado diretamente por uma pessoa, mas por um sistema automatizado. Isso torna mais difícil identificar e processar os responsáveis”, explica à Diálogo Juan Manuel Aguilar Antonio, professor investigador da Faculdade Superior de Estudos Aragón da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
A ampla disseminação de modelos de IA como GPT-4, Claude e LLaMA, capazes de compreender e gerar textos de forma semelhante à de um ser humano, respondendo a perguntas e produzindo conteúdo em linguagem natural, tornou acessíveis as capacidades tecnológicas avançadas a grupos que antes não possuíam habilidades especializadas. As interfaces modernas e fáceis de usar permitem inclusive que criminosos com poucos conhecimentos técnicos realizem campanhas sofisticadas de roubo de identidade, manipulação psicológica direcionada, também conhecida como engenharia social, e fraudes financeiras altamente personalizadas.
Deepfake e centros de fraude modernos
Uma arma fundamental neste novo arsenal é o uso de deepfakes, ou seja, áudio ou vídeo gerado por IA, que imita identidades reais com um realismo surpreendente, para facilitar a fraude em grande escala.
Em agosto de 2025, a polícia do Rio de Janeiro desmantelou uma fraude contra a plataforma de transporte compartilhado Uber, que envolvia quase 2.000 viagens fraudulentas. Os criminosos usaram imagens geradas por IA, para criar perfis fictícios de motoristas e passageiros. Durante essas “viagens fantasma”, os perfis eram excluídos antes do pagamento, obrigando a plataforma a reembolsar os falsos motoristas. Da mesma forma, na Bolívia, também em 2025, o grupo criminoso Clan San Roque, assim chamado pela prisão homônima de Chuquisaca, a partir da qual foi originada a operação, clonou com IA a voz do ex-ministro da Educação, Omar Veliz Ramos, tornando credíveis falsas ofertas de emprego divulgadas nas redes sociais. A fraude gerou lucros superiores a US$ 720.000.
“A inteligência artificial permite que os grupos criminosos façam o mesmo que antes, mas mais rápido, com menos pessoas e maior alcance. Por exemplo, hoje eles podem enviar milhares de mensagens fraudulentas personalizadas em minutos, clonar a voz de alguém para extorquir uma família ou automatizar ataques cibernéticos, que antes exigiam equipes completas de especialistas”, diz Antonio.
Paralelamente, os grupos criminosos empregam chatbots – programas automatizados capazes de simular conversas humanas em tempo real – e agentes de IA para rastrear redes sociais, serviços de mensagens e sites, com o objetivo de identificar pessoas vulneráveis ou mais facilmente manipuláveis e atacá-las através de operações direcionadas.
Crime como serviço e a dark web
De acordo com um relatório de 2025 da plataforma israelense de segurança cibernética Kela, o mercado clandestino de crimes cibernéticos assistidos por IA cresceu em 200 por cento em apenas 12 meses. Na dark web, a parte oculta da Internet, acessível apenas por meio de software específico e usada principalmente para atividades ilegais, surgiram plataformas criminosas como WormGPT, FraudGPT, Storm-2139 e a mais recente Xanthorox AI, que contribuíram para transformar o cibercrime em um mercado digital totalmente estruturado e baseado em serviços.
“Essas plataformas funcionam sob um modelo de ‘crime como serviço’: elas desenvolvem ferramentas de fraude, ransomware ou geração de identidades falsas e as oferecem a terceiros em troca de pagamento”, diz Antonio.
Segundo o especialista, grandes organizações, como os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração (CJNG), estão cada vez mais terceirizando suas operações digitais. Apesar de manterem uma estrutura vertical tradicional, elas contam com corretores de tecnologia, para implementar soluções algorítmicas, como o planejamento de rotas de tráfego através de roteamento inteligente; a clonagem de vozes para fins de extorsão; e o uso de ferramentas de IA para campanhas de phishing financeiro, que roubam dados pessoais e credenciais bancárias.
“Qualquer pessoa com recursos mínimos pode acessar a tecnologia sofisticada para cometer crimes, o que multiplica os ataques, amplia o alcance transnacional e dificulta enormemente que as autoridades identifiquem e atribuam responsabilidades”, explica Antonio.
Uma resposta compartilhada: Cooperação entre os Estados Unidos e a região
Para combater esse boom tecnológico, surgiu uma frente unificada entre os Estados Unidos e as nações latino-americanas. Reconhecendo que os crimes impulsionados pela IA não respeitam fronteiras, os Estados Unidos orientaram sua assistência em matéria de segurança para a “justiça digital” e o desenvolvimento de capacidades de alta tecnologia.
O Departamento de Estado dos EUA, através do seu Departamento de Assuntos Internacionais contra o Narcotráfico e Aplicação da Lei (INL), aumentou significativamente o financiamento para a formação em cibernética judicial. Esse apoio garante que as forças policiais regionais possam manter uma “cadeia de custódia digital”, permitindo que as provas geradas pela IA sejam utilizadas com sucesso nos tribunais.
Um marco nessa cooperação foi a assinatura, em 2025, da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Cibernético. Com o firme apoio dos Estados Unidos e de líderes regionais como Peru e Brasil, esse tratado fornece uma estrutura jurídica para o intercâmbio em tempo real de provas eletrônicas.
Campo de treinamento: ILEA San Salvador
Um elemento central dessa resposta compartilhada é a Academia Internacional para a Aplicação da Lei (ILEA), em San Salvador. Fundada em 2005, a ILEA tornou-se a principal “escola” da região para a luta contra o crime organizado transnacional. Graças a uma parceria entre o INL e o governo de El Salvador, a academia oferece cursos especializados que abordam ameaças cibernéticas.
A ILEA intensificou seu foco em invasões cibernéticas e em redes, bem como em investigações sobre criptomoedas. Instrutores do Serviço Secreto dos EUA e do FBI fornecem aos agentes da lei de toda a América Latina táticas de ponta para investigações de “cyber exploração”. Esses programas estão projetados para evoluir tão rapidamente quanto os criminosos, ensinando aos agentes como desmantelar a infraestrutura digital – como as redes de bots e os servidores de mídia sintética –. que sustenta as empresas criminosas modernas.
Abordando as vulnerabilidades
Apesar desses avanços, ainda existem lacunas. Em abril de 2025, o Peru, que já possui uma normativa sobre a regulamentação da IA, atualizou seu Código Penal, para incluir crimes que envolvem o uso de tecnologias baseadas em IA. Argentina, Brasil, Chile e Colômbia ainda estão em processo de elaboração e desenvolvimento de propostas legislativas sobre o assunto.
“O outro problema é que as instituições costumam estar fragmentadas: a polícia, os ministérios públicos e as agências financeiras nem sempre trabalham de forma coordenada”, diz Antonio. Segundo o especialista, outro fator que aumenta a vulnerabilidade é a grande lacuna tecnológica entre o Estado e os grupos criminosos, que em muitos casos inovam e se adaptam mais rapidamente do que as autoridades.
“Além disso, vivemos em sociedades altamente digitalizadas, mas nem sempre com educação digital suficiente. Isso facilita que as pessoas sejam vítimas de fraudes ou manipulação”, acrescenta Antonio.
Por isso, é necessária uma estratégia integral, não apenas tecnológica. “São necessárias leis atualizadas, maior cooperação entre países e fortalecimento das capacidades de investigação digital. Também é fundamental investir em inteligência cibernética e formação especializada dentro do Estado”, alerta Antonio, que também ressalta a importância de proteger os direitos das pessoas. “Combater o crime com IA não pode significar restringir as liberdades digitais. O desafio é encontrar um equilíbrio: desenvolver soberania tecnológica e capacidade de resposta, sem sacrificar o Estado de Direito”, conclui o especialista.


