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Comandante da Força de Submarinos do Brasil fala sobre desafios da defesa regional

Comandante da Força de Submarinos do Brasil fala sobre desafios da defesa regional

Por Eduardo Szklarz/Diálogo
novembro 09, 2016

O evento contou com a participação do Contra Almirante Oscar Moreira da Silva Filho, comandante da Força de Submarinos da Marinha do Brasil, que integrou o painel “Força de Submarinos: Poder vigente projetado para o futuro”, ao lado dos comandantes das forças de submarinos da Alemanha, dos Estados Unidos e do Peru.

“O mundo vem sofrendo mudanças constantes nos planos de interações dos Estados nacionais, além de uma nova realidade de defesa que inclui conflitos assimétricos e o crime organizado transnacional”, disse o C Alte Oscar em entrevista à Diálogo. “Dessa forma, além de uma mentalidade de segurança que a maioria dos palestrantes julgou ser primordial para o desenvolvimento de seus países, [o conceito de segurança multidimensional] foi importante para o estreitamento das relações nas políticas de defesa.”

Entre os diversos cargos que ocupou ao longo de sua trajetória, o C Alte Oscar foi chefe do Estado-Maior do Comando da Força de Submarinos, subchefe de Comando e Controle Naval do Tráfego Marítimo e chefe de Departamento da Comissão Naval Brasileira na Europa. Em 2013, foi nomeado diretor do Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira.

Diálogo: Qual a importância e as principais conclusões do III Simpósio Internacional de Segurança e Defesa?

Contra Almirante Oscar Moreira da Silva Filho: Como o próprio tema do simpósio revela, o evento abre espaço para uma reflexão e reexame do conceito de segurança multidimensional. Levando-se em consideração os atores da segurança das Américas, mais especificamente da América do Sul, na qual o Brasil se inclui, considero que a importância do simpósio é criar uma cultura de segurança continental que fomente ações combinadas de forças similares no combate a novas ameaças que exigem compartilhamento de informações entre os Estados. Com isso, a principal conclusão é a busca por uma conjunção de esforços dos países participantes em apresentar soluções razoáveis ao assunto da defesa e segurança.

Diálogo: Qual o contexto em que a Marinha do Brasil se encontra hoje em matéria de segurança e defesa?

C Alte Oscar: A América do Sul encontra-se distante dos principais focos mundiais de tensão e livre de armas nucleares, sendo considerada uma região relativamente pacífica. Além disso, processos de consolidação democrática e de integração regional tendem a aumentar a confiança mútua e a favorecer soluções negociadas de eventuais conflitos. Entretanto, o Brasil se apresenta como um país de características peculiares. Entre elas, destaca-se a possibilidade de estender os limites da sua Plataforma Continental e exercer o direito de jurisdição sobre os recursos econômicos em uma área de cerca de 4,5 milhões de quilômetros quadrados, em uma região de vital importância para o país, também conhecida como Amazônia Azul. Nessa imensa área, inclui-se a camada do pré-sal, onde estão as maiores reservas de petróleo e gás do país, além da existência de grande potencial pesqueiro, mineral e de outros recursos naturais. A região amazônica brasileira é foco da atenção internacional em virtude de seu grande potencial de riquezas minerais e de biodiversidade. A garantia da presença do Estado e a vivificação da faixa de fronteira são dificultadas, entre outros fatores, pela baixa densidade demográfica e pelas longas distâncias. Finalmente, a globalização aumentou a interdependência econômica dos países e, em consequência, o fluxo de cargas. No Brasil, o transporte marítimo é responsável por movimentar cerca de 95 por cento do comércio exterior.

Diálogo: Quais são os principais desafios a partir desse cenário?

C Alte Oscar: Dentro desse contexto e, de maneira a conceber a relação entre as tarefas estratégicas de negação do uso do mar, de controle de áreas marítimas e de projeção de poder, a Marinha do Brasil se pautará por um desenvolvimento desigual e conjunto, apresentando como principal desafio, em matéria de segurança e defesa, a necessidade de constituir uma força e uma estratégia navais que integrem os componentes submarinos, de superfície e aéreo. Isso permitirá realçar a flexibilidade com que se resguarda o objetivo prioritário da estratégia de segurança marítima: a dissuasão, priorizando a negação do uso do mar ao inimigo que se aproxime do Brasil, por meio do mar.

Para tal, o Brasil manterá e desenvolverá sua capacidade de projetar e de fabricar tanto submarinos de propulsão convencional como de propulsão nuclear; construirá meios para exercer o controle de áreas marítimas, tendo como foco as áreas estratégicas de acesso marítimo ao Brasil; dedicará especial atenção ao projeto e à fabricação de navios de propósitos múltiplos e navios-aeródromos; contará com navios de porte menor, dedicados a patrulhar o litoral e os principais rios navegáveis brasileiros; iniciará os estudos e preparativos para estabelecer, em lugar próprio, o mais próximo possível da foz do rio Amazonas, uma base naval de uso múltiplo; e acelerará o trabalho de instalação de suas bases de submarinos, convencionais e de propulsão nuclear.

Diálogo: Os submarinos S-BR1 e S-BR2 estão sendo construídos dentro do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), que prevê a construção de outros dois submarinos convencionais diesel-elétricos e de um com propulsão nuclear. Poderia falar qual a previsão de entrega desses equipamentos e da importância do PROSUB?

 C Alte Oscar: Estes submarinos têm previsão de entrega ao setor operativo de acordo com a seguinte distribuição: S-BR1 (2020 – 2º semestre), S-BR2 (2021 – 2º semestre), S-BR3 (2022 – 2º semestre), S-BR4 (2023 – 2º semestre) e o Submarino com Propulsão Nuclear (SN-BR, julho de 2027). A importância do PROSUB já pode ser enfatizada pela própria maneira que o assunto é inserido na Estratégia Nacional de Defesa, haja visto que este projeto contribui para alguns dos principais objetivos nacionais de defesa. Com a construção dos S-BR e do SN-BR, acompanhados de suas instalações de apoio, o Brasil poderá assegurar de maneira mais eficiente a tarefa de negação do uso do mar, contando com uma força naval submarina de envergadura, composta de submarinos convencionais e de submarinos com propulsão nuclear. De forma indireta, mas não menos importante, a grande quantidade de investimentos em pesquisas, recursos humanos e material, necessários para o desenvolvimento do projeto, também permitirá que haja um arrasto tecnológico para outros setores da indústria nacional, obtendo a autonomia de tecnologias indispensáveis e, consequentemente, trazendo benefícios à sociedade.

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