O mundo acadêmico está cada vez mais ameaçado pela influência da China no Brasil. Nos últimos anos, as principais instituições de ensino superior do país, como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), firmaram parcerias com instituições chinesas em um ritmo cada vez maior. Especialistas advertem para os riscos desse crescente soft power (“poder suave”) utilizado por Pequim para promover a propaganda do modelo chinês.
“A influência da China nas universidades brasileiras nunca foi tão grande”, disse à Diálogo o jornalista Gabriel de Arruda Castro, editor do jornal brasileiro Gazeta do Povo. “Obviamente, isso abre portas para uma presença de representantes de um regime autoritário, o que não é o caso quando o Brasil firma parcerias acadêmicas com países como a Alemanha ou a França.”
Em janeiro de 2023, Castro publicou uma reportagem em Gazeta do Povo, apontando a crescente influência da China nas universidades brasileiras. “De lá para cá, essa influência inclusive aumentou”, diz ele. “Instituições como a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Federal de Santa Maria firmaram outras parcerias ou reforçaram as parcerias que já tinham [com instituições chinesas].”
Embora sejam comuns os convênios entre universidades brasileiras e estrangeiras, Castro lembra que esses países respeitam a independência e a autonomia acadêmica de seus centros de ensino. Já as universidades chinesas, segundo ele, estão submetidas ao controle rígido do governo de Pequim. “Do ponto de vista do regime chinês, não faz nenhum sentido financiar algum projeto que porventura desemboque em uma crítica ao modelo chinês”, declara Castro.
Ameaça silenciosa no Brasil
O soft power da China também aumenta em universidades no mundo inteiro. A diferença é que no Brasil ele cresce de forma silenciosa, ao passo que nos outros países ele gera preocupação, diz Castro.
Na Inglaterra, por exemplo, um recente documentário do canal de TV Channel 4 indica que as universidades têm sofrido “interferência estatal chinesa” e “repressão de dissidentes em solo inglês”. “Pequim mira cada vez mais os campi universitários para exercer forte influência em todo o mundo”, diz um relatório de 2023 do think tank dos EUA Council on Foreign Relations.
No Brasil, por outro lado, a influência chinesa cresce desimpedida entre os muros das universidades, disse Castro. “Não existe um debate no Brasil sobre os riscos de você abrir as portas, sem muito cuidado, para um regime que é autoritário e que tem o costume de promover espionagem”, afirma Castro. “Ninguém está se preocupando com isso no Brasil.”
Instituto Confúcio
Parte da influência chinesa nas universidades brasileiras é exercida por meio de parcerias com o Instituto Confúcio, uma entidade vinculada ao Ministério da Educação da China, cuja missão oficial é difundir a cultura e a língua chinesas.
Com filiais espalhadas em mais de 150 países, o Instituto Confúcio diz em seu site que as parcerias são “baseadas nos princípios de respeito mútuo, consulta amigável, igualdade e benefício mútuo”. Mas a entidade vem sendo alvo de críticas em diversos países por solapar a liberdade acadêmica nas universidades anfitriãs, praticar espionagem industrial e militar e promover a visão do regime chinês em temas como Taiwan.
Em 13 de agosto de 2020, o Departamento de Estado dos EUA designou o Instituto Confúcio como uma “missão estrangeira” da China, ressaltando que a entidade promove “a propaganda global e a campanha de influência maligna de Pequim” nas salas de aula. “Os Institutos Confúcio são financiados pela República Popular da China e fazem parte do aparato global de influência e propaganda do Partido Comunista Chinês”, afirmou em um comunicado o Departamento de Estado dos EUA.
Em 2023, o Departamento Federal de Proteção da Constituição da Alemanha (BfV) qualificou o Instituto Confúcio como uma ferramenta de influência política. “As atividades e formas de cooperação da China ameaçam minar a liberdade acadêmica no campo da educação e pesquisa”, disse o BfV em seu relatório anual, segundo informou o site de notícias alemão Deutsche Welle.
Enquanto isso, no Brasil, o Instituto Confúcio se espalha em ritmo acelerado. Hoje, 13 universidades brasileiras têm filiais da entidade. A mais recente foi instalada em setembro de 2023 na Universidade Federal da Bahia (UFBA), por meio de um acordo com a Universidade de Xangai.
Segundo o site da UFBA, há também filiais do Instituto Confúcio na Universidade Federal Fluminense, Universidade Estadual Paulista, Unicamp, UNB, UFMG, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Pernambuco, Universidade Federal do Ceará, Universidade do Estado do Pará (UEPA), Fundação Armando Alvares Penteado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Universidade Federal de Goiás.
Castro diz que as parcerias com o Instituto Confúcio geralmente não envolvem envio direto de recursos da China para as universidades. Pequim apenas remunera os professores de mandarim em espaços físicos já existentes. As universidades então não lucram financeiramente com as parcerias, mas se beneficiam do estreitamento de laços com a China.
“Obviamente, a visão oficial do regime não é contestada nesses casos. A promoção da cultura chinesa vai, portanto, se misturando com a promoção do regime chinês”, diz Castro. “Na minha pesquisa, não encontrei nenhuma perspectiva crítica à China.”
Muitas vezes, o resultado dessas parcerias é a exaltação do modelo chinês em faculdades brasileiras. A Universidade Federal de Santa Catarina e a UEPA, por exemplo, ofereceram nos últimos anos o curso on-line “China, 1949-2025: de país muito pobre a maior economia do mundo”. A programação incluiu tópicos como “A ajuda russa”, “100 anos do Partido Comunista Chinês”, “O socialismo chinês” e bolsas na China, segundo os sites das universidades.
Parcerias tecnológicas
A outra forma de influência chinesa nas universidades brasileiras são parcerias de inovação tecnológica em áreas como a agricultura. “São áreas que demandam investimento financeiro, e nem sempre no Brasil as universidades públicas têm essa capacidade. Então a China entra ajudando a financiar laboratórios, por exemplo, considerando a importância do Brasil como exportador de commodities agrícolas”, diz Castro.
Ele acredita que pode haver risco de espionagem por parte da China nessas iniciativas. “Talvez por não ser percebido como um adversário direto da China, o Brasil tem um pouco menos desse aspecto [de espionagem]. Mas talvez aqui exista uma ‘soft espionagem’: saber em que pé o Brasil está em certas áreas do conhecimento, para mais adiante usar isso como vantagem estratégica numa eventual competição em alguma área ou para oferecer soluções”, afirma.
“Isso é mais ou menos o que eles [os chineses] fazem na África por outros meios. Ou seja: atender à demanda local de forma pragmática no primeiro momento, mas tornando esses países cada vez mais dependentes da China”, diz Castro.
“Antes de firmar parcerias, inclusive envolvendo recursos financeiros com regimes estrangeiros autoritários, como é o caso da China, nossos pesquisadores deveriam tomar um pouco mais de cuidado. O mesmo deveria ser feito pelos governos, que são quase sempre os mantenedores dessas universidades”, completa Castro.


