Envolvida em um escândalo sobre violações de direitos trabalhistas no Brasil que soou o alarme em todo o mundo, a montadora chinesa BYD não mostra sinais de desaceleração. A recente revelação da Reuters de que a empresa de veículos elétricos havia adquirido direitos de mineração na região rica em lítio do Brasil destaca a estratégia da BYD de fortalecer sua integração vertical fora da China e garantir sua presença nos vastos recursos minerais da América do Sul.
Essa é uma má notícia para a região, dizem os especialistas, já que as empresas chinesas foram acusadas de centenas de violações dos direitos humanos e do meio ambiente ligadas aos seus interesses de mineração para a tecnologia de energia verde em todo o mundo. A tendência da China para contratos extrativistas opacos está associada a alegações de violações de direitos indígenas, poluição da água, destruição ambiental e condições de trabalho inseguras, entre muitas outras acusações.
De acordo com a Reuters, no final de 2023, a BYD adquiriu os direitos minerais de dois terrenos no Vale do Jequitinhonda, conhecido como o “vale do lítio”, por meio de sua subsidiária, Exploração Mineral do Brasil, criada no mesmo ano A aquisição não havia sido relatada anteriormente.
“A China comprou alguns direitos minerários, como outras empresas originárias de outros países também estão comprando. O que eu acho interessante nesse aspecto da BYD é que isso só foi noticiado após a compra, e pela Reuters. E, por outro lado, as outras empresas, canadenses, australianas, a gente consegue perceber como é que elas vão avançando, enquanto que a BYD foi uma surpresa”, ressalta à Diálogo Elaine Santos, pesquisadora focada na exploração de matérias-primas estratégicas e pós-doutoranda do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.
A descoberta de que a BYD adquiriu terrenos ricos em lítio liga um alarme no país. Recentemente, em 23 de dezembro de 2024, o grande investimento da empresa em um antigo complexo de fábrica da Ford, onde a BYD está desenvolvendo a fábrica com capacidade para produzir 150.000 carros elétricos, em Camaçari, na Bahia, nordeste do país, foi manchado com acusações de abusos trabalhistas.
No local, o Ministério Público do Trabalho resgatou 163 operários chineses do canteiro de obras da nova fábrica da gigante automotiva chinesa em condições análogas à escravidão.
Além do cenário de condições severas de falta de higiene, habitação e alimentação, o Ministério Público ainda acusou Jinjiang, a empreiteira da BYD responsável pelo projeto de construção, de reter os passaportes dos empregados e 60 por cento dos seus salários. O local fica a apenas 12 horas de carro de onde os lotes do Vale do Jequitinhonha estão.
A questão destaca o desrespeito da China aos direitos humanos e às normas internacionais e sua falta de disposição para cumpri-las. A situação também reforçou outro problema característico dos projetos liderados pela China: o fato de não priorizarem a mão de obra local, preferindo a chinesa, o que gera preocupações sobre o impacto econômico e social nos países anfitriões.
Há apenas 10 anos, uma empresa chinesa comprou a primeira participação do país em um projeto de extração dentro do chamado “triângulo do lítio” – formado por Argentina, Bolívia e Chile –, que juntos detêm a maior parte das reservas mundiais de lítio. Segundo a BBC, a China tem pelo menos 11 projetos de mineração para tecnologias verdes somente no triângulo do lítio e mais de 60 interesses de mineração fora da China, em todo o mundo, muitos deles enfrentando acusações de abusos.
“As aquisições estão sendo feitas por empresas chinesas porque, para elas, tudo se resume no lucro”, disse à BBC Aditya Lolla, diretor do programa para a Ásia do Ember, um think tank ambiental, com sede no Reino Unido. “Como resultado, trabalhadores chineses vão continuar a ser enviados para projetos de mineração no mundo todo e, para elas [empresas chinesas], esses projetos representam, na maioria das vezes, uma oportunidade de ganhar um bom dinheiro”, acrescentou.
Para Margaret Myers, diretora do Programa para a Ásia e a América Latina do think tank Inter-American Dialogue, baseado nos EUA, é necessário olhar com cautela para a dependência excessiva da China, sobretudo se não houver contrapartidas para o desenvolvimento local. “A região corre o risco de ficar presa a essa dependência e deixar de desenvolver sua própria competitividade”, disse ela. “Se não houver um esforço para exigir que os investidores ofereçam transferência de tecnologia e apresentem iniciativas de educação e incorporação de mão de obra local, a região não conseguirá acelerar seu desenvolvimento nesses setores”, disse Myers para a plataforma Nexo.
Enquanto no mundo se incentiva que as empresas adotem tecnologias alternativas para melhorar a eficiência da produção do lítio, Myers avaliou que os investimentos chineses podem provocar novos conflitos socioambientais. “Esse é outro grande desafio para a região, pois os governos, as empresas e as organizações da sociedade civil devem ter condições de negociação e diálogo que possibilitem a viabilização de projetos de forma sustentável.”