A China tornou-se uma aliada fundamental dos principais grupos criminosos do Equador na exploração ilícita de recursos naturais, o que representa uma ameaça não apenas para o meio ambiente, mas também para a segurança do país e de toda a região.
Esses grupos equatorianos designados como terroristas, entre os quais se destacam Los Lobos e Los Choneros, estabeleceram rotas logísticas sofisticadas, nas quais o transporte de cocaína para a América Central e os Estados Unidos integra-se ao comércio de produtos ilegais derivados de tubarões. No trajeto de volta de suas viagens com drogas, esses grupos se dedicam à pesca predatória e ilegal de tubarões, para satisfazer a voraz demanda do mercado asiático, operando com o apoio da frota pesqueira chinesa de águas distantes presente em alto mar.
“As espécies pescadas por Los Choneros são comercializadas com intermediários da frota chinesa, que são os que oferecem os melhores preços e os que mais demandam esses espécimes marinhos, de acordo com oficiais da Marinha familiarizados com essas investigações”, disse à Diálogo Arturo Torres Ramírez, diretor do site equatoriano de jornalismo investigativo Código Vidrio.
A Procuradoria do Equador conseguiu reconstruir essa rota de dupla finalidade, ao desmantelar uma dessas redes criminosas. Essa rede foi promovida por um veterano capitão de barco pesqueiro, Leonardo Briones Chiquito, conhecido como Iguana, ou Mexicano. Embora mantivesse laços estreitos com o grupo Los Lobos – um grupo que ampliou seu portfólio de atividades, desde drogas até extorsão e mineração ilegal –, suas operações frequentemente se cruzavam com o território tradicionalmente considerado dominado por Los Choneros. Sua influência era tão significativa que seu assassinato, em julho de 2025, ao sul de Manta, na província de Manabí, desencadeou uma onda de violência em retaliação, que custou 18 vidas em uma única noite.
Durante anos, antes de sua morte, Briones Chiquito utilizou uma frota de embarcações especializadas para transportar narcóticos para o México e os Estados Unidos, em colaboração com o cartel de Sinaloa. Todas as suas rotas marítimas utilizavam as Ilhas Galápagos como ponto de passagem estratégico, transformando o arquipélago em um nó vital para o crime transnacional.
O centro das Ilhas Galápagos
As Ilhas Galápagos estão localizadas a aproximadamente 1.000 quilômetros a oeste da costa continental do Equador, no Oceano Pacífico. Nos últimos anos, elas se tornaram um centro logístico fundamental para embarcações carregadas de drogas. Embora navegar ao redor do arquipélago prolongue a viagem, a imensidão da área dificulta o patrulhamento eficaz, o que proporciona aos grupos criminosos a cobertura necessária para reabastecer combustível e transferir a carga de forma estratégica.
“As ilhas são um local de abastecimento de combustível que os pescadores artesanais fornecem aos barcos que transportam tanto cocaína quanto espécies”, diz Ramírez.
É fundamental ressaltar que esses pescadores artesanais integraram-se e especializaram-se nesses grupos criminosos. Utilizando combustível subsidiado pelo Estado, destinado a apoiar os meios de subsistência locais, esses pescadores se dedicam ao lucrativo contrabando de gasolina, atuando como “postos de gasolina flutuantes”, tanto para os barcos de drogas, quanto para os navios chineses que esperam em águas internacionais. Além da logística do combustível, essas células criminosas também utilizam as ilhas para a conservação e o armazenamento clandestino de barbatanas de tubarão capturadas ilegalmente e destinadas à exportação.
Desde 2007, a regulamentação equatoriana permite a comercialização de tubarões capturados acidentalmente. No entanto, a falta de limites rigorosos na lei sobre o que constitui uma captura acidental legítima criou uma enorme lacuna legal que tem sido explorada pelo crime organizado, para branquear quantidades industriais de barbatanas de tubarão.
O papel da China
A magnitude dessa depredação é imensa. Entre 2024 e 2025, dois barcos pesqueiros equatorianos que navegavam nas proximidades das Ilhas Galápagos foram interceptados transportando ilegalmente um total de 27 toneladas de barbatanas de tubarão, destinadas ao mercado chinês. Essa relação é definida por uma evitação calculada das águas territoriais. Como explica Ramírez, “os barcos chineses não entram na zona protegida das Galápagos; recebem o combustível e as espécies em águas internacionais, por meio de embarcações do Equador”.
De acordo com o Índice de Risco da Pesca Ilegal, Não Declarada e Não Regulamentada (INDNR), o Equador ocupa atualmente a 20ª posição entre os 152 países mais vulneráveis à exploração marítima. Apesar das sanções internacionais, dos acordos regionais e da vigilância naval, os navios chineses continuam desativando seus transponders GPS, o que lhes permite navegar clandestinamente pelos limites da zona econômica exclusiva do Equador. Organizações como WWF Equador destacaram que essas técnicas invasivas estão esgotando as populações de peixes a um ritmo insustentável, enquanto Oceana informou que 510 embarcações com bandeira chinesa representaram 75 por cento de toda a atividade pesqueira perto das Galápagos, entre 2021 e 2023.
Essa depredação de recursos está indissoluvelmente ligada ao aumento dos crimes violentos no Equador. Os serviços de inteligência identificaram um sistema de “intercâmbio de mercadorias”, no qual a frota chinesa fornece mais do que apenas um mercado para as barbatanas. Em troca de drogas, combustível e espécies marinhas, essas organizações criminosas também recebem armas de grande calibre. Esse afluxo de armas contribuiu para o aumento da violência.
As barbatanas de tubarão capturadas por essas células locais de pesca criminosa podem atingir um preço de até US$ 1.800 por quilo no mercado asiático. Essa ânsia por lucro ameaça diretamente as 65 espécies de tubarões registradas no Equador, 43 das quais já estão em perigo de extinção. Em abril de 2025, em uma residência na cidade de Manta, na província de Manabí, foram apreendidas 15 toneladas de barbatanas de tubarão e cavalos-marinhos. Três pessoas foram detidas, duas de nacionalidade equatoriana e uma chinesa, o que consolidou ainda mais o vínculo entre as gangues locais e os compradores internacionais.
De acordo com Código Vidrio, o papel da frota chinesa poderia estender-se ainda mais ao tráfico mundial de drogas. As autoridades suspeitam que essas embarcações ajudem a transportar cocaína para o Extremo Oriente. “Tivemos casos de transporte de cocaína em veleiros e embarcações pesqueiras que partiram de Salinas e Manta e foram capturados na Austrália e na Coreia do Sul, pelo qual é bastante provável que também estejam chegando à China”, declarou a Código Vidrio um agente de inteligência, que pediu para manter seu nome em sigilo.
Los Choneros e Los Lobos atuam agora como principais executores nacionais dessa rede transnacional, fornecendo à China proteção, tanto no mar, quanto nos portos, bem como um fornecimento constante de produtos ilícitos. “Eles são as principais ameaças à segurança do país e da região, onde firmaram alianças com outras gangues locais e têm operadores em todos os órgãos de controle”, conclui Ramírez.



