A recente concessão de mineração outorgada à China em San Juan del Limay, no departamento de Estelí, destaca a crescente consolidação de suas relações com o regime de Daniel Ortega-Rosario Murillo na Nicarágua. Essa medida faz parte de uma tendência mais ampla, na qual Pequim continua a adquirir recursos estratégicos da América Latina, o que aventa a possibilidade de sérias implicações para a região.
De acordo com o jornal oficial nicaraguense La Gaceta, em meados de agosto, o regime de Ortega-Murillo concedeu à empresa chinesa Xinxin Linze Minera Group os direitos de exploração de minerais metálicos e não metálicos, sem especificar quais, no lote de 13.629 hectares de Río Dorado.
A expansão da empresa na Nicarágua tem sido rápida. Em apenas alguns meses, ela obteve três concessões de mineração. Em junho, adquiriu 2.091 hectares no Caribe Norte, além dos 36,6 hectares obtidos em abril na mesma área. Com essa nova aquisição em Esteli, Xinxin fortalece sua presença no país e está se preparando para iniciar operações em grande escala nos próximos quatro anos, informou a plataforma France 24, em 14 de agosto.
Essa expansão reflete o interesse da Xinxin Linze, que se acredita ser uma subsidiária da Xinjiang Xinxin Mining Industry Company Limited, na extração de níquel, cobre e outros metais no país centro-americano, detalhou France 24. Mas essa não é a única empresa chinesa a se beneficiar de concessões no país: Zhong Fu Development e Thomas Metal, com um total de 11 concessões, também garantiram direitos de mineração, informa o diário nicaraguense Confidencial.
“Não nos esqueçamos de que o modelo chinês de investimento e empréstimos internacionais exige recursos naturais como garantia, em vez de aceitar riscos soberanos”, alertou o ex-deputado da oposição nicaraguense, Eliseo Núñez, de seu exílio na Costa Rica, em entrevista à Diálogo, em 9 de setembro. “Essa estratégia, que também está sendo observada na África, permite que a China aumente sua influência sobre os governos que dependem do seu financiamento.”
O avanço
O ouro está experimentando um crescimento exponencial no comércio da Nicarágua, consolidando-se como o principal produto de exportação do país. Em 2023, o setor de mineração gerou rendimentos recordes de US$ 1.159 milhões, um aumento de 22,4 por cento em relação a 2022, impulsionado pelo aumento nas exportações de ouro, informou a plataforma argentina Infobae. Apesar desse crescimento, a influência da China na mineração nicaraguense ainda é incipiente, destacou.
“Embora as empresas chinesas já estejam se estabelecendo no país, seu impacto sobre as exportações ainda não se materializou totalmente”, comentou Núñez. “Pequim, além de buscar apoio político na região, estabelece acordos econômicos que, na maioria das vezes, acabam sendo desfavoráveis para os países que se endividam com eles.”
“A Nicarágua poderia seguir um caminho semelhante ao da Venezuela, que assinou um acordo desfavorável com a China, comprometendo-se com mais de US$ 30 bilhões em petróleo a preços muito baixos. Essa prática, comum nas negociações chinesas, permite que Pequim obtenha recursos a baixo custo e aumente sua influência política na região”, acrescentou Núñez. “Na Nicarágua, dada a situação econômica crítica, há pouca resistência à crescente presença da China nos recursos naturais.”
Em maio, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou sanções contra duas empresas de ouro afiliadas ao regime, em um esforço para degradar a capacidade do regime de Ortega-Murillo para manipular o setor e lucrar com o mesmo. Dois anos antes, em outubro de 2022, o Tesouro sancionou a Direção Geral de Minas da Nicarágua, acusada de financiar as atividades repressivas do regime de Ortega-Murillo e apoiar ações que desestabilizam a região.
De acordo com Infobae, essas últimas sanções levaram o regime a tentar diversificar seu mercado de ouro e buscar novas relações comerciais com os principais consumidores de ouro.
Voracidade da mineração
As empresas de extração são os maiores investimentos diretos da China na América Latina. Inicialmente concentradas no Cone Sul, elas estão se expandindo para a América Central, onde Pequim apoia a extração de ouro, cobre, níquel, ferro, lítio e alumínio, inclusive em áreas naturais protegidas, sem consideração ambiental, de acordo com o relatório Voracidade Mineira na América Central, publicado pela revista centro-americana Expediente Público.
Xinxin Linze realizará atividades de mineração na Região Autônoma do Caribe Norte, rica em diversidade biológica e cultural, onde vivem principalmente os povos indígenas Miskitu e Mayagna, de acordo com a agência de notícias espanhola EFE. Além disso, Xinxin Linze tem duas concessões pendentes de aprovação, informou Confidencial.
Outro caso, de acordo com Expediente Público, é o da Zhong Fu Development, que ameaça 17 comunidades indígenas, em particular a Sahsa, ao colocar em risco sua fonte de água potável. Apesar disso, a Zhong Fu está tentando expandir sua influência na Região Autônoma da Costa Sul do Caribe, por meio de uma nova solicitação de concessão. Enquanto isso, o regime de Ortega-Murillo continua a favorecer as empresas chinesas, cancelando concessões com outras empresas, informa o portal centro-americano Divergentes.
Esse padrão de expansão não se limita à América Central. No Peru, as empresas chinesas lideram o portfólio de investimentos em mineração com sete projetos, de acordo com a revista peruana ProActivo. No início de julho, a comunidade camponesa de Huancuire denunciou a mina de cobre Las Bambas, de propriedade da empresa chinesa Minerals and Metals Group, por violações ambientais e alteração do habitat rural. O Ministério Público tem 120 dias para investigar esses crimes, informou Infobae. A mina de Las Bambas está em conflito há anos com as comunidades próximas, que alegam que a empresa não cumpriu seus compromissos sociais e ambientais.
Desde 2000, a Bolívia tem permitido o investimento chinês em seus recursos naturais, principalmente em minerais como ouro, ferro e lítio, afirma Expediente Público. Pequim persuade cooperativas e sindicatos a explorar esses recursos com tecnologia chinesa, aproveitando o boom da energia limpa que está aumentando a demanda por lítio. Entretanto, o custo real desses investimentos para a Bolívia permanece incerto.
“É por isso que países como Nicarágua, Venezuela e Bolívia são fundamentais para a China”, explicou Núñez. “Pequim sempre procura contratos que lhe sejam altamente favoráveis, aproveitando-se das fraquezas de suas contrapartes. A China expande sua influência na Nicarágua para explorar o mercado de ouro e outros recursos, com enormes facilidades concedidas pelo regime.”
Tabela de políticas
“O impacto mais significativo na região é a crescente influência da China e da Rússia, que estabeleceram sua presença na Nicarágua, Venezuela e Bolívia”, afirma Núñez. “A dependência econômica desses países em relação à China permite que os Ortega-Murillo e Nicolás Maduro permaneçam no poder.”
“Esse cenário mostra como a China e a Rússia conseguem sentar-se à mesa da política latino-americana, garantindo um lugar na tomada de decisões e na exploração de recursos naturais estratégicos, consolidando seu controle nas principais nações da região”, concluiu Núñez.


