Argentina e EUA renovam relações após anos de distanciamento

Por Geraldine Cook
março 25, 2016

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chegou a Buenos Aires em 23 de março para inaugurar uma nova etapa nas relações com a Argentina. Obama e seu homólogo argentino, Mauricio Macri, expressaram o entusiasmo de trabalhar em conjunto e cooperar em questões de segurança, comércio, educação e tecnologia.

“Com o presidente Macri, a Argentina reassume seu tradicional papel de liderança na região e no mundo inteiro”, afirmou Obama em entrevista coletiva na Casa Rosada, sede do governo argentino. O líder dos EUA disse que estava “muito impressionado” com o trabalho realizado por Macri durante seus primeiros 100 dias de governo para criar um crescimento mais sustentável e renovar os laços da Argentina com a comunidade internacional.

“Buscamos ter boas relações com todos os países do hemisfério, mas é claro que a Argentina – historicamente um dos maiores e mais poderosos países do hemisfério – precisa ser um parceiro essencial para nós”, disse Obama, lembrando que [a parceria] “servirá não apenas para ajudar nosso próprio povo, mas também a promover a prosperidade e a paz na região como um todo.”

Macri disse que a liderança de Obama lhe serviu de inspiração e que sua visita ao país tem um significado especial. “Nós a interpretamos como um gesto de afeto e amizade em um momento em que a Argentina empreende um novo horizonte. Sentimos que nossos países compartilham valores profundos: o respeito pelos direitos humanos, as liberdades individuais, a democracia, a justiça e a paz.”

Macri destacou que os dois países têm um “gigantesco” espaço de trabalho em comum pela frente. “Depois de anos de relações quase nulas, abrem-se muitas oportunidades que podem gerar trabalho para argentinos e norte-americanos”, afirmou.

A última vez em que um presidente dos EUA esteve na Argentina foi em 2005, durante a visita de George W. Bush à Cúpula das Américas em Mar del Plata. Durante os dois mandatos da presidente Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015), a participação dos EUA no comércio exterior argentino foi inferior a 10%, o pior desempenho dos últimos 80 anos, segundo a Câmara Argentina do Comércio.

Para reverter a situação, os dois governos anunciaram medidas para fortalecer os investimentos e aprofundar a cooperação no G-20. “Refletindo o importante interesse do setor privado na Argentina, empresas norte-americanas anunciaram investimentos milionários que ajudarão a consolidar um comércio anual de mais de US$ 20 bilhões entre EUA e Argentina”, afirmou a Casa Branca em comunicado. “Nos próximos meses, seis delegações de comércio ajudarão empresas dos dois países a identificar novas oportunidades.”

Após as conversas em Buenos Aires entre os presidentes Obama e Macri, a Casa Branca anunciou a assinatura do Acordo-Marco de Comércio e Investimento e o apoio para a plena participação argentina no Fundo Monetário Internacional (FMI) e outras importantes instituições financeiras.

Terrorismo e narcotráfico

A visita de Barack Obama a Buenos Aires ocorreu sob o impacto dos ataques terroristas em Bruxelas, que deixaram 31 mortos e cerca de 270 feridos. Os presidentes Obama e Macri repudiaram os atentados e se comprometeram a trabalhar juntos na luta contra o terrorismo, o narcotráfico e o crime organizado. “Minha prioridade máxima é derrotar o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) e eliminar o flagelo desse terrorismo bárbaro que atinge o mundo inteiro”, disse o presidente Obama.

Ambos os países anunciaram a implementação de diversos acordos bilaterais para permitir a cooperação. “Os EUA ajudarão a fortalecer a capacidade argentina de aplicação da lei, inclusive por meio da assistência do Departamento de Justiça relacionada ao terrorismo e ao financiamento do terrorismo na região da Tríplice Fronteira”, disse a Casa Branca em comunicado.

O Ministério da Segurança da Argentina e os Departamentos de Justiça e Segurança Nacional (DHS) dos EUA assinaram o “Acordo para a Prevenção e o Combate de Crimes Graves” a fim de facilitar a troca de informação sobre supostos criminosos e terroristas. A Força-Tarefa Conjunta Interagências-Sul concordou em trocar informações com o Ministério de Segurança da Argentina, enquanto o Departamento de Defesa dos EUA convidou o país sul-americano a participar do Programa de Nações Parcerias para cooperar com a Guarda Nacional.

O Ministério da Segurança da Argentina e o DHS também firmaram um acordo para aumentar as medidas de proteção a bordo de aeronaves. Já a Rede de Combate a Crimes Financeiros do Departamento do Tesouro dos EUA assinou um memorando de entendimento com a Unidade de Informação Financeira (UIF) da Argentina para intensificar a cooperação no combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo.

“Os EUA também ajudarão nos esforços da Argentina para reduzir a demanda de drogas, capacitar oficiais argentinos na Academia Internacional de Polícia, organizar viagens de estudo aos EUA para oficiais argentinos e oferecer treinamentos da Agência Antidrogas dos EUA e com o FBI (a polícia federal dos EUA)”, afirmou em nota a Casa Branca. “O FBI também ajudará o Ministério da Segurança da Argentina a criar uma rede nacional de Centros de Fusão de Inteligência para detectar e combater o terrorismo e o crime organizado.”

Em maio, o Departamento de Defesa dos EUA realizará o primeiro Grupo de Trabalho Bilateral com as Forças Armadas da Argentina desde 2009. A programação inclui manutenção da paz, preparação e resposta a desastres e cooperação em defesa hemisférica, de acordo com a Casa Branca.

O ministro da Defesa da Argentina, Julio Martínez, afirmou que a visita de Obama marca uma nova era para os dois países. “É o nosso maior desejo que a estada do presidente dos EUA aconteça da melhor maneira possível e que seja o início de uma nova etapa na relação de ambos os países”, disse Martínez em 22 de março, ao supervisionar o Sistema de Defesa Aeroespacial na Brigada Aérea de El Palomar.

Diálogo com a sociedade civil

Após a entrevista coletiva na Casa Rosada, Obama se dirigiu à Catedral Metropolitana de Buenos Aires, onde prestou homenagem ao libertador General José de San Martín – considerado o principal líder da bem-sucedida luta pela independência da parte sul da América do Sul em relação ao Império Espanhol – e visitou o mural em homenagem às vítimas do Holocausto. Em seguida, a primeira-dama Michelle Obama falou sobre o programa “Let Girls Learn” – uma iniciativa do governo dos EUA para permitir que jovens mulheres tenham acesso à educação – a jovens mulheres no Centro Metropolitano de Desenho, no bairro de Barracas.

Barack Obama conversou com jovens empreendedores argentinos na Usina da Arte, no bairro La Boca. Por mais de uma hora, ele respondeu a perguntas e arrancou choros da plateia com seu tom franco e informal. Disse que lia escritores argentinos como Borges e Cortázar na faculdade, e desde então tinha curiosidade por tomar mate. “Tenho o orgulho de anunciar que acabo de provar mate pela primeira vez”, disse Obama.

À noite, Barack e Michelle Obama receberam um jantar de gala no Centro Cultural Kirchner com a presença de cerca de 400 convidados, entre empresários e políticos do governo e da oposição. O presidente norte-americano aceitou o convite de uma bailarina para dançar o famoso tango “Por una Cabeza”, de Carlos Gardel (música) e Alfredo Le Pera (letra).

Arquivos desclassificados

Na manhã de quinta-feira, Obama e Macri concluíram a visita oficial com uma homenagem às vítimas da última ditadura argentina (1976-1983). Celebraram os 40 anos do último golpe de Estado no Parque da Memória, na região da Costanera Norte, em Buenos Aires.

Em um gesto estratégico para a Argentina, Obama pediu antes da visita que fossem desclassificados arquivos militares e de inteligência ligados à “guerra suja”. O presidente dos EUA anunciou que, a pedido da Argentina, desclassificaria mais. “Todos precisamos e temos o direito de saber a verdade”, disse Macri, de acordo com a AFP.

Ambos os mandatários finalizaram o ato jogando flores no Rio da Prata, uma forma de oferenda aos desaparecidos. “Este é um tributo à memória, mas também uma homenagem à valentia e à perseverança dos que os recordam e se recusam a abandonar seus esforços na busca pela verdade e a justiça”, disse Obama, que em seguida embarcou para Bariloche para descansar com a família antes de retornar a Washington.

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