Ameaça do radicalismo islâmico na América Latina

Foto de arquivo. Foliões participam do Carnaval de Trinidad e Tobago, em Trinidad, em 28 de fevereiro de 2006. Em 2018, as autoridades locais frustraram um plano terrorista contra o carnaval por extremistas islâmicos. (Foto: Michel Tissot/Domínio público)

Nos últimos meses, uma série de ataques, felizmente frustrados por operações policiais, mostrou como a ameaça do radicalismo islâmico do Hezbollah e do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS) está avançando na América Latina. Embora tenham ideologias religiosas diferentes, esses extremismos encontram na região um ponto de contato em determinadas questões, como o recrutamento de moradores locais para cometer atentados, o proselitismo em comunidades indígenas, uma visão antiocidental e um aumento do antissemitismo após a crise do Oriente Médio.

Além disso, há outro plano de convergência, que é o uso de atividades ilícitas para financiar operações terroristas. Essa dinâmica geralmente leva esses grupos a interagir com o crime organizado local, resultando em um reforço mútuo.

Recrutamento de moradores locais

De acordo com Emanuele Ottolenghi, especialista em Irã e Hezbollah do think tank Fundação para a Defesa das Democracias, a operação Trapiche, da Polícia Federal do Brasil, que frustrou uma série de ataques do Hezbollah contra comunidades judaicas no Brasil, em novembro de 2023, destacou uma nova estratégia do grupo terrorista libanês, representante do Irã, que é o recrutamento de moradores locais para realizar ataques.

Outro exemplo é o de Fábio Samuel da Costa Oliveira, de 20 anos, que foi sentenciado a sete anos de prisão, em julho de 2024, por terrorismo e cooptação de menores, e por tentar recrutar adolescentes em São Paulo e no Rio de Janeiro para o grupo terrorista ISIS, informou o site de notícias brasileiro Metrópoles. Durante sua sentença, foi revelado como ele e um amigo, ambos radicalizados na Internet, estavam se preparando para realizar ataques contra os consulados de Israel e dos EUA no Brasil.

Na Argentina, em agosto passado, as autoridades desmantelaram uma rede jihadista local na província de Mendoza. Segundo o jornal argentino Clarín, o grupo usava redes sociais e aplicativos de mensagens para compartilhar propaganda do ISIS e preparar ataques contra alvos judeus na região.

“A grande diferença é que os habitantes locais recrutados pelo Hezbollah até agora não têm envolvimento ideológico com a organização terrorista, ao contrário dos jovens que são radicalizados por ISIS”, disse à Diálogo Rashmi Singh, professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais, Brasil.

Em sua recente obra O complô terrorista do Hezbollah no Brasil, Ottolenghi ressalta que o recrutamento de moradores locais é “uma mudança na estratégia do Hezbollah” para desestabilizar, transferindo as possíveis responsabilidades criminais a terceiros. “Com episódios de antissemitismo em ascensão em todo o mundo, um ataque bem-sucedido poderia ter sido disfarçado como um crime de ódio planejado por extremistas locais, em vez de um ataque orquestrado pelo Hezbollah”, escreve Ottolenghi.

O Irã também preferiu contratar mercenários locais nos últimos três anos. “Em 2021, três cidadãos azerbaijanos tentaram assassinar o dissidente iraniano Masih Alinejad em Nova York. No mesmo ano, um agente iraniano recrutou dois criminosos colombianos para atacar empresários e diplomatas israelenses e norte-americanos”, diz Ottolenghi.

Foto de arquivo: Uma bandeira do ISIS está no chão em Baghouz, Síria, em 24 de março de 2019. “As ilhas [Trinidad e Tobago] são um ninho de ideias radicais, especialmente relacionadas ao Estado Islâmico”, disse à Diálogo Sanjay Badri-Maharaj, assessor do Ministério da Segurança Nacional e membro do Conselho de Comissões da Força de Defesa de Trinidad e Tobago. (Foto: Giuseppe Cacace/AFP)
Recrutamento de nativos

Em outubro de 2023, o Coronel Max Anhuamán, da Polícia Nacional do Peru, então chefe da Diretoria Antiterrorismo (Dircote) do país, afirmou que a série de protestos políticos que estavam sendo desenvolvidos naquele momento tinham sido infiltrados por jovens peruanos radicalizados no Irã. De acordo com o site argentino de notícias Infobae, o Cel Anhuamán acusou Edwar Quiroga Vargas, um ativista indígena peruano, de ser o recrutador desses jovens.

Quiroga Vargas, de acordo com Ottolenghi, “converteu-se ao islamismo xiita e estudou por três meses no Irã com Mohsen Rabbani”. Rabbani é o mentor do atentado terrorista de 1994 contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em Buenos Aires, no qual 85 pessoas morreram e centenas ficaram feridas. De volta ao Peru, Quiroga Vargas fundou o Inkarri-Islam, o primeiro centro cultural xiita do país.

“O Inkarri-Islam encapsula perfeitamente a estratégia iraniana de fundir ensinamentos indígenas tradicionais com o islamismo xiita revolucionário. Ao justapor narrativas semelhantes, como a crença dos muçulmanos xiitas no retorno do Mahdi, com mitos indígenas, como o retorno do Inca, Quiroga deu ao seu centro cultural uma fachada de legitimidade, ao mesmo tempo em que perseguia uma agenda radical em nome do Irã”, afirma Ottolenghi.

No Brasil, também foi descoberta recentemente, no estado do Amazonas, uma rede de salafistas, seguidores da mesma ideologia à qual ISIS está aderido, indicou Metrópoles. O grupo estava convertendo jovens indígenas e levando-os para a Turquia.

“O que se depreende dessa história é que são explorados níveis dramáticos de pobreza na região amazônica e o fato de que essas comunidades indígenas estão completamente privadas de direitos e não recebem educação adequada das instituições. É exatamente o mesmo modelo que foi usado no Afeganistão e no Paquistão, quando os jovens eram recrutados para a jihad em madraças ou escolas islâmicas”, disse Singh à Diálogo.

Atividades ilícitas

Além do recrutamento, um ponto de convergência entre Hezbollah e ISIS também são as atividades ilícitas, entre elas a lavagem de dinheiro por meio de criptomoedas. Recentemente, no Brasil, na segunda fase da Operação Trapiche, a polícia descobriu uma rede multimilionária de lavagem de dinheiro montada pelo Hezbollah por meio de tabacarias. De fato, de acordo com as investigações, as contas bancárias abertas pelos homens do Hezbollah, para ocultar parte dos lucros do contrabando de cigarros eletrônicos, faziam parte de um esquema multimilionário, administrado por criminosos brasileiros, que lavava bilhões de reais por meio de criptomoedas.

Em agosto de 2023, a Polícia Federal do Brasil descobriu uma rede brasileira com ligações com o Hezbollah, que buscava realizar ataques terroristas contra alvos judeus e israelenses em todo o Brasil. (Foto: Ministério da Justiça e Segurança Pública do Brasil)

As criptomoedas representam um elo vulnerável, que também é cada vez mais explorado por várias ramificações do ISIS. Por exemplo, o ataque contra o Crocus City Hall de Moscou, na Rússia, em 22 de março, no qual mais de 140 pessoas foram mortas, foi financiado por criptomoedas, de acordo com o jornal investigativo russo independente iStories.

“Em outras partes do mundo, estamos vendo filiais e membros do ISIS levantando criptomoedas online. Portanto, é provável que essas redes latino-americanas expandidas possam aumentar sua arrecadação de fundos dessa forma. O ISIS também se envolve em mercados ilícitos. Muitos de seus membros contornam as rotas comerciais e as exploram, e isso pode se tornar uma tendência crescente na América Latina”, disse à Diálogo Lucas Webber, analista sênior de inteligência sobre ameaças da Tech Against Terrorism, uma iniciativa internacional apoiada pelas Nações Unidas para combater atividades terroristas online, e pesquisador do Soufan Center, um centro independente sem fins lucrativos, que investiga desafios de segurança global.

Em seu artigo O futuro financeiro do Estado Islâmico, Jessica Davis, presidente de Insight Threat Intelligence, uma organização que investiga o financiamento ilícito e a segurança internacional, adverte que “os partidários do Estado Islâmico podem estar levantando fundos individualmente para o grupo […]. Devido à natureza dispersa dessa rede, a maioria das pessoas que enviam fundos é desconhecida para as forças de aplicação da lei e dos serviços de segurança, o que dificulta a interrupção da movimentação de dinheiro antes de ataques ou incidentes”.

O caso de Trinidad e Tobago

Não é coincidência que o Banco Central de Trinidad e Tobago, que está debatendo a regulamentação das criptomoedas, tenha emitido um alerta desde 2019. “As transações com moedas virtuais estão sujeitas a um alto grau de anonimato. Por esse motivo, existe o potencial de uso indevido para realizar atividades criminosas, incluindo lavagem de dinheiro ou financiamento do terrorismo”, afirma o alerta emitido pelo Banco Central de Trinidad e Tobago.

O maior número de combatentes estrangeiros por população do Hemisfério Ocidental, cerca de cem, deixou essas ilhas do Caribe para lutar pelo ISIS. A maioria deles morreu em combate ou está em acampamentos na Síria e no Iraque.

Ativistas com bandeiras do Hamás, Irã, Hezbollah, Líbano e Palestina participam de uma manifestação no Rio de Janeiro, Brasil, em 22 de fevereiro de 2024. (Foto: Pablo Porciuncula/AFP)

No entanto, o extremismo islâmico continua a crescer em Trinidad e Tobago. “As ilhas são um ninho de ideias radicais, especialmente relacionadas ao Estado Islâmico. A comunidade xiita acredita firmemente que o aumento desse tipo de radicalismo é a razão da partida dos iranianos”, disse à Diálogo Sanjay Badri-Maharaj, assessor do Ministério da Segurança Nacional e membro do Conselho de Comissões da Força de Defesa de Trinidad e Tobago.

As ilhas estavam na mira da investigação do atentado à AMIA feita pelo promotor argentino Alberto Nisman, que foi assassinado em 2015. Em seu relatório de 2013 sobre as redes terroristas iranianas na América Latina, Nisman alertou sobre o papel central de Trinidad e Tobago nos projetos terroristas do Irã. Sobre Kareem Ibrahim, de Trinidad e Tobago, condenado à prisão perpétua ao lado de Abdul Kadir, por tentar explodir o aeroporto JFK de Nova York, em 2007, Nisman escreveu que o homem “estava diretamente ligado ao regime iraniano, que lhe fornecia apoio financeiro e também estava ligado a Yasin Abu Bakr, fundador e líder do grupo terrorista Jamaat al-Muslimeen”, que tentou um golpe violento de Estado nas ilhas em 1990, mas não teve sucesso.

“Enquanto Jamaat al-Muslimeen e alguns de seus desdobramentos eram grandes forças criminosas por si só, agora há novas gangues criminosas de inspiração islâmica que representam um grande desafio para toda a região, como Unruly ISIS”, explica Badri-Maharaj à Diálogo sobre a gangue de Trinidad.

De acordo com o relatório de 2024 do Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crime (UNODC), intitulado Gangues do Caribe, sobre drogas, armas de foto e redes de gangues em Jamaica, Santa Lucía, Guiana e Trinidad e Tobago, “186 gangues com aproximadamente 1.700 presuntos membros suspeitos foram denunciadas em todo o país, em 2023. Quase todas as gangues de rua estão organizadas em grupos maiores”.

O fato de os cidadãos de Trinidad e Tobago não precisarem de visto para viajar para o resto do Caribe traz o risco de que a ameaça radical, também exacerbada pelo conflito em curso no Oriente Médio, possa se espalhar para outros países da região.

Grupos como ISIS e ISIS-KP, ativos na Ásia Meridional e Central e agora também em expansão no Ocidente, são ideologicamente contrários ao Hezbollah e ao Irã. “No entanto, eles estão se beneficiando desse conflito e dos sentimentos hostis em todo o mundo muçulmano em relação ao conflito israelense-palestino, e estão usando isso para aumentar seu recrutamento, produção de propaganda e arrecadação de fundos”, disse Webber à Diálogo.

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