A descoberta de um narco submarino autônomo não tripulado, guiado por uma antena Starlink, no Caribe colombiano, em julho de 2025, continua sendo um momento crucial na luta contra as drogas. Embora tenha sido amplamente divulgada na época, a apreensão na costa do Parque Nacional Tayrona, no departamento de Magdalena, revelou um profundo avanço tecnológico e operacional das organizações criminosas transnacionais (OCTs), para transportar cocaína para os Estados Unidos e a Europa.
Apreendido no âmbito da Estratégia Multinacional Orión, liderada pela Colômbia, o artefato estava em fase de construção e testes, mas seu design era sofisticado: capacidade de navegação e comunicação autônomas, capacidade de carga de 1.500 quilos e alcance operacional de 500 a 800 milhas náuticas. O dispositivo também estava equipado com duas câmeras de vigilância, uma na proa, para a navegação externa, e outra interna, para a supervisão do motor. Fundamentalmente, o uso sem precedentes de um terminal Starlink permite que as OCTs obtenham cobertura satelital confiável, de baixa latência e quase global, o que torna possível o comando e controle remoto e indetectável dessas embarcações, uma capacidade que supera em muito os métodos anteriores.
Este dispositivo ilegal, atribuído ao grupo armado organizado Clã do Golfo, é um exemplo claro do desafio de interdição que as autoridades enfrentam atualmente. Mais significativamente, demonstra a capacidade do crime organizado de aproveitar os avanços tecnológicos sofisticados, através do estabelecimento de alianças estratégicas transfronteiriças, o que marca uma nova e perigosa fase na logística do tráfico de drogas.
A estratégia das alianças criminosas
O salto tecnológico é acompanhado por um salto organizacional, no qual as OCTs formam associações especializadas para superar a complexidade logística. A estratégia central é a colaboração baseada em forças complementares: a maior rede criminosa da Colômbia, o Clã do Golfo, fornece o controle territorial e o fornecimento de drogas, enquanto as OCTs regionais e internacionais fornecem a tecnologia especializada, a distribuição e o alcance logístico.
O Clã do Golfo mantém associações diretas e muito lucrativas com vários dos grupos criminosos mais poderosos do mundo. Entre seus aliados mais próximos para o mercado norte-americano estão o Cartel de Sinaloa e o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), do México. Essas alianças são cruciais, principalmente como fonte de desenvolvimento de alta tecnologia. Juana Cabezas, investigadora do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz da Colômbia, declarou à agência AFP que desde 2017 os cartéis mexicanos que operam na Colômbia começaram a contratar engenheiros e especialistas em tecnologia, para desenvolver submarinos não tripulados.
Para os envios transatlânticos, o Clã do Golfo também se associa a poderosas redes europeias, como a ‘Ndrangheta italiana e a máfia albanesa. Entre seus parceiros regionais, o potencial de colaboração com o Tren de Aragua (TdA), uma organização venezuelana designada como terrorista e conhecida por sua rápida e brutal expansão por todo o continente, é um novo foco de atenção para as autoridades.
A eficiência organizacional do TdA poderia fornecer o alcance logístico transnacional (a capacidade de garantir e transportar mercadorias não padronizadas através de várias fronteiras internacionais) e o acesso potencial a pessoal especializado (contratação de talentos técnicos) necessários para apoiar projetos avançados, como os veículos subaquáticos autônomos (VSA).
Orlando Carrillo, especialista em segurança cidadã, comentou à Diálogo sobre essa complexa dinâmica: “Com relação ao Clã do Golfo e ao Tren de Aragua, existem várias teorias, vários estudos, bastante investigação. Em alguns lugares da Colômbia, eles têm estado em enfrentamentos precisamente pelo domínio de alguns territórios. Também é verdade que é muito provável que estejam trabalhando lado a lado. Não é desconhecido que poderia existir uma aliança efetiva entre esses dois grupos para poder, de uma forma ou de outra, trazer tecnologia para o país, dar capacitação especial e, obviamente, utilizá-la nesse tipo de atividades ilegais.”
A evolução dos narco submarinos
Os narcotraficantes estão usando a tecnologia de forma eficaz para atingir seus objetivos, passando de projetos antigos a uma verdadeira autonomia. Essa mudança tecnológica elimina o fator humano, a principal vulnerabilidade e o principal ativo de inteligência das forças de segurança.
O Centro Internacional de Investigação e Análise contra o Narcotráfico Marítimo (CMCON), da Marinha da Colômbia, ofereceu uma visão completa dessa evolução.
“Os narcotraficantes estão empregando a tecnologia de forma eficaz para atingir seus objetivos; os VSA são uma amostra clara da inovação e do desenvolvimento de que agora dispõem, com uma melhoria contínua de seu projeto e capacidades; seu custo é mínimo, em comparação com os enormes lucros que podem gerar”, declarou o CMCON à Diálogo, em um comunicado. “A cobertura global por satélite e o acesso comercial a todos os equipamentos que permitiriam a uma embarcação semissubmersível autopropulsada (SPSS) transformá-la em um VSA constituem oportunidades para as organizações criminosas transnacionais, que têm poder econômico e demonstraram estar um passo à frente das autoridades de controle, no uso da tecnologia para o narcotráfico.”
Os narco submarinos não são novidade; há anos, as OCTs confiam nos SPSS. Trata-se de embarcações grandes e de perfil baixo, que permanecem parcialmente acima da água e costumam ter tripulação. A última evolução, vista na embarcação apreendida em julho de 2025, é o VSA menor e verdadeiramente autônomo.
A mudança para os VSAs é motivada por benefícios econômicos: ao eliminar a necessidade de tripulação, as redes criminosas podem maximizar a capacidade de carga. De acordo com estimativas de preços no atacado, essa capacidade adicional poderia gerar US$ 7 milhões a mais de lucro por remessa, o que torna o custo de construção do VSA insignificante em comparação.
Este caso sem precedentes para a Colômbia se soma a uma tendência preocupante observada pelos países aliados à Estratégia Multinacional Orión. No primeiro semestre de 2025, 10 semissubmersíveis já haviam sido detectados em diferentes regiões da América Latina, e outros sete foram apreendidos até a primeira semana de dezembro, de acordo com a Marinha da Colômbia. “Dessa forma, fica evidente uma evolução nas capacidades logísticas do narcotráfico, que busca superar os esquemas tradicionais, por meio de inovação e meios altamente adaptáveis”, afirmou a Marinha da Colômbia em um comunicado.
O novo paradigma da guerra
O avanço tecnológico observado nos VSA guiados por Starlink criou uma mudança de paradigma nas estratégias antinarcóticos: reduz a eficácia dos métodos tradicionais de interceptação, que dependem da inteligência fornecida pela tripulação, e destaca o desafio estratégico que supõe igualar a inovação das OCTs.
“Os VSA não podem ser considerados um aparato em desenvolvimento, mas, pelo contrário, um dispositivo que certamente já estava sendo utilizado pelos narcotraficantes em várias partes do mundo”, afirmou a Marinha da Colômbia. “O desenvolvimento dos VSA evoluiu de tal forma que eles podem ser manobrados com muita segurança de qualquer lugar do mundo, transportando drogas ilícitas para lugares distantes, com uma probabilidade reduzida de localização e pouca informação sobre sua origem, caso sejam detectados, constituindo-se, portanto, uma ameaça crescente que, para ser neutralizada, são necessárias novas e urgentes estratégias, inovação e desenvolvimento tecnológico por parte das autoridades de controle, bem como cooperação internacional”.


