O som rítmico de navios enormes atravessando uma das passagens marítimas mais importantes do mundo ecoa de uma história de parceria duradoura entre duas nações. Durante quase meio século, o Canal do Panamá, uma maravilha da engenharia que conecta dois oceanos, tem sido um ponto central da diplomacia e da responsabilidade compartilhada entre os Estados Unidos e o Panamá. Essa relação, solidificada pelos tratados conhecidos como Torrijos-Carter, assinados em 7 de setembro de 1977, culminou com o controle total do Canal pelo Panamá, em 31 de dezembro de 1999, marcando uma mudança histórica que continua a definir um vínculo forte e positivo.
Hoje, as operações do Canal do Panamá são gerenciadas pela Autoridade do Canal do Panamá (ACP). Esta icônica hidrovia, que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico, serve como uma artéria crucial para o comércio internacional, pois facilita a movimentação de mercadorias e fomenta a prosperidade econômica em todo o mundo. A administração diligente do Panamá garante que o Canal permaneça aberto, neutro e acessível a embarcações de todas as nações.
Legado de soberania, segurança e defesa
O sucesso duradouro do Canal não é apenas uma prova da expertise panamenha, mas também da colaboração positiva e contínua com os Estados Unidos, que mantém um interesse vital na segurança e no funcionamento ininterrupto do Canal.
Esse compromisso compartilhado se traduz em cooperação ativa em defesa, com ambas as nações participando de exercícios conjuntos e intercâmbio de informações, para proteger o Canal contra quaisquer ameaças potenciais. Esses esforços ressaltam um entendimento mútuo de que a segurança do Canal é fundamental para o comércio global e a segurança regional.
“O Tratado Torrijos-Carter foi um marco nas relações entre o Panamá e os Estados Unidos, ao estabelecerem uma estrutura de cooperação baseada no respeito mútuo e na soberania panamenha”, disse à Diálogo o Comandante Luis Antonio De Gracia, diretor-geral do Serviço Nacional Aeronaval (SENAN) do Panamá. “A transição permitiu a transferência total do Canal e consolidou o Panamá como um parceiro estratégico e ator fundamental na segurança do Hemisfério Ocidental.”
Assim, foi estabelecida uma coordenação contínua com as principais forças panamenhas, como o SENAN e o Serviço Nacional de Fronteiras (SENAFRONT), disse o Comandante De Gracia. Por exemplo, o Panamá e os Estados Unidos participam conjuntamente de exercícios patrocinados pelo Comando Sul dos Estados Unidos (SOUTHCOM), incluindo PANAMAX e UNITAS, com foco na proteção do canal, na pesca ilegal, não declarada e não regulamentada (INN) e na segurança marítima regional.
Esses esforços de cooperação em segurança são essenciais para manter o fluxo ininterrupto do comércio global através da hidrovia. O Canal do Panamá movimenta entre 5 e 6 por cento do comércio marítimo global. Após sua expansão em 2016, aumentou sua capacidade para receber embarcações maiores, reforçando sua importância econômica global.
Além das ameaças tradicionais, o crescente desafio dos ataques cibernéticos levou a novos níveis de cooperação. Recentemente, a ACP e o SOUTHCOM assinaram um acordo inovador de segurança cibernética. Esse acordo visa aprimorar as defesas digitais do Canal, compartilhar informações sobre ameaças e desenvolver capacidade para proteger sua tecnologia operacional crítica contra as atividades cibernéticas maliciosas, ressaltando a natureza abrangente da colaboração moderna em segurança.
“O Canal tem uma posição geoestratégica fundamental para o comércio global. Por lei, o SENAN é responsável por sua proteção e defesa contra ameaças emergentes e híbridas, como o narcotráfico, o terrorismo e ataques cibernéticos, de acordo com seu regime especial”, disse o Comandante De Gracia. “Para isso, coordenamos com outras agências de segurança do Estado e fortalecemos a cooperação bilateral com os Estados Unidos, especialmente por meio do SOUTHCOM.”
“Essa cooperação tem sido fundamental para enfrentar essas ameaças de maneira abrangente. Por meio de iniciativas como o Centro Regional de Operações Aeronavais (CROAN), o SENAN coordena esforços para combater o narcotráfico marítimo, combater a pesca INN e apoiar operações de busca e resgate”, acrescentou o Comandante De Gracia. “O SOUTHCOM fornece apoio no intercâmbio de informações, logística e treinamento.”
Por meio dessa cooperação bilateral, o SENAN recebe assistência técnica dos EUA em manutenção aérea e naval, infraestrutura e equipamentos táticos. A capacitação contínua fortalece a profissionalização do pessoal, melhorando o destacamento e a resposta às ameaças, explicou o Comandante De Gracia. A capacitação especializada aumentou a autonomia institucional em vigilância, logística e segurança. Além disso, desde a década de 1990, equipes das forças especiais dos EUA têm capacitado unidades panamenhas, como parte dessa cooperação. Essas ações melhoram a interoperabilidade regional e garantem a continuidade do comércio internacional.
Cooperação técnica em infraestrutura
Além da defesa, a parceria se estende ao apoio crucial para a viabilidade do Canal em longo prazo. Os Estados Unidos têm fornecido historicamente assistência técnica e, quando necessário, apoio financeiro, para garantir a manutenção, o reparo e a modernização contínuos da vasta infraestrutura do Canal. A colaboração entre o Panamá e o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (USACE) é um mecanismo de cooperação estratégica para a sustentabilidade e segurança do Canal. Há mais de duas décadas, o USACE tem fornecido apoio à ACP no planejamento, análise de riscos e adaptação climática.
Essa colaboração duradoura foi consolidada e fortalecida ainda mais com a assinatura de um memorando de entendimento em abril de 2025, que aborda o apoio técnico contínuo em sustentabilidade hídrica. De acordo com a Embaixada dos EUA no Panamá, esse acordo é vital para reforçar a capacidade institucional do Panamá de gerenciar os recursos hídricos, essenciais para a operação contínua do Canal, especialmente diante da variabilidade climática.
“O apoio e a cooperação recebidos do Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA têm sido cruciais para o desenvolvimento de projetos de infraestrutura, bem como para a modernização e melhoria de nossas oficinas”, destacou o Comandante De Gracia. “Essa colaboração teve um impacto positivo na capacitação e no treinamento de nosso pessoal.”
O USACE conta com ampla experiência na manutenção de mais de 700 barragens, 21.000 quilômetros de hidrovias e 240 eclusas nos EUA, além de prestar assistência em mais de 100 países em todo o mundo. Esse profundo conhecimento tem sido particularmente relevante para enfrentar os desafios impostos por fenômenos como El Niño, a redução das chuvas e o aumento do tráfego marítimo.
O escopo da colaboração também se estende além das necessidades operacionais imediatas do Canal. Desde maio de 2025, o USACE colabora ativamente na cidade de Colón em obras de drenagem e esgoto destinadas a mitigar as inundações persistentes. Essas ações apoiam diretamente áreas urbanas importantes para a logística regional e demonstram a natureza abrangente da cooperação entre os Estados Unidos e o Panamá.
Para Federico Rabino, especialista em relações internacionais e geopolítica e diretor do Instituto Fernando de la Mora, no Paraguai, “a presença dos EUA no Panamá está tomando uma relevância crescente”, disse à Diálogo, aludindo a uma dinâmica bilateral renovada, que abrange infraestrutura, segurança e assistência técnica.
Enquanto o Panamá e os Estados Unidos comemoram mais um aniversário dos Tratados Torrijos-Carter, o Canal do Panamá se destaca como um símbolo poderoso de uma relação madura e positiva das relações entre duas nações soberanas. Ele representa não apenas uma maravilha da engenharia, mas também um testemunho vivo de como a diplomacia e a cooperação podem levar à prosperidade compartilhada, ao respeito mútuo e a um futuro mais brilhante para o mundo.


