Com mais de 30 anos de serviço na Força Aérea do Peru, o Brigadeiro Mariano Nieves Rodríguez Llerena lidera atualmente os esforços do país em dois dos domínios mais estratégicos e emergentes da defesa moderna: o espaço e o ciberespaço.
Comandante do Comando Espacial e Ciberespacial da Força Aérea do Peru e piloto de combate com ampla experiência em cooperação internacional, o Brig Rodríguez conversou com a Diálogo durante a Conferência Espacial das Américas 2026, realizada em Miami, Flórida, sobre o desenvolvimento de capacidades espaciais soberanas, a proteção de infraestrutura crítica, a cooperação com os Estados Unidos e o crescente papel do ciberespaço na segurança regional.
Diálogo: Que impressões o senhor leva deste encontro regional?
Brigadeiro Mariano Rodríguez Llerena, comandante do Comando Espacial e Ciberespacial da Força Aérea do Peru: Venho representando a Força Aérea do Peru, em nome do Comandante-Geral da Aeronáutica, Mario Raúl Contreras Leoncarti. Ele designou três oficiais para participar desta conferência. Sou o Comandante Espacial e Ciberespacial da Força Aérea.
Nosso comando, propriamente dito como comando de força, foi criado há dois anos. Reformulamos nossa organização por meio de uma atualização do plano estratégico de desenvolvimento institucional. Esse novo domínio vem ganhando relevância em todo o mundo, e nós não somos alheios a essa transformação.
O Peru conta com um satélite há aproximadamente 10 anos, voltado principalmente para pesquisa e desenvolvimento por meio da CONIDA [Comissão Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Aeroespacial], onde também atua um, marechal do ar da ativa da Força Aérea dedicado a essa área. No entanto, o componente de segurança e defesa ainda permanecia separado.
Com a criação do comando espacial e sua integração com o ciberespaço, estamos impulsionando novos objetivos e capacidades em defesa e segurança, especialmente para contribuir com a segurança regional e global.
Diálogo: O senhor mencionou o Peru Sat-1. De que maneira esse satélite apoia missões como resposta a desastres naturais ou o combate a atividades ilícitas?
Brig Rodríguez: O apoio é bastante direto. Temos um satélite de observação submétrico, com resolução de 70 centímetros, o que representa uma capacidade muito importante. Até agora, considero que ele continua sendo um dos satélites com melhores capacidades da América do Sul, pelo menos entre os países vizinhos.
É um satélite da Airbus, lançado há aproximadamente 10 anos. A expectativa de vida normalmente é de 10 anos, portanto ele está chegando ao seu limite operacional. Ainda assim, acreditamos que poderá continuar funcionando por mais alguns anos graças à capacidade e ao treinamento do nosso pessoal, que administrou de forma eficiente o combustível, um dos fatores mais importantes para a sobrevivência desses sistemas no espaço.
Contamos com um Centro Nacional de Operações e Processamento de Imagens, que também opera o satélite. O Peru é completamente autônomo em sua operação. O satélite passa quatro vezes por dia sobre o território nacional e descarrega as imagens programadas.
Essas imagens são utilizadas para apoiar diferentes setores do Estado e contribuem diretamente para monitorar o desmatamento na Amazônia, combater a mineração ilegal — um dos temas abordados também nesta conferência — e enfrentar a pesca ilegal dentro das nossas 200 milhas marítimas. Há muitas embarcações estrangeiras explorando nossos recursos e, por meio dessas imagens de satélite, nossas Forças Armadas podem tomar ações mais efetivas.
Diálogo: O Peru fortaleceu sua cooperação com parceiros como os Estados Unidos e a NASA no âmbito espacial. Que capacidades ou vantagens específicas o país obteve a partir dessas associações?
Brig Rodríguez: A CONIDA funciona como a agência espacial do Peru. Existe um trabalho muito próximo entre a agência espacial e o comando espacial da Força Aérea.
A NASA mantém uma relação direta com a CONIDA e a cooperação é bastante estreita. Inclusive, em maio, o Peru sediou uma das reuniões relacionadas aos Acordos Artemis.
Grande parte dessa cooperação está voltada para pesquisa, desenvolvimento e cooperação internacional. No campo da defesa nacional, nosso satélite de observação está orientado principalmente para gestão de risco e desastres.
Temos cinco funções estratégicas: defesa da fronteira externa, apoio à frente interna, desenvolvimento nacional, gestão de riscos e desastres e cooperação internacional. Muitos desses papéis vão além da função tradicional das Forças Armadas, e é aí que essas capacidades espaciais nos ajudam enormemente no trabalho diário.
Diálogo: O Peru ampliou sua cooperação com os Estados Unidos em áreas como consciência situacional espacial e compartilhamento de dados. Como essas capacidades contribuem para melhorar a tomada de decisões e a efetividade operacional?
Brig Rodríguez: Como país, estamos apenas começando a entrar no domínio espacial no campo da segurança e defesa. Por isso, precisamos de acordos internacionais e do apoio da comunidade espacial internacional.
Graças à cooperação com os Estados Unidos, obtivemos ferramentas que nos permitem desenvolver consciência situacional espacial. Não poderíamos fazer nada se não soubéssemos o que está acontecendo no espaço.
O compartilhamento de informações e ferramentas como o STK [Systems Tool Kit], que nos permite realizar simulações e projeções, tornou possível que o Peru se integrasse à rede mundial de observação espacial.
Também vimos nesta conferência que vários países — entre eles Peru, Argentina, Colômbia, Brasil e, se não me engano, Chile — receberão telescópios doados pelo governo dos Estados Unidos. Isso melhorará nossas capacidades de observação direta e permitirá complementar a análise baseada em software com sistemas próprios de observação contribuindo para a segurança espacial global.
Diálogo: As capacidades espaciais dependem de dados e comunicações seguras. Quais são as principais ameaças cibernéticas para esses sistemas e como seu comando trabalha para proteger a infraestrutura espacial do Peru?
Brig Rodríguez: Há dois anos reformulamos a estrutura da Força Aérea por meio de um decreto supremo e organizamos nossas capacidades por domínios: o domínio aéreo, encarregado das operações aéreas e da defesa aérea; o domínio espacial; e o domínio ciberespacial.
Como ainda estamos em desenvolvimento, especialmente no campo espacial, ambos os domínios funcionam atualmente sob um único comando. Provavelmente, no futuro, à medida que continuarmos crescendo, cada domínio terá sua própria estrutura independente.
Tenho a responsabilidade sobre ambos os domínios e trabalhamos de maneira muito integrada porque o domínio cibernético é transversal a todos os demais domínios: terrestre, marítimo, aéreo e espacial. Se não tivermos a capacidade de proteger nossos ativos críticos, eles podem ser comprometidos a qualquer momento.
Sob meu comando temos dois centros permanentes de operações funcionando 24 horas por dia, 7 dias por semana: o Centro de Operações Espaciais e o Centro de Operações do Espaço Cibernético. Este último monitora permanentemente nossas redes para detectar vulnerabilidades, possíveis ciberataques e ameaças contra nossos ativos críticos, especialmente os sistemas terrestres.
Diálogo: As organizações criminosas transnacionais dependem cada vez mais de ferramentas digitais e comunicações. Como seu comando contribui para interromper essas redes, particularmente em coordenação com outros domínios operacionais?
Brig Rodríguez: Temos nossas funções e responsabilidades claramente definidas. O Comando de Cibersegurança e Ciberdefesa da Força Aérea tem a missão de proteger nossas redes internas, centros de dados, comunicações e serviços informáticos.
A Marinha e o Exército também contam com suas próprias unidades de cibersegurança. Em nível conjunto, o Comando Conjunto das Forças Armadas, responsável pelo emprego operacional da força conjunta, conta com o COCI, o Comando de Cibersegurança encarregado da proteção contra ameaças cibernéticas.
Nós contribuímos para o Comando Conjunto com todas as nossas capacidades, da mesma maneira que fazem a Marinha e o Exército. Como mencionei anteriormente, o domínio cibernético é transversal a todos os domínios operacionais.
Diálogo: À medida que o Peru expande suas capacidades espaciais e cibernéticas, como garante que a cooperação com parceiros internacionais fortaleça as capacidades nacionais sem comprometer a soberania?
Brig Rodríguez: Essa é uma pergunta muito boa. Sem dúvida, a cooperação internacional deve ter limites claros. O objetivo é fortalecer nossas próprias capacidades, como vem fazendo o governo dos Estados Unidos não apenas com o Peru, mas também com outros países que estão crescendo nesses novos domínios.
No entanto, existe um ponto em que a autonomia e a soberania nacional não podem ser comprometidas. Isso está bastante claro para nós, e considero que os Estados Unidos também entendem e respeitam esse limite.
Recebemos bastante apoio em capacitação, formação e assessoramento. Estamos apostando fortemente no fator humano porque, se o talento humano não for desenvolvido primeiro, não poderemos aproveitar adequadamente as ferramentas tecnológicas.
Programas e cursos como os do National Security Space Institute e do Joint Commercial Operations permitiram que nosso pessoal adquirisse novas capacidades e trabalhasse em rede com outros países.
Em apenas dois anos conseguimos desenvolver um exercício próprio, o HAWA PACHA, sem interferência direta de nenhum outro país. Aproveitamos as lições aprendidas de exercícios como Resolute Sentinel, CRUZEX e Global Sentinel, identificando os pontos positivos, negativos e os desafios, para construir um exercício que abrange todo o ciclo operacional: desde a detecção de ameaças e o processamento de dados até a operação do satélite administrado pela CONIDA.
Esse tipo de exercício fortalece nossa soberania porque nos permite desenvolver capacidades próprias e, ao mesmo tempo, contribuir para a cooperação internacional. Convidamos os Estados Unidos e outros países para participar e observar como o Peru vem desenvolvendo capacidades nacionais cada vez mais sólidas.
Diálogo: O Peru é considerado uma referência regional neste novo domínio. O que significa para o país e para a força que o senhor representa assumir essa liderança?
Brig Rodríguez: Agradeço muito essas palavras. Nós as recebemos como um reconhecimento pelo esforço que realizamos para nos tornar uma referência no domínio espacial.
Em apenas dois anos de existência como comando espacial, acredito que avançamos bastante. O primeiro ano foi dedicado principalmente ao estudo e à preparação. Além disso, contamos com pessoal com oito ou dez anos de experiência trabalhando em pesquisa e desenvolvimento dentro da agência espacial.
A transição para o campo da segurança e defesa foi bastante natural. Somada à experiência adquirida em exercícios internacionais, isso nos permitiu impulsionar um exercício próprio no domínio espacial.
Acredito que essa liderança também se reflete nos centros de excelência que buscamos desenvolver e no crescimento do exercício HAWA PACHA. Queremos que ele tenha uma segunda, terceira, quarta e quinta edição, cada vez com maiores capacidades e participação de mais regiões do mundo.
Não contamos apenas com participação do continente americano; também tivemos presença europeia e asiática, o que demonstra o crescente interesse nesse tipo de iniciativa.



