JIATF Sul: uma “equipe de equipes” que combate o tráfico ilícito

A Contra-Almirante Jo-Ann F. Burdian, ilustre oficial permanente da Guarda Costeira dos EUA, assumiu a liderança da Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF Sul), em junho de 2024. Sua extensa carreira, que inclui o comando de navios e a formulação de políticas de resposta estratégica, a coloca em uma posição única para liderar as complexas operações de detecção e monitoramento da JIATF Sul contra o tráfico ilícito.

Nesta entrevista exclusiva à Diálogo, a C Alte Burdian destaca a JIATF Sul como uma “equipe de equipes”, baseada na colaboração de 22 oficiais de ligação estrangeiros de 20 nações. Ela falou sobre o uso inovador da inteligência artificial (IA), para aprimorar as operações e promover parcerias multilaterais; compartilhou estatísticas impressionantes sobre a interdição de narcóticos; e reafirmou o papel fundamental da JIATF Sul na segurança regional.

Diálogo: A senhora assumiu as funções de diretora da JIATF Sul em junho de 2024. Quais têm sido seus principais objetivos?

Contra-Almirante Jo-Ann F. Burdian, da Guarda Costeira dos EUA, diretora da Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul: Agradeço a oportunidade de vangloriar-me um pouco sobre nossa maravilhosa “equipe de equipes”. Ao longo do último ano, nos concentramos em medir nossos sucessos, identificar lacunas no desempenho e encontrar maneiras de melhorar continuamente. Somos realmente uma “equipe de equipes”, composta por pessoas de vários serviços de inteligência e aplicação da lei de diversas agências dos EUA, cinco das seis forças armadas – com a Força Espacial sendo bem-vinda ao unir-se a nós – e pessoas de 20 nações parceiras da América Latina, do Caribe e da Europa. Todos nós nos reunimos aqui com um único objetivo: detectar e monitorar o movimento de narcóticos originários da América do Sul e com destino a lugares em todo o mundo.

Diálogo: A equipe da JIATF Sul é uma verdadeira fusão de colaboração nacional e internacional, com oficiais de ligação estrangeiros destacados na Estação Aérea Naval de Key West, para apoiar a participação de seus países nos esforços de combate ao narcotráfico. Como a JIATF Sul opera e o que a levou a ser conhecida como o “padrão global” para operações interagências?

C Alte Burdian: Trabalhamos diligentemente para criar um ambiente onde possamos aproveitar as autoridades e capacidades únicas de cada indivíduo e agência envolvidos, seja uma agência dos EUA, um parceiro ou um aliado estrangeiro. Meu foco tem sido impulsionar a equipe para um maior intercâmbio de informações e inteligência. Nosso objetivo é entender os acontecimentos em nossas nações parceiras diretamente deles mesmos e, então, usar nossas capacidades coletivas, para aprimorar nossa compreensão dos movimentos de narcóticos. Isso permite que todos os envolvidos tomem medidas específicas.

Em essência, nosso sucesso se deve ao fato de sermos bons colegas de equipe e termos criado confiança entre todos os parceiros, não apenas com os Estados Unidos, mas também fomentando a colaboração multilateral direta entre as próprias nações parceiras. Estamos em uma transição ativa de uma abordagem amplamente bilateral para uma que enfatiza as operações multilaterais, muitas vezes sob a liderança direta de nossos oficiais de ligação estrangeiros.

Diálogo: Quão importante é a participação dos oficiais de ligação estrangeiros para o sucesso da JIATF Sul e quantos estão atualmente integrados na força-tarefa?

C Alte Burdian: Atualmente, contamos com 22 oficiais de ligação de 20 países. A JIATF Sul não teria tanto sucesso sem eles. Trata-se de operadores mais talentosos e líderes seniores de suas respectivas guardas costeiras, agências de segurança nacional e forças aéreas e espaciais. Sua presença nos proporciona uma visão inestimável sobre as capacidades e competências de nossos parceiros e sobre a melhor forma de utilizar as informações de inteligência que eles possuem sobre os movimentos de drogas originadas ou em trânsito pelos seus países. Em troca, eles obtêm relacionamentos duradouros com líderes seniores de toda a região, que pensam da mesma forma, e o que eles frequentemente me descrevem como um “doutorado em operações combinadas e conjuntas”.

Quando eu era jovem, minha mãe costumava me dizer: “Você está limpando onde caminha a rainha”, querendo dizer para mover os móveis para aspirar bem, não apenas o que está visível. A lição que tirei foi: “Não se contente com o que você vê; vá até todos os cantos”. É isso que fazemos aqui. Aproveitamos todas as informações disponíveis de todos os parceiros, reconhecendo que cada contribuição é fundamental para enfrentar esse conjunto de problemas desafiadores.

Diálogo: Que habilidades e conhecimentos diversos aportam para a luta contra as organizações criminosas transnacionais (OCTs)?

C Alte Burdian: A comunicação é a habilidade fundamental que nos une a todos; é a chave mais importante para o sucesso. Nós nos comunicamos através de todo o comando, independentemente da nacionalidade ou do uniforme, unidos por um propósito e um interesse comum. A capacidade de compreender esse interesse comum e comunicarmo-nos de forma eficaz para alcançar nossos objetivos é fundamental. Estou impressionada com o talento que chega até nós: aviadores, pilotos de navios, especialistas em inteligência, pessoal de apoio. A experiência coletiva dentro deste pequeno comando em Key West tem um impacto profundo na forma como os Estados Unidos, nossos parceiros e aliados combatem as organizações criminosas transnacionais.

Diálogo: Quais são os benefícios mútuos decorrentes da colaboração entre esses países, levando a uma parceria mais forte?

C Alte Burdian: Como diz o ditado: “o momento de fazer um amigo não é quando você precisa de um amigo”. Todas as nossas comunidades são afetadas negativamente pelas redes criminosas violentas e pelas OCTs que traficam drogas. Não conheço uma única pessoa cuja família não tenha sido afetada de alguma forma pelas drogas ilícitas. Por isso, esse nosso trabalho é o benefício material direto para nossas comunidades e nações.

Além disso, as relações forjadas aqui são inestimáveis. Durante meu tempo como diretora, viajei pela região e encontrei líderes seniores que anteriormente serviram como oficiais de ligação estrangeiros na JIATF Sul. Quando nos encontramos, sei que compartilhamos uma linguagem comum, uma compreensão de objetivos e abordagem, o que nos permite ir direto ao ponto. Como em qualquer relacionamento, quanto mais tempo você passa com uma pessoa, organização, grupo ou nação, melhor você entende suas necessidades e como satisfazê-las. Sinto-me incrivelmente afortunada por ter conhecido tantos parceiros extraordinários em toda a região. Essa experiência colaborativa, focada no intercâmbio de informações e na remoção de barreiras ao progresso, beneficiará todos os nossos serviços, organizações e nações a longo prazo.

Diálogo: Vamos falar sobre os sucessos da JIATF Sul. Que dados pode compartilhar conosco sobre as apreensões realizadas em 2024 e até agora em 2025? Há alguma operação recente que se destaque?

C Alte Burdian: Tenho orgulho de informar que, em 2024, a JIATF Sul apoiou a interdição de 328 toneladas métricas de cocaína. Essa quantidade equivale aproximadamente a um navio de resposta rápida de 154 pés da Guarda Costeira e representa mais de US$ 8 bilhões em perda de rendimentos para as OCTs. Mais importante ainda, cada tonelada métrica de cocaína representa 833.000 doses letais, o que destaca a enorme redução do custo humano para famílias e comunidades. Estou muito orgulhosa da equipe.

Até agora, em 2025 [até meados de junho], estamos cerca de 60 por cento à frente do que estávamos no mesmo período do ano passado, com mais de 228 toneladas de cocaína apreendidas. Tivemos um caso hoje cedo [16 de junho], que já representa mais de US$ 5 bilhões em rendimentos perdidos para as OCTs. Embora eu esteja orgulhosa do sucesso da JIATF Sul no desenvolvimento de objetivos, detecção, monitoramento e entrega para sua interdição, é crucial ressaltar que as interdições da Guarda Costeira dos EUA são apenas uma parte do total. A maioria das interdições é executada por nossas nações parceiras e aliados, o que é um aspecto verdadeiramente especial da JIATF Sul.

É importante ressaltar que não vamos resolver o problema das drogas somente com interdições; a interdição é apenas um golpe pequeno, mas muito importante, contra as OCTs. Tenho orgulho de fazer parte desse quebra-cabeça.

Diálogo: Como a JIATF Sul trabalha para combater as OCTs em todo o processo de tráfico e qual é o seu papel na coleta de provas, para ajudar as nações parceiras a realizar prisões e processos judiciais?

C Alte Burdian: Como eu disse, não vamos resolver o problema das drogas com interdições. É uma indústria de US$ 59 bilhões para os narcotraficantes, para as OCTs, por isso é vital minar seus benefícios financeiros e eliminar as drogas, porque elas são muito letais. Cada interdição também nos dá a oportunidade de desenvolver uma compreensão maior de como as redes criminosas operam e se organizam. Exploramos todas as informações que podemos, para aprofundar as investigações. O melhor resultado de uma apreensão de narcóticos é outra apreensão de narcóticos. Chamamos isso de nosso “ciclo de sucesso”. Depende de nossos parceiros de investigação dos EUA, mas também de todos os parceiros da América Latina, do Caribe, do Canadá e da Europa. Todos trabalhamos juntos para aproveitar todas as informações de uma apreensão para levar-nos à próxima, com o objetivo final de desmantelar as redes criminosas.

Diálogo: Como a JIATF Sul adaptou e aprimorou suas operações e procedimentos, para ajudar mais eficazmente as nações parceiras no combate aos métodos em evolução das OCTs? Existem certos avanços tecnológicos ou sistemas sendo usados para detectar e monitorar as OCTs?

C Alte Burdian: A inovação é a base do nosso sucesso na JIATF Sul. É mais do que uma palavra da moda; é fundamental para a forma como operamos. Estamos aproveitando a IA e o aprendizado automático por meio do que chamamos de “laboratório de batalha da IA”. Realmente, aprendemos lições diárias com as operações e criamos produtos que usam dados para acelerar nossos processos. Recentemente, tive algumas reuniões sobre a transferência dessas ferramentas para um ambiente não classificado, para que todos os nossos parceiros possam se beneficiar.

Estou impressionada com a inovação e a determinação da JIATF Sul. Pela primeira vez este ano, conduzimos duas operações multinacionais de Missão Especial em Navios (SSM). [A SSM inclui uma grande embarcação contratada com um convés que permite que as nações parceiras levem seus barcos interceptadores a bordo, o que facilita suas operações.] Uma delas contou com a participação de El Salvador, Guatemala e México, com suas próprias operações. A outra envolveu Colômbia, Equador e Peru, também com suas próprias operações. Isso permite que os parceiros aprendam uns com os outros e melhorem regionalmente a forma como combatemos o tráfico de drogas. A “Missão Especial em Navios” tem sido na realidade incrivelmente benéfica. Há uma década, a maioria dos nossos parceiros operava dentro de suas águas territoriais. Essa missão desafiou sua imaginação: El Salvador opera rotineiramente a 1.000 milhas náuticas da costa; o México opera a 400 milhas da costa com uma marinha expedicionária; e a República Dominicana e a Guatemala também estão se afastando da costa. Essas são melhorias significativas em sua abordagem tática, demonstrando o benefício da defesa em profundidade, em vez de defender apenas na fronteira imediata.

Diálogo: Quais áreas da região exigem mais esforços e recursos e quais são os principais desafios que a coalizão enfrenta?

C Alte Burdian: Adoro perguntas sobre recursos; gosto de dizer: “Dê-me mais e farei mais”. O desafio neste negócio é enfrentar um adversário que não está limitado por fronteiras nacionais, pelo Estado de Direito ou pela decência humana básica. Nosso desafio é ser tão ágeis quanto eles. Às vezes, isso significa simplesmente que precisamos de mais recursos. Nossos parceiros intensificaram significativamente seus esforços, contribuindo com tudo, desde aeronaves de patrulha marítima até navios de patrulha costeira, interceptadores, informações e oficiais de ligação aqui. Todas essas são peças cruciais do quebra-cabeça.

Embora precisemos de recursos adicionais em todos os lugares, o que posso controlar está relacionado à minha força-tarefa. Meu último relatório indicou que compartilhávamos 96 por cento dos nossos casos não confidenciais com nossos parceiros, que é onde precisamos estar. Também melhoramos nosso intercâmbio de casos confidenciais em aproximadamente 50 por cento. Acredito que podemos preencher a lacuna de recursos por meio da colaboração em informações e do trabalho em equipe. Ainda precisamos de mais recursos: navios, aeronaves e pessoal. Em termos de necessidades regionais específicas, o Pacífico Oriental é vasto e 65 por cento do tráfico de narcóticos ocorre lá. Nosso plano estratégico, “Excelência 2030”, e nossa campanha Plano Martillo priorizam o Pacífico Oriental, seguido pelo Caribe e pelo Atlântico. O Pacífico Oriental continua sendo nosso maior desafio em termos de recursos, devido à sua vastidão e complexidade operacional.

Diálogo: Que resultados ou mudanças importantes espera ver como resultado de seus esforços na JIATF Sul e o que espera que seja lembrado como sua conquista mais duradoura?

C Alte Burdian: Como operadora, minha definição de sucesso é que nossos recursos operacionais na região se sintam bem apoiados, tanto em termos de apoio à missão, quanto, o que é mais importante, com alvos viáveis todos os dias. Isso é uma vitória para mim. Os Estados Unidos estão atualmente envolvidos em uma campanha para proteger sua fronteira e repelir as ameaças, e o trabalho que fazemos na JIATF Sul é fundamental para esse esforço. Se eu deixar um legado duradouro neste comando, será o de manter um foco nítido em nossa missão: compreender que nosso trabalho é fundamental para a segurança e a prosperidade dos Estados Unidos e de todos os nossos parceiros da América Latina e do Caribe.

Assista à entrevista em vídeo aqui

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