Invasão digital da China na América Latina

A expansão da China na América Latina está ganhando força através do uso da inteligência artificial com aplicações arriscadas, como tecnologias de vigilância, reconhecimento facial e desinformação, através de vídeos manipulados artificialmente, os chamados deepfakes. Um relatório recente, chamado América Latina na Nova Geopolítica Global, publicado pelo Centro de Estudos Estratégicos do Exército do Peru (CEEEP), adverte que a inteligência artificial é uma das questões em que a China está se concentrando cada vez mais na América Latina, como uma função antiocidental.

“Em sua Iniciativa de Segurança Global (GSI), elaborada por meio de um Livro Branco sobre o assunto, a China expressou interesse em trabalhar com a região em questões de segurança, por meio da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), onde os Estados Unidos não estão presentes. A China também destaca a governança de dados, a inteligência artificial e o espaço, enfatizando que já tem uma presença significativa na região”, diz o relatório.

Foto de arquivo. A venezuelana Trina Páez mostra seu “Carnê da Pátria” – uma carteira de identidade nacional eletrônica para acessar serviços sociais –, durante uma entrevista à AFP, no bairro 23 de Enero, em Caracas, em 28 de julho de 2017. O carnê emitido pelo regime de Nicolás Maduro não apenas significa implicitamente uma afiliação ao regime, mas também há evidências de que o regime usa o cartão para exercer um controle direto sobre a população. (Foto: Ronaldo Schemidt/AFP)

Tecnologias de controle

De acordo com o Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), oito dos 10 países com as maiores taxas de homicídio do mundo estão na América Latina. A média anual de assassinatos, de acordo com um relatório do UNODC de 2023, foi de 9,3 por 100.000 habitantes na América do Sul, 16,9 por 100.000 habitantes na América Central e 12,7 por 100.000 habitantes no Caribe. Sob o pretexto de combater o crime, Pequim usa a região como o terreno perfeito para testar seus equipamentos de vigilância e expandir seu controle.

Por exemplo, os scanners de acesso de visitantes em muitas prisões brasileiras são chineses, fabricados por Nuctech, um fornecedor direto da indústria de defesa chinesa. Em 2020, de acordo com a plataforma digital de notícias Politico, o governo canadense ressaltou em um documento interno de avaliação de riscos que “as máquinas de raios X de Nuctech ofereceriam inúmeras oportunidades de ataque, incluindo a coleta secreta de imagens de scanner, o comprometimento de dispositivos eletrônicos portáteis e a captura de Bluetooth, sinal móvel ou até mesmo emanação eletromagnética”.

No mesmo ano, o Escritório de Indústria e Segurança dos EUA também colocou Nuctech na lista negra, “por seu envolvimento em atividades contrárias aos interesses de segurança nacional dos EUA”. Em abril de 2024, os escritórios holandeses e poloneses do Nuctech foram invadidos pelos órgãos reguladores da concorrência da União Europeia, por receberem subsídios estatais injustos.

Os sistemas chineses de reconhecimento facial já são uma realidade em muitos países da América Latina. De acordo com o site de notícias argentino Infobae, em Campinas, no estado brasileiro de São Paulo, e em pelo menos 78 cidades do estado da Bahia, as informações coletadas por centenas de câmeras da empresa chinesa Huawei instaladas nas ruas são inseridas em um único sistema central computadorizado. Isso possibilita não apenas a identificação e a prisão de suspeitos, mas também a criação de um verdadeiro arquivo digital. Além das questões de privacidade, o problema, de acordo com muitos especialistas, é que esses dados acabam nas mãos de Pequim. A Lei de Inteligência Nacional de 2017 obriga todas as empresas chinesas a entregarem os dados coletados ao governo de Xi Jinping.

“A China se beneficia não apenas da venda de tecnologia de vigilância, mas também do acesso às informações”, disse à Diálogo Guermantes Lailari, investigador visitante do Instituto de Investigação sobre Defesa e Segurança Nacional de Taiwan.

Por meio da emblemática política externa da China, a Iniciativa do Cinturão e Rota, sistemas chineses de câmeras de segurança foram instalados em cidades latino-americanas, como parte de uma “oportunidade estratégica” para a expansão de empresas chinesas no exterior. As cidades incluem a Cidade do México; San Salvador de Jujuy, na Argentina; Colón, no Panamá; e a fronteira entre o Uruguai e o Brasil, entre outras. Em julho de 2024, a empresa chinesa Lenovo anunciou um dos mais recentes projetos de cidade inteligente na região, mas não quis revelar o nome da metrópole. Usando a inteligência artificial, as câmeras normais da cidade foram transformadas em dispositivos de vigilância capazes de analisar dados de vídeo em tempo real e gerenciáveis remotamente. Em 2016, o Pentágono advertiu sobre a possibilidade de que dispositivos da Lenovo, como computadores, pudessem introduzir hardware comprometido no Departamento de Defesa.

“Se em algum momento um país decidir ir contra a China, a China poderá chantageá-lo justamente por causa desses sistemas de vigilância. Além disso, se um governo for autoritário, por um lado, o sistema de vigilância é funcional para mantê-lo no poder; por outro lado, a China explora esse sistema para garantir que as elites políticas desse país permaneçam leais”, explica Lailari.

Foto de arquivo. O logotipo da Huawei é mostrado durante o Mobile World Congress, em Barcelona, Espanha, em 2 de abril de 2024. Especialistas e agências governamentais de todo o mundo alertaram que os produtos 5G da Huawei representam um risco de segurança, pois podem permitir que a China espione, escute ocultamente comunicações importantes e roube informações confidenciais. (Foto: Nurphoto via AFP)

O caso da Venezuela é emblemático. O Carnê da Pátria, um cartão eletrônico por meio do qual os venezuelanos recebem subsídios e serviços sociais, é propriedade da empresa chinesa ZTE, que, juntamente com o regime de Nicolás Maduro, controla todos os dados pessoais dos usuários registrados, desde seu histórico eleitoral, até seus bens imobiliários.

“Graças à China, os regimes autoritários estão se aprimorando na opressão do seu povo. Além disso, os equipamentos de vigilância são testados dessa forma em diferentes etnias, para que a China possa ‘ajustar’ sua tecnologia para que funcione em mais lugares do mundo. Quanto mais dados forem coletados, melhor será o monitoramento das pessoas em todos os lugares”, afirma Lailari.

Deepfakes

A China também utiliza a inteligência artificial para gerar e disseminar a desinformação. Por exemplo, em 2019, a empresa norte-americana de análise de mídia social Graphika identificou uma rede de operações de influência chinesa que apelidou de Spamouflage, por sua dependência em inundar as plataformas sociais de spam com conteúdo que ecoa a linha de Pequim em questões geopolíticas. Nos últimos anos, a campanha de desinformação, que usa ferramentas de inteligência artificial para criar vídeos de personagens inexistentes e pessoas falsas nas redes sociais, tornou-se mais agressiva, com o objetivo de manipular a população, semear confusão e minar a confiança nas instituições públicas.

“Os deepfakes podem ser usados para manipular a população para que ela acredite no que não é verdade. Por exemplo, um deepfake de um líder político pode até declarar guerra a outro Estado, mesmo que o líder nunca tenha dito isso de fato. Os deepfakes também criam dúvidas na mente das pessoas sobre o que é verdade e o que é mentira”, afirma Lailari.

Comércio eletrônico e pagamentos digitais

A expansão digital de Pequim também se reflete no comércio eletrônico. Empresas chinesas como Temu, Shein e Alibaba, além de Shopee, que tem participação acionária chinesa, oferecem produtos a preços muito baixos e competitivos, um fator decisivo para seu sucesso, especialmente entre os setores menos abastados da sociedade. No entanto, já em 2023, um relatório do Comitê Seleto da Câmara dos Deputados dos EUA sobre o Partido Comunista Chinês alertava para o risco de que muitos dos produtos vendidos nessas plataformas fossem resultado do trabalho escravo.

Em outubro de 2024, a Comissão Europeia abriu uma investigação contra Temu, pela possível presença de produtos falsificados e marketing agressivo. Sob investigação está o “design viciante” da Temu, que inclui programas de recompensas “semelhantes a jogos”.

O setor de comércio eletrônico chinês cresceu paralelamente às fintechs de Pequim, como Fosun. De acordo com outro relatório do CEEEP, O Avanço Digital da China na América Latina, a China está interessada em aumentar tanto os empréstimos ao consumidor quanto os sistemas de pagamento digital na região, para, em breve, evitar os sistemas ocidentais. O risco é que a penetração no mercado latino-americano poderia fornecer ao Partido Comunista Chinês informações sobre a situação financeira de milhões de pessoas.

“As transações bancárias são geralmente privadas nos países ocidentais, enquanto o governo de Pequim pode acessá-las sem problemas, devido às leis de dados chinesas, como a Lei de Inteligência Nacional”, afirma Lailari. Além disso, segundo o especialista, a China, ao contornar o sistema financeiro ocidental, “poderia atenuar as sanções que poderiam ser impostas a ela caso fizesse algo como invadir Taiwan”.

Foto de arquivo. A bandeira da China é mostrada na tela de um telefone, ao lado de um microchip, em Cracóvia, Polônia, em 19 de julho de 2023. Em 2019, a empresa de análise de redes sociais Graphika identificou uma rede de operações de influência chinesa, que chamou de Spamouflage. Nos últimos anos, a campanha de desinformação nas redes sociais se tornou mais agressiva, com o objetivo de manipular a população, semear a confusão e minar a confiança nas instituições públicas. (Foto: Jakub Porzycki/NurPhoto via AFP)

Telecomunicações e satélites

Quanto à empresa chinesa de telecomunicações Huawei, ela continua a se expandir nas áreas mais estratégicas da região. Em outubro de 2024, a provedora de banda larga brasileira Ligga assinou um memorando de entendimento com a Huawei para usar suas redes e levar a 5G à Amazônia. Além disso, a empresa chinesa de telecomunicações está testando novas tecnologias 5G e 5.5G no Brasil e na Argentina. No início de março de 2024, a operadora brasileira de telefonia Vivo e a Huawei até assinaram um acordo global de intercâmbio de patentes, especialmente aquelas relacionadas à 5G. Poucos dias depois, a operadora brasileira anunciou a ativação experimental de seu primeiro centro 5,5G em Campinas, no estado de São Paulo.

De acordo com Lailari, “as informações que trafegam pelas redes da Huawei são enviadas à China para serem analisadas e exploradas”, com o risco de criar verdadeiras guerras econômicas em muitos outros setores. “Por exemplo, se uma empresa chinesa e uma empresa de um país europeu competirem para assinar um contrato com empresas latino-americanas, a China, tendo acesso às conversas ou aos dados transmitidos pela rede comprometida, poderia conhecer antecipadamente a posição de negociação do país sul-americano e, assim, a empresa chinesa poderia oferecer um preço mais baixo do que a empresa europeia, o suficiente para conseguir o contrato”, diz Lailari.

O setor de satélites também é cobiçado por Pequim. Além dos acordos aeroespaciais com alguns países da região, como o Brasil, para a produção de satélites, a China está interessada em impor seus próprios satélites geoestacionários e de baixa órbita para competir com as empresas ocidentais já estabelecidas na região, como Starlink. GalaxySpace, Great Wall Industry Corp e SpaceSail são algumas das empresas chinesas que querem assumir o lugar da empresa de Elon Musk, para oferecer internet via satélite na América Latina.

De acordo com Lailari, “quando se trata de tecnologias chinesas, a possibilidade de Pequim usá-las para fins nefastos é muito alta”, com a possibilidade de colocar em risco a segurança global e não apenas a da região.

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