HispanTV, um canal de televisão em espanhol controlado pelo regime iraniano, dissemina o ódio antijudaico e a desinformação sobre o conflito no Oriente Médio, afirmam analistas internacionais.
“Ao atingir os quase 600 milhões de falantes de espanhol do mundo por meio de satélite, cabo, transmissão ao vivo, sua plataforma de internet e mídia social HispanTV desempenha o papel principal na disseminação do ódio contra os judeus e preconceito contra Israel, na América Latina em particular e no mundo de língua espanhola em geral”, afirma o relatório O longo braço de ódio do regime iraniano na América Latina, da ONG Liga Antidifamação (ADL), com sede em Nova York.
“Além da violência física, a República Islâmica do Irã, o principal Estado patrocinador do antissemitismo e do terrorismo no mundo, usa centros culturais e meios de comunicação em toda a América Latina, para incitar a hostilidade contra as comunidades judaicas”, disse o diretor geral da ADL, Jonathan Greenblatt, em um comunicado de 15 de julho. “O uso cínico de meios de comunicação como HispanTV para amplificar conspirações antissemitas e desinformação é repreensível e antiético.”
Teerã difunde sua propaganda por meio do Serviço de Radiodifusão da República Islâmica do Irã (IRIB), que foi sancionado pelos EUA em 2013 e 2022, por difundir desinformação e por seu papel em violações dos direitos humanos. O IRIB é a maior empresa de mídia do Irã e a única emissora autorizada a transmitir no país, de acordo com a plataforma State Media Monitor, um projeto do Media and Journalism Research Center, instituto especializado na investigação de meios de comunicação do mundo inteiro.
Link para Telesur
O regime iraniano usa principalmente HispanTV e sua homóloga em inglês, PressTV, para promover o antissemitismo global, de acordo com ADL. Na América Latina, os especialistas alertam sobre o vínculo entre HispanTV e o canal de TV aberta Telesur, com sede em Caracas, Venezuela.
“O conteúdo da HispanTV muitas vezes também é transmitido pela rede Telesur, controlada pelo chavismo. A mensagem da Telesur, embora seja mais sutil, é igualmente tóxica. É principalmente anti-israelense e certamente afeta a segurança da comunidade judaica”, disse à Diálogo Luis Fleischman, professor de sociologia e ciências políticas da Universidade Estatal de Palm Beach, na Flórida.
O nexo entre HispanTV e Caracas ficou mais forte desde que o canal foi criado, no final de 2011, como parte do programa de política externa do Irã. “[HispanTV] surgiu na esteira das sanções que isolaram completamente o país, como resultado do desenvolvimento de seu programa nuclear”, afirma o analista internacional Sergio Castaño, professor da Universidade Internacional de La Rioja, Espanha, em Diálogo Político, uma plataforma para influentes políticos sobre temas relevantes para a América Latina.
De acordo com Castaño, o regime iraniano tem encontrado uma crescente aceitação entre os governos de esquerda da América Latina, desde que o ex-presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad estreitou os laços com o regime venezuelano de Hugo Chávez. “Portanto, um dos objetivos da HispanTV é apoiar os candidatos que defendem os postulados da extrema esquerda na América Latina. Ela busca ajudá-los a vencer as eleições e, com isso, encontrar governos que estejam de acordo com seus interesses no maior número possível de países”, acrescentou Castaño.
Teorias da conspiração
A estratégia da HispanTV consiste em misturar relatos históricos revisionistas e teorias da conspiração, para apresentar o sionismo como uma ideologia corrupta e irracional, aliada ao nazismo, destinada a eliminar os palestinos e dominar o mundo, ressalta ADL em seu relatório.
“Ao distorcer fatos históricos e questões contemporâneas, a propaganda da HispanTV visa deslegitimar o sionismo e perpetuar estereótipos prejudiciais sobre o poder judaico. Essa abordagem não apenas deturpa a comunidade judaica e sua história, mas também contribui para um clima de intolerância mais generalizado”, relatou ADL.
Uma manchete no site da HispanTV, em 19 de março de 2020, por exemplo, afirmava que os judeus estariam por trás da pandemia da COVID-19: “O novo coronavírus é resultado de uma conspiração sionista”. Outra manchete, de 10 de abril de 2017, propagava o mito de que os judeus controlam a indústria cinematográfica dos EUA: “Porque os judeus dominam Hollywood?”
HispanTV também classificou os líderes do grupo terrorista Hamas mortos por Israel como “mártires”, ao mesmo tempo em que disseminou desinformação sobre o conflito no Oriente Médio. O programa El Frasco, exibido em 25 de novembro de 2023 pela HispanTV, por exemplo, nega que os túneis sob os hospitais em Gaza pertençam à estrutura militar do Hamas. De acordo com o programa, as imagens dos túneis fazem parte de uma “enxurrada de fake news que a propaganda sionista lançou desde 7 de outubro, com o apoio irrestrito da mídia dominante no Ocidente”.
Da mesma forma, HispanTV divulga informações falsas sobre o conflito entre Israel e Irã. Em abril de 2024, por exemplo, o canal compartilhou um vídeo que afirmava mostrar a destruição em Israel após o ataque do Irã com mísseis e drones. Mas, na verdade, a filmagem era de um incêndio florestal no Chile, informou o diário New York Post.
Atentado à AMIA
Outro elemento constante na rede da HispanTV é a negação do papel desempenhado pelo regime iraniano e pelo grupo terrorista libanês Hezbollah no atentado terrorista à sede da Associação Mutual Israelita-Argentina (AMIA), em 1994. Desde 2006, o judiciário argentino acusa o Irã de ter organizado e o Hezbollah de ter perpetrado o atentado, que deixou 85 mortos e centenas de feridos.
Mahmud Aid, um argentino convertido ao islamismo que estudou em Qom, no Irã, e convidado regular da HispanTV, falou sobre o atentado à AMIA em várias ocasiões, culpando o “lobby sionista internacional” por apontar ao Irã.
Mahmud Aid é o nome islâmico de Benjamín Ernesto Aid, que foi diretor da mesquita El Mártir em Tucumán e presidente da Organização Islâmica Argentina. Aid é mencionado no documento de acusação do promotor federal argentino Alberto Nisman, no julgamento do ataque à AMIA.
Nisman, que foi encontrado morto em seu apartamento em 2015, argumentou que a mesquita El Mártir, em Tucumán, fazia parte de uma “rede criada pelo Irã, que foi usada por elementos fundamentalistas, como uma ferramenta eficaz para recrutar seguidores e transformá-los em indivíduos aptos para as atividades de inteligência pretendidas”, informou o site de notícias argentino Infobae, em 3 de outubro, com base no relatório do promotor argentino.


