Frente comum contra crime organizado na América Latina e no Caribe

Dezoito países da América Latina e do Caribe uniram forças em uma aliança regional para combater o crime organizado, uma ameaça crescente que põe em risco a estabilidade e a segurança da região. Com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), essa iniciativa, lançada em 12 de dezembro de 2024, busca abordar conjuntamente esse problema, informou o BID em um comunicado.

A estratégia da Aliança para Segurança, Justiça e Desenvolvimento se baseia em três pilares principais: proteção das populações vulneráveis, fortalecimento das instituições de segurança e justiça, bem como redução dos fluxos e mercados financeiros ilegais. Essa abordagem prioriza a implementação de políticas baseadas em evidências e ações concretas, buscando uma resposta coordenada e eficaz entre os países membros, disse o BID.

As nações participantes incluem Argentina, Bahamas, Barbados, Belize, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Suriname e Uruguai, demonstrando o compromisso coletivo da região em garantir a segurança e promover o desenvolvimento, acrescentou o comunicado.

“O crime organizado transcende fronteiras e seu combate exige uma ação regional ousada e coordenada. A Aliança será fundamental para mobilizar recursos, fortalecer as capacidades e proteger nossas comunidades”, declarou Ilan Goldfajn, presidente do BID. “A iniciativa também busca criar parcerias estratégicas e maximizar o impacto dos esforços nacionais contra o crime organizado.”

A Aliança será liderada por um comitê diretor e três grupos técnicos, que contarão com a participação de mais de 20 países. Seus esforços se concentrarão na redução da violência em comunidades vulneráveis, na modernização dos sistemas de segurança por meio de tecnologia e colaboração e no combate aos mercados ilícitos com ferramentas avançadas, informou o BID.

Membros do corpo antidrogas da Direção Nacional de Controle de Drogas da República Dominicana montam guarda ao lado de pacotes apreendidos contendo 9,5 toneladas de cocaína, em Santo Domingo, em 6 de dezembro de 2024. As drogas estavam escondidas em dois contêineres de bananas procedentes da Guatemala, com destino à Bélgica (Foto: Francesco Spotorno/AFP)

Colaboração internacional

Onze organizações internacionais, incluindo a Organização dos Estados Americanos (OEA), a Interpol, o Banco Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, juntaram-se à Aliança. Ela foi lançada oficialmente na Cúpula Regional de Segurança e Justiça, realizada em Bridgetown, Barbados.

“Essas alianças se baseiam em organizações como Interpol, Europol e agências dos EUA, pois elas têm vasta experiência, maiores recursos e altos níveis de capacitação para lidar com ameaças transnacionais”, afirmou Jorge Serrano, assessor da Comissão de Inteligência do Congresso do Peru, em uma entrevista à Diálogo.

O Equador assumirá a presidência pro tempore, enquanto o BID desempenhará o papel de Secretaria Técnica, fornecendo apoio estratégico e mobilizando recursos essenciais. No Caribe, a Aliança implementará suas ações por meio do programa One Safe Caribbean against Organized Crime (Um Caribe seguro contra a delinquência organizada), alinhado com a estratégia regional ONE Caribbean 2024-2028, para garantir sinergias e eficiência em seus objetivos.

“Essa nova Aliança deve ter o apoio total dos governos de cada país membro, com um sólido compromisso com a segurança interna e recursos humanos, infra estruturais, tecnológicos e econômicos, suficientes para atingir seus objetivos”, disse Serrano. “Além da decisão política, será necessário desenvolver estratégias sustentáveis ao longo do tempo, para combater o crime organizado e o narcotráfico.”

O auge do crime organizado

O incremento do crime organizado na América Latina e no Caribe é o resultado de uma combinação de fatores estruturais e históricos. Entre eles, destaca-se a produção recorde de drogas e a abertura de novas rotas em países como Argentina, Costa Rica e Paraguai, bem como o surgimento de novos mercados consumidores, ressalta um relatório do think tank Real Instituto Elcano, da Espanha.

Durante mais de quatro décadas, a região tem sido um polo central de produção e tráfico de narcóticos. De acordo com o relatório, Bolívia, Colômbia e Peru lideram a produção mundial de cocaína, enquanto América Central, Colômbia, Equador, México e Venezuela se estabeleceram como pontos estratégicos de exportação para a Europa e os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, o crime organizado está diversificando suas atividades em crimes como tráfico de pessoas, mineração ilegal, extorsão, extração indiscriminada de madeira e produção de drogas sintéticas, como o fentanil, que estão transformando a dinâmica regional e global, ressalta o Real Instituto Elcano.

De acordo com um relatório da revista Foreign Affairs Latinoamérica, um esforço conjunto do Council on Foreign Relations e do Instituto Tecnológico Autônomo do México (ITAM), a conectividade impulsionada pelos avanços tecnológicos gera dinâmicas nas quais “produtores localizados na América Central, Caribe, Colômbia, Equador, México e Peru são abastecidos com precursores químicos provenientes de potências asiáticas, como China, Índia e Cingapura, entre outras”.

Um fator fundamental que facilita essas atividades é a corrupção, que permite que as redes criminosas se infiltrem nas economias legais e perpetuem sua impunidade. De acordo com uma análise do site de notícias argentino In.Visibles, uma plataforma de jornalistas e acadêmicos especializados no crime organizado na América Latina, a lavagem de dinheiro não apenas financia essas atividades, mas também afeta a saúde pública, a justiça, a competitividade das empresas, os salários, o emprego, os investimentos e as percepções de segurança, informou Foreign Affairs Latinoamérica.

“Além da lavagem de dinheiro, a região sul-americana enfrenta um novo e poderoso desafio criminal: a exploração ilegal do ouro, que nos últimos anos ultrapassou o narcotráfico em termos de rendimentos”, afirmou Serrano. “Esse crime opera junto com o narcotráfico, que por sua vez colabora com grupos terroristas como Hamas e Hezbollah, gerando um círculo vicioso que corrompe a burocracia e agrava a crise regional.”

Intensificar a guerra

A polícia chilena mostra latas de tinta apreendidas, contendo 844 kg de metanfetamina, uma droga sintética com valor de varejo estimado em aproximadamente US$ 16 milhões, em Santiago, em 10 de janeiro de 2025. (Foto: Javier Araos/AFP)

O apoio dos EUA à região complementa os esforços da nova Aliança, fortalecendo a segurança na América Latina, através de projetos como a Iniciativa de Segurança da Bacia do Caribe e acordos bilaterais, para combater atividades ilícitas.

“Os Estados Unidos estão profundamente envolvidos em questões de segurança global, com ênfase especial no combate ao narcotráfico e no crime organizado transnacional na América Latina”, observou Serrano. A influência dos EUA tem sido decisiva nas estratégias de segurança antidrogas, ressalta um relatório da fundação política colombiana Friedrich-Ebert-Stiftung.

Administração para o Controle de Drogas dos EUA

Autoridades como o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM); a Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA); e a Agência Federal de Investigação (FBI) lideram operações, investigações e a capacitação com as forças de segurança das nações parceiras na região. Além disso, a Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID) implementa programas voltados para o desenvolvimento e a prevenção em comunidades vulneráveis.

“Além das parcerias regionais, o enfrentamento das ameaças na região exige que os três poderes do Estado em cada país, juntamente com representantes da sociedade civil e das ONGs, trabalhem de forma coordenada, para reduzir os atos de corrupção e oferecer total apoio a essas iniciativas”, observou Serrano. “O narcotráfico e o crime organizado são as principais ameaças na região.”

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