A Costa Rica enfrenta uma intensificação sem precedentes na luta contra o crime organizado e o narcotráfico, pressionada pelo avanço de organizações criminosas transnacionais (OCTs) que utilizam suas costas do Caribe e do Pacífico como rotas logísticas críticas para o tráfico internacional de drogas.
No início de novembro de 2025, o Órgão de Investigação Judicial (OIJ) da Costa Rica lançou a maior operação antidrogas da história do país contra o chamado Cartel do Caribe Sul, uma rede que enviava cocaína para a Europa e os Estados Unidos.
Esse ritmo acelerado da luta contra o narcotráfico foi reforçado por alianças internacionais: poucas semanas depois, as autoridades costarriquenhas anunciaram a apreensão de 4,4 toneladas métricas de cocaína, em uma operação conjunta no Pacífico, com a Guarda Costeira dos EUA, a DEA e a Polícia para o Controle de Drogas (PCD). O presidente Rodrigo Chaves saudou publicamente esse trabalho conjunto, destacando o acordo de longa data para realizar patrulhas conjuntas contra o narcotráfico.
Em outubro, as autoridades também conseguiram desmantelar uma estrutura de narcotráfico integrada por colombianos e costarriquenhos, da qual foram apreendidas 7 toneladas de drogas nos últimos três anos. O diretor do OIJ, Randall Zúñiga, disse em um comunicado que os traficantes, principalmente de nacionalidade colombiana, empregavam diversos métodos para transportar drogas de Turbo, na Colômbia, para a Costa Rica, onde eram armazenadas e posteriormente exportadas para o norte do continente e para a Europa, informou a rede alemã DW.
Um país que se tornou centro logístico dos cartéis
“O país centro-americano enfrenta um aumento nas operações dos cartéis da Colômbia e do México, que conseguiram usar a Costa Rica como centro logístico e de transbordo de drogas, para diferentes destinos na Europa e nos Estados Unidos”, disse à Diálogo Carolina Sampó, coordenadora do Centro de Estudos sobre Crime Organizado Transnacional da Argentina.
A magnitude das operações reflete a gravidade do problema: o OIJ mobilizou 1.200 agentes em 64 batidas simultâneas contra o Cartel do Caribe Sul, abrangendo regiões como Alajuela, Limón, Cartago, Puntarenas e San José.
De acordo com as investigações, essa OCT mantinha uma estrutura sofisticada com tecnologias de ponta, armamento, logística terrestre e marítima, casas de segurança, drones e outros recursos essenciais para suas atividades criminosas. A colaboração internacional foi fundamental, com o apoio de corpos policiais da Colômbia, Espanha, Estados Unidos, França, Panamá e Reino Unido.
Alianças criminosas e a ameaça regional
“O narcotráfico se tornou o principal desafio de segurança para a Costa Rica, país que está localizado no centro do corredor entre a América do Sul, principal zona de produção de cocaína”, alertou Sampó. A especialista destaca que relatórios da imprensa e de inteligência identificam alianças entre o Cartel dos Sóis (CdS) venezuelano e gangues colombianas, que precisam fortalecer as rotas marítimas para os portos europeus. Lá, organizações criminosas europeias, como a N’drangheta e redes albanesas dos Balcãs, são responsáveis pela distribuição.
O ministro da Segurança Pública da Costa Rica, Mario Zamora Cordero, afirmou, no início de setembro de 2025, que o regime venezuelano de Nicolás Maduro é um “narco governo” e destacou a influência do CdS na região. Zamora Cordero também reafirmou o papel dos Estados Unidos como aliado fundamental na luta contra as drogas, lembrando que a Costa Rica compartilha com o resto da América Central a realidade de ser “uma rota de passagem entre os países produtores e consumidores”.
Aumento da violência e sofisticação criminosa
A Costa Rica, tradicionalmente vista como um oásis de segurança, atravessa agora níveis recordes de violência, segundo InSight Crime. As organizações locais tornaram-se mais sofisticadas e violentas, buscando controlar o negócio e integrar-se a redes transnacionais. Esse fenômeno, alerta InSight Crime, aumenta o risco de corrupção e instabilidade.
“Na Costa Rica, de 2015 a 2019, atuou o cartel de Los Moreco, um grupo criminoso envolvido no tráfico de drogas, que chegou a se espalhar por vários países da América Central”, explicou Sampó. O grupo, que enfraqueceu após a prisão de seus líderes, não é mais considerado uma grande potência criminosa. No entanto, acrescentou Sampo, “não se descarta que ainda existam membros remanescentes conectados a diferentes atores criminosos da região no negócio do narcotráfico”.
Cooperação internacional e novas estratégias
Para reforçar esse esforço internacional na luta contra a sofisticada atividade das OCTs, o governo dos EUA entregou recentemente dois scanners fixos e dois drones Puma ao Ministério da Segurança Pública da Costa Rica, a fim de reforçar a vigilância nos portos de Caldera e Puntarenas e Moin, em Limón.
“O crime transnacional não respeita fronteiras, nem coloca limites aos seus objetivos, pelo que a complexidade e a amplitude dessas redes exigem vigilância constante e ações decisivas por parte das autoridades encarregadas de combater o narcotráfico”, analisou Sampó.
A cooperação internacional vai além da assistência material. A União Europeia organizou um treinamento especializado para funcionários das unidades especiais costarriquenhas, com o objetivo de fortalecer a segurança portuária e a capacidade de resposta ao narcotráfico. Essa iniciativa se enquadra no Memorando de Entendimento assinado em fevereiro de 2025, que integra a Costa Rica ao Projeto de Cooperação Portuária (SEACOP), financiado pela União Europeia.
A luta da Costa Rica contra o tráfico de drogas e o crime organizado é hoje uma batalha que transcende as fronteiras nacionais. O país, que se tornou um ponto estratégico nas rotas de drogas, enfrenta um desafio que requer tanto respostas locais decididas, quanto uma cooperação internacional sustentada. A gravidade da situação e a sofisticação das redes criminosas representam um desafio crítico para a segurança regional e a estabilidade democrática.
Sampó conclui que “é preciso continuar e reforçar o intercâmbio de informações entre os Estados, com o objetivo de elaborar estratégias e ferramentas para enfrentar o crime organizado, como, por exemplo, intensificando as operações de apreensão de drogas e bens provenientes da lavagem de dinheiro. Essa é uma maneira fundamental de enfraquecer as estruturas do narcotráfico”.



