Em 2014, apenas um ano após começar sua produção na África, a empresa chinesa Time Ceramics tornou-se rapidamente a principal fabricante de pisos e azulejos no continente. No entanto, antes de sua próxima abertura no México, ela já enfrenta acusações de abuso ambiental e contratação irregular de trabalhadores chineses.
Em 2023, Time Ceramics iniciou a construção de uma fábrica no município de Emiliano Zapata, no estado de Hidalgo, com um investimento de US$ 150 milhões e a promessa de transformar a região, informou o jornal mexicano Milenio, em 7 de junho. A nova fábrica terá mais de um quilômetro de instalações, o que a torna uma das maiores da América Latina.
“Mais uma vez, vemos o padrão recorrente do investimento chinês na América Latina”, disse à Diálogo, em 14 de junho, Euclides Tapia, professor titular de Relações Internacionais da Universidade do Panamá. “O México é outro exemplo das práticas questionáveis que caracterizam as operações das empresas chinesas na região.”
Líquido vital
De acordo com o jornal mexicano El Universal, a empresa cavou poços sem autorização da Comissão Nacional da Água (Conagua), extraindo mais de 2.000 m³ de água, o que afetou os habitantes da região.
No início de fevereiro, os agricultores do Vale de Apan, em Hidalgo, apresentaram uma denúncia à Comissão de Cooperação Ambiental (CEC) no âmbito do acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, destacando a extração não autorizada de água, o impacto ambiental e enfatizando a situação prejudicial para as empresas mexicanas, devido à concorrência desleal.
Esses agricultores apresentaram documentação, incluindo uma resposta da Conagua, confirmando que a empresa chinesa não tem autorização para usar águas subterrâneas, informou a revista mexicana Proceso.
Eles também forneceram fotos da escavação de dois poços de água e da destruição florestal na propriedade, o que constitui uma mudança ilegal do uso da terra. De acordo com as respostas de entidades públicas, como a Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Semarnat) e a Procuradoria Federal de Proteção Ambiental (Profepa), não há declaração de impacto ambiental ou solicitação de mudança no uso de terras florestais, detalhou a revista.
Os entrevistados disseram à Proceso que o aquífero Tecocomulco, sob o terreno onde a fábrica está sendo construída, tem disponibilidade limitada de água subterrânea. O aumento das atividades levará à superexploração, excedendo o volume máximo sustentável e afetando o fluxo de rios e nascentes. Essa situação colocará em risco o equilíbrio do aquífero, a sustentabilidade ambiental e o abastecimento de água para a população e a agricultura.
“A questão da água representa a vulnerabilidade dos investimentos chineses na região, devido ao seu uso indiscriminado dos recursos hídricos, o que leva ao deslocamento da população local de suas comunidades”, declarou Tapia. “As autoridades locais priorizam os lucros imediatos oferecidos pelo capital chinês, sem considerar as repercussões de longo prazo.”
No início de junho, a Secretaria da CEC determinou que a apresentação da documentação não atendia a determinados critérios e encerrou o processo.
Migrantes chineses
A Procuradoria Geral da República (FGR) do México informou que, em 23 de janeiro, localizou 148 migrantes de origem chinesa em Emiliano Zapata, que estavam trabalhando para Time Ceramics. Desses, 39 não tinham a documentação necessária para permanecer no país e, portanto, foram postos à disposição do Instituto Nacional de Migração.
Durante a operação, as autoridades mexicanas apreenderam dois poços de água de 300 metros de profundidade, operados pela empresa estrangeira com capital chinês, bem como duas máquinas de perfuração, um terreno de aproximadamente 763.000 metros quadrados, um trator-reboque e um caminhão, de acordo com a FGR.
“Os 148 trabalhadores chineses chegaram a Hidalgo em meados de 2023, para instalar a linha de produção de Time Ceramics”, informou o meio de comunicação mexicano N+, em fevereiro. “Desde então, eles foram alojados pela empresa em um hotel, onde passam a maior parte do dia. Apenas um grupo sai duas vezes por dia para comer.”
“A China costuma introduzir ilegalmente cidadãos chineses na região, muitas vezes em colaboração com certas autoridades locais”, disse Tapia. “Embora aceitem mão de obra local em alguns casos, eles não permitem a entrada de trabalhadores especializados necessários para a infraestrutura, pois Pequim não oferece transferência de tecnologia. Essa discriminação afeta os trabalhadores mexicanos.”
Por outro lado, o artesanato mexicano é parte integrante do patrimônio cultural do país. A produção artesanal não tem apenas um valor econômico, mas também simbólico e cultural, que é influenciado pelas inovações tecnológicas e pelas mudanças socioculturais, informa o portal espanhol Gazeta de Antropología. “Os artesãos estão constantemente desenvolvendo novas técnicas e designs para manter a relevância de seus produtos no mercado, mas a concorrência desleal com produtos industriais [chineses] poderia levar à perda de técnicas e conhecimentos tradicionais, afetando a identidade cultural das comunidades de artesãos.”
Direitos trabalhistas
Em 7 de maio, cerca de 200 trabalhadores mexicanos de Time Ceramics protestaram contra a redução de seus salários de US$ 130,00 semanais para US$ 98,00, exigindo justiça trabalhista e revisão de contratos, para evitar a perda de antiguidade, o que eles consideram uma violação de seus direitos trabalhistas, informou o diário El Sol de Hidalgo. Eles também denunciaram a falta de equipamentos de segurança e o tratamento análogo à escravidão.
“Não sabemos como são as condições de trabalho na China, mas, aqui, os mais de 400 trabalhadores chineses estão trabalhando em condições desumanas. Talvez seja por isso que eles querem nos tratar da mesma forma, puxando-nos e gritando conosco, mas no México nossos direitos devem ser cumpridos”, declarou um dos trabalhadores mexicanos a El Sol de Hidalgo, preferindo o anonimato, por razões de segurança.
Dependência
“A geografia do México o torna um ponto-chave para a China, que o prioriza devido a seu acesso privilegiado a grandes mercados com alto poder aquisitivo, como os Estados Unidos e o Canadá. O México é um lugar privilegiado de investimento para os chineses, graças ao acordo de livre comércio com essas duas poderosas nações”, afirmou Tapia. “A partir do México, Pequim pode se infiltrar direta ou indiretamente nesses mercados.”
A estratégia por trás desse interesse é evitar as tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre as importações chinesas, ressalta o jornal mexicano El Economista. De acordo com Tapia, “o México deve entender que os investimentos chineses buscam se estabelecer em países estratégicos, como parte de sua iniciativa Cinturão e Rota, gerando dependência e, eventualmente, controle econômico em áreas estratégicas”.