Chile e Brasil fortalecem defesa cibernética por meio de exercício binacional

O Chile realizou junto com o Brasil, de 7 a 9 de agosto, em sua capital, Santiago, a primeira versão do exercício binacional Escudo Cibernético, com o objetivo de desenvolver as capacidades militares e civis de defesa cibernética. O exercício, organizado pelo Estado-Maior Conjunto do Chile (EMCO), foi realizado na Academia de Guerra do Exército.

“A novidade deste ano é o Escudo Cibernético, que foi planejado em 2023 e que, na prática, permitiu, durante três dias consecutivos, realizar um exercício de simulação de eventos reais”, disse à Diálogo, em 23 de setembro, Guillermo Holzmann, analista de defesa e acadêmico da Universidade de Valparaíso, no Chile. “Durante o treinamento, o pessoal militar e civil colocou em funcionamento as capacidades que ambos os países desenvolveram, para comparar os procedimentos e as melhores práticas que eles vêm desenvolvendo e aperfeiçoando.”

O Escudo Cibernético contou com o destacamento de 65 militares do EMCO, do Exército, da Marinha e da Força Aérea do Chile, com membros do seu Ministério do Interior e da Segurança Pública, bem como a participação do Comando de Defesa Cibernética do Brasil. Todos eles realizaram diferentes exercícios, onde enfrentaram situações e incidentes variados e deram respostas aos múltiplos focos de ação que uma crise de defesa cibernética gera, destacou o EMCO em sua página no Facebook.

O Exército do Chile destacou que essa atividade adquire relevância após a entrada em vigor, em abril, da nova Lei Marco de Segurança Cibernética no Chile. Entre outros pontos, essa lei cria a Agência Nacional de Segurança Cibernética, órgão do governo para sua defesa digital, que ditará protocolos e padrões para prevenir, relatar e resolver incidentes de segurança cibernética ou ataques cibernéticos.

O Escudo Cibernético foi desenvolvido em duas fases simultâneas: uma simulação construtiva, em que as equipes de resposta a incidentes de segurança informática de ambos os países interagiram em cenários simulados de ataques cibernéticos, e uma fase de trabalho técnico.

“A crescente sofisticação das ameaças digitais nos leva a considerar essa tecnologia como um pilar estratégico para garantir a soberania e a segurança do nosso país”, disse Ricardo Montero, subsecretário de Defesa do Chile, no início do exercício. “Isso também nos leva a comprometer-nos com uma resposta coordenada e robusta a esse tipo de ameaça.”

“O Escudo Cibernético é uma manifestação concreta da cooperação Chile-Brasil. Seu objetivo é compartilhar procedimentos, melhores práticas e experiências em operações militares no espaço cibernético”, acrescentou Montero. “Nesse evento, temos a oportunidade de fortalecer nossas capacidades técnicas e táticas, mas também de reforçar nossos laços de cooperação bilateral.”

O Brasil e o Chile são alvos muito frequentes de ataques cibernéticos, incluindo infecções por malware, ransomware e phishing, afirmou Holzmann. De acordo com um relatório da Empresa Nacional de Telecomunicações do Chile (Entel), o Chile foi o quarto país da América Latina com o maior número de ataques cibernéticos em 2023. O Brasil ocupou o primeiro lugar, acrescentou o relatório.

“No contexto cibernético, a cooperação é fundamental”, disse ao site do Exército do Chile o Tenente-Coronel Marcio Andrei Stein, do Exército do Brasil, do Comando de Comunicações e Guerra Eletrônica (CCOMGEX). “É por isso que estamos aqui no Chile, para fortalecer nossos laços de amizade e desenvolver nossas capacidades na área.”

Ambos os países têm sido ativos em matéria de defesa cibernética. Em agosto, o Exército do Chile inaugurou em Santiago o Laboratório de Defesa Cibernética para a Proteção de Infraestrutura Crítica, em colaboração com o Centro de Inovação da Pontifícia Universidade Católica do Chile, que fortalece a defesa de infraestruturas críticas, como um espaço para a colaboração público-privada.

Em suas primeiras fases, o laboratório se concentrará em oito programas-piloto previstos para o segundo semestre de 2024. Esses projetos incluem simulações de defesa cibernética e programas malignos [ransomware], monitoramento de indicadores de comprometimento e amostragem de tecnologias emergentes, como inteligência artificial e tecnologias quânticas, informou o portal chileno El Mercurio, em 5 de agosto.

Por sua vez, o Comando de Defesa Cibernética do Brasil continua ativo em vários treinamentos. Em abril, por exemplo, participou do exercício Locked Shields 2024, um dos melhores treinamentos de defesa cibernética do mundo, organizado pelo Centro Cooperativo de Excelência em Defesa Cibernética da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Na ocasião, participaram mais de 3.500 profissionais de 41 países, operando remotamente.

“Uma nova edição do Escudo Cibernético foi proposta para 2026, incorporando entidades do setor privado, devido à evidente convergência de interesses que há entre ambos e à quantidade de dados que são manipulados”, concluiu Holzmann. “Para isso, obviamente haverá necessidade de adaptação legislativa, para que haja efetivamente uma regulamentação compatível entre ambos os países e, provavelmente, entre outros países que também são considerados na Organização das Nações Unidas, na OTAN e na União Europeia.”

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