Análise sobre a política militar russa na América Latina

Análise sobre a política militar russa na América Latina

Por Samuel Bendett, analista sobre temas russos do Centro de Análise Naval
novembro 30, 2020

A Federação Russa considera a América Latina uma das principais regiões de seu alcance global atual. Apesar do impacto relativamente pequeno em termos de mão de obra e material na região, a Rússia tem conseguido manter e fortalecer suas relações militares e de segurança com três países-chave: Venezuela, Cuba e Nicarágua. Além desses países, Moscou também está tentando expandir sua influência por meio do seu envolvimento em iniciativas políticas, econômicas ou militares, com um número cada vez maior de nações latino-americanas. No entanto, as instituições de segurança russas estão preocupadas com a redução da influência do país, tendo em vista seus investimentos na Venezuela e o papel dos aliados dos EUA em um provável conflito.

Para entender como a Rússia vê seu envolvimento na região, é importante ler as declarações oficiais nas páginas oficiais na internet do Ministério das Relações Exteriores ou do Ministério da Defesa russos. Essas declarações podem oscilar desde críticas à Colômbia, por se alinhar com os Estados Unidos contra Caracas, até chamados por um diálogo mais amplo na Bolívia pós-Morales e comentários esperançosos e animadores quanto ao Brasil fazer parte da grande iniciativa global dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Além dessas fontes óbvias, existem veículos de mídia que muitas vezes publicam as opiniões de autoridades militares e civis russas sobre diversas posturas. Devido à atenção que as instituições russas de segurança estão dando à atual crise na Venezuela e às ações dos seus vizinhos, artigos públicos e opiniões de militares russos ativos e reformados e de membros do governo abrem uma janela para os debates de políticas exteriores da Rússia, às vezes pouco esclarecedores. Esses debates incluem questões sobre a postura militar russa, a ordem regional de combate e uma maior visão geral geopolítica sobre os interesses da Rússia na América Latina.

Fonte pública

O presidente ilegítimo da Venezuela Nicolás Maduro (à esq.) cumprimenta o presidente russo Vladimir Putin, durante uma reunião no Kremlin em setembro de 2019. A crise de dívidas da Venezuela deu à China, o maior credor do país perturbado, e à Rússia uma oportunidade de ouro para expandir sua influência econômica – e possivelmente militar – nas Américas. (Foto: Reuters)

Existem diversas publicações de fonte aberta ou pública nas quais autoridades militares, professores e pesquisadores seniores russos produzem reportagens sobre questões de defesa, segurança e política. O Correio Militar-Industrial (Voenno-Promyshlennyi Kur’er, VPK, em russo) e a Análise Militar Independente (Nezavisimoe Voennoe Obozrenie, NVO, em russo) despertam interesse em particular. Por exemplo, o VPK publica regularmente editoriais e artigos do ministro da Defesa da Rússia, Sergey Shoigu, e do chefe do Estado-Maior, General de Exército Valery Gerasimov. Essas publicações são voltadas para o restrito público nacional e internacional especificamente interessado nas questões militares e de segurança russas. Muitos estudantes das academias e instituições militares da Rússia – muitas vezes com a patente de coronel ou de tenente-coronel, ativos ou reformados – também publicam nestes meios. Uma vez tornados públicos, tais artigos levantam a questão: até que ponto seu conteúdo reflete a política oficial dos ministérios de Defesa ou de Relações Exteriores, em vez de ser apenas a opinião do autor?

Quando se trata da América Latina, a linguagem dos artigos varia e, ao mesmo tempo, oferece uma oportunidade de se discernir se o conteúdo reflete o pensamento e o debate militares atuais. Em agosto de 2019, a NVO publicou um artigo com opiniões de quatro oficiais superiores russos na ativa e reformados sobre a utilização da América Latina como uma contramedida ao fato de os Estados Unidos estarem abandonando o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário. Assinado em 1987, esse tratado levou à eliminação de milhares de mísseis norte-americanos e soviéticos, balísticos e de cruzeiro, nucleares e convencionais, lançados da terra. No artigo, um analista militar russo sugeriu que na hipótese de um possível cancelamento dos tratados de desarmamento nuclear, Moscou deveria aumentar sua presença perto das fronteiras dos Estados Unidos e desdobrar uma aviação estratégica para uma das ilhas venezuelanas no mar do Caribe.

Outro analista, uma autoridade sênior do governo russo, sugeriu que Moscou deveria negociar com a Venezuela sobre a colocação de mísseis, em alusão à Crise do Caribe (Cuba) de 1962, que “permitiu que os norte-americanos se acalmassem por um longo tempo. Se um sistema [de mísseis] fosse instalado na Venezuela, os EUA teriam um comportamento mais cauteloso”. Um outro analista militar disse que uma presença naval russa permanente ao largo da costa dos Estados Unidos enviaria uma mensagem poderosa, enquanto seu homólogo militar de mais alta patente sugeriu que uma resposta aos atos dos EUA deveria incluir a instalação de mísseis Kalibr russos em territórios dos países amigos da Rússia em toda a América Latina. O Kalibr faz parte da família de mísseis de cruzeiro aerotransportados lançados de embarcações de superfície ou submarinas, com um alcance de até 2.400 quilômetros. A Marinha da Rússia começou a usar os mísseis Kalibr nas suas frotas de superfície e submarinas.

Apenas para constar, essas declarações não eram oficiais dos ministérios de Defesa  ou de Relações Exteriores. Ao mesmo tempo, as propostas no artigo visavam não apenas os Estados Unidos, mas potencialmente enviavam uma forte mensagem à Colômbia e ao Brasil, duas nações com grandes forças armadas e cujos governos atualmente assumem uma posição contrária a Maduro. Não haveria defesa na Colômbia e no Brasil contra os mísseis russos de longo alcance instalados na Venezuela, a não ser que fosse efetuada uma cara corrida armamentista. Tal curso de eventos poderia ir de encontro aos recentes esforços oficiais russos, que buscam tentar o Brasil e a Colômbia com propostas econômicas, por meio de suas instituições militares. No entanto, as próprias declarações da Rússia, em fevereiro de 2020, de que aumentaria sua cooperação militar-industrial com Caracas, mantiveram em aberto a possibilidade de um conflito regional.

Armas russas

Quando os notórios especialistas civis russos expressam suas opiniões nas publicações militares, é possível que o conteúdo mostre pontos de vista similares aos dos oficiais militares mencionados em uma análise anterior do VPK. Em um artigo de abril de 2019 do VPK, Aleksandr Hramchihin, vice-diretor do Instituto de Análise Política e Militar da Rússia (PIR, em russo), discutiu as potenciais operações de combate entre a Venezuela e seus vizinhos pró-EUA: Brasil, Colômbia e Equador. Hramchihin é um dos especialistas em segurança mais reconhecidos na Rússia, e tem uma grande obra relativa à conduta de guerra russa.

De acordo com Hramchihin, o Exército da Venezuela é, indubitavelmente, o mais forte da América do Sul devido às compras massivas de armas da Rússia. As Forças Armadas Equatorianas são “pequenas e muito arcaicas” e o Exército da Colômbia, “mesmo com o seu grande contingente, está totalmente despreparado para uma guerra ‘clássica’ [convencional]”. A crítica de Hramchihin às Forças Armadas da Colômbia, considerando sua estreita cooperação com as iniciativas do Departamento de Defesa dos EUA, inclui a falta dos principais tanques de guerra e tanques leves – uma versão exclusivamente russa sobre a força militar do país, dada a própria e longa história de Moscou em combates com tanques. Hramchihin realmente reconhece o ambiente singular da América Latina: “Evidentemente, a maior parte da fronteira da Colômbia com a Venezuela e o Equador é de selva – e os tanques são inúteis ali. Entretanto, nas áreas costeiras, onde a maioria da população de todos os [três] países vive, é muito possível utilizar equipamentos pesados como tanques”. Hramchihin lembra que as Forças Armadas do Brasil são maiores do que as venezuelanas, “ainda que muito mais arcaicas – elas têm muitas centenas de tanques, mas eles são todos ‘sucatas’ da Europa e dos EUA”.

Em seu artigo, Hramchihin demonstra um certo desdém em relação às forças armadas da Colômbia, do Equador e do Brasil, principalmente porque ele considera que os equipamentos militares utilizados são obsoletos, em comparação com os da Venezuela. Por exemplo, ele menciona que enquanto a Força Aérea Brasileira tem mais aeronaves de combate, “[os aviões] são muito mais velhos e não poderiam romper a defesa aérea da Venezuela”. Ele diz que para a Venezuela pró-Rússia, há uma grande ameaça do sul, pois o novo governo brasileiro se tornou um ativo oponente do regime de Maduro. No mar, a superioridade do Brasil “parece enorme, mas não é significativa”. Ele observa que “a Força Aérea e a aviação naval dos EUA destruirão o Exército venezuelano pelo ar, e que a função dos colombianos e brasileiros seria o emprego de tropas de assalto terrestres”. Nessa versão do combate convencional, Caracas não duraria muito tempo, “mas a guerrilha na selva poderia se estender por muitos anos”.

A negativa de Hramchihin de avaliar devidamente a qualidade das forças armadas do Brasil, Colômbia e Equador pode refletir uma visão mais ampla das instituições de segurança da Rússia, que veem o potencial envolvimento dos EUA no combate regional como absolutamente decisivo, independentemente do poderio real das forças armadas regionais. No entanto, também pode ignorar os progressos importantes no profissionalismo que as forças armadas da Colômbia e do Brasil realizaram em treinamentos e equipamentos nas últimas décadas. Apesar da falta de determinadas armas que alguns analistas pró-Rússia podem considerar decisivas (como tanques), as Forças Armadas da Venezuela também vêm enfrentando continuamente o sentimento contra o governo no país. Por outro lado, as forças militares da Colômbia e do Brasil têm boas relações com seus cidadãos e governos, o que pode ser decisivo na eventualidade de um conflito.

Visitas estratégicas de bombardeiros e navios de guerra

O que fazer com essas declarações? Por um lado, essas publicações podem ter divulgado algumas antigas opiniões sobre as capacidades das forças armadas dos aliados dos EUA na região. Por outro, essas declarações do pessoal militar ativo transmitem, de fato, a política russa oficial na América Latina? Já houve ações russas demonstrativas na região, tais como as visitas estratégicas de bombardeiros e navios de guerra. Neste momento, a presença russa em países amigos como Cuba, Venezuela e Nicarágua ainda é relativamente pequena e restrita a poucos indivíduos. Uma opinião ou um artigo de opinião em uma publicação idônea poderia ser apenas isto – ou poderia ser uma mensagem pública real dirigida a uma audiência mais ampla na região.

No entanto, para começar, por que a Rússia deveria estar envolvida na América Latina? Embora seja provável que as nações pró-Rússia não tenham êxito ante um enfrentamento real contra os Estados Unidos e seus aliados, é essencial manter vínculos com os principais parceiros de Moscou, para evitar um “efeito dominó” de perdas geopolíticas na América Latina e em outros lugares. Em um artigo publicado em novembro de 2019 no VPK, um especialista russo em política exterior talvez tenha mostrado uma opinião relativamente generalizada sobre o aparato de segurança e política exterior da Rússia.

O autor perguntou o que aconteceria depois que o boliviano Evo Morales saísse para o exílio, e que país seria o “próximo da fila a sofrer um golpe [pós-boliviano, ‘instigado pelos EUA’]”. Segundo o autor, Washington atacaria a Venezuela, onde o povo, seguindo o exemplo da Bolívia e com o apoio dos militares, derrubaria Nicolás Maduro. A Nicarágua seria a próxima, depois Cuba, a não ter mais o petróleo venezuelano. O autor repete um ponto de vista agora comum na Rússia de que a “tecnologia do golpe” (melhor conhecida como conceito de revoluções de cores), usada pelos Estados Unidos na Venezuela e na Bolívia, também pode aplicar-se na Rússia. O autor ressalta que a principal questão na Bolívia e na Venezuela não são “revoluções coloridas”. “Trata-se de um [verdadeiro] golpe de estado, organizado através de um acordo com os grupos de elite. Não existe antídoto para isto atualmente.” Sua mensagem pode estar também potencialmente dirigida a outras nações da América Latina que não estão abertamente alinhadas a Moscou, sugerindo mudanças políticas, caso os países se afastem das políticas de Washington.

Artigos desse tipo em veículos idôneos russos podem refletir um ponto de vista mais amplo, ou ser uma reflexão de um único indivíduo. Independentemente disso, as instituições de defesa e segurança da Rússia continuam a discutir seu papel na região latino-americana, enquanto aumentam seu envolvimento na Venezuela e em outros países. Embora alguns pontos de vista expostos nas revistas militares russas possam ser relegados às margens do pensamento dominante, outras vozes podem, de fato, refletir a opinião dos reais tomadores de decisões, dirigida às nações de toda a América Latina que têm um papel importante na segurança e nas instituições militares da região. Tais discussões merecem atenção, dada a rápida evolução da presença russa na região.

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