Crime organizado aumenta tráfico de animais na Amazônia

A corrupção, como mecanismo para que as organizações criminosas contrabandeiem animais silvestres na Amazônia, está colocando em alerta as organizações ambientais e as autoridades de países da América Latina, para que fortaleçam as medidas de combate a essas práticas criminosas, informou em junho a plataforma de notícias sobre conservação Mongabay.

“O tráfico de animais silvestres ocupa o terceiro lugar no ranking do crime organizado global, atrás apenas de drogas e armas”, disse à Diálogo, em 23 de julho, Luis Somoza, especialista argentino em relações internacionais e questões de segurança. 

De acordo com Mongabay, os contrabandistas alteram uma ampla gama de documentos, de licenças de exportação até microchips, para dar às suas operações um véu de legalidade.

Há várias alegações de suborno em rotas de trânsito originadas no Brasil, inclusive de funcionários públicos responsáveis pela proteção da vida selvagem, acrescenta o relatório.

Uma onça-pintada descansa em uma rocha no BioParque Vale Amazônia, na reserva protegida da Floresta Nacional de Carajás, município de Parauapebas, estado do Pará, Brasil, em 16 de maio de 2023. (Foto: Mauro Pimentel/AFP)

“Nos últimos anos, gangues criminosas têm operado para comercializar ilegalmente animais silvestres da América Latina para o mundo”, disse Somoza. “Esse tipo de operação geralmente é feito para países asiáticos, especialmente a China.”

O relatório de maio A Lavagem da Vida Selvagem, da fundação brasileira Transparência Internacional Brasil, constatou que as organizações criminosas usam técnicas elaboradas de contrabando, incluindo fraude e corrupção de funcionários.

“É chocante ver como essas organizações criminosas estão estruturadas”, publicou em Mongabay Dário Cardoso, analista de tráfico de animais silvestres e coautor do relatório. “Há os suspeitos típicos que coletam, transportam e comercializam a vida selvagem, mas há também indivíduos especializados em falsificar e alterar documentos, o que dá a toda a operação um véu de legalidade.”

De acordo com um relatório da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, entre 2010 e 2020, pelo menos 65 espécies de animais selvagens foram traficadas por meio de transporte aéreo na América Latina, no Caribe e em 53 outros países do mundo. Essas espécies incluem aves, répteis, espécies marinhas e mamíferos, informou a revista colombiana Semana.

“O tráfico de animais silvestres é um problema que enfrentamos na região há séculos e a alta biodiversidade de nossos países nos expõe mais a esse risco”, disse à Semana Yovana Murillo, gerente do programa contra o tráfico de animais silvestres para as regiões dos Andes, Amazônia e Orinoco da ONG norte-americana Wildlife Conservation Society.

As organizações de traficantes precisam de muito dinheiro vivo para as operações de contrabando. “Temos visto muitos casos na Amazônia em que o narcotráfico financia o comércio ilegal de animais silvestres”, declarou a Mongabay Melina Risso, diretora de pesquisa do think tank brasileiro Instituto Igarapé, que se dedica à conservação ambiental.

O portal de notícias Peru 21 observou que a Amazônia peruana também é afetada pelas práticas de tráfico. Por exemplo, o mercado Belén, em Iquitos, que abastece uma população de 400.000 pessoas, é o maior e mais importante mercado aberto para a venda de vida selvagem na Amazônia do Peru.

De acordo com Peru 21, esse mercado é o epicentro do comércio ilegal de animais silvestres na região amazônica, onde mais de 200 espécies são traficadas, 9 por cento das quais estão em perigo de extinção e 35 por cento delas têm populações selvagens em declínio.

O comércio clandestino de vida selvagem deixa uma marca devastadora na rica diversidade biológica do Peru. De onças-pintadas a delicadas orquídeas, nenhuma espécie está a salvo do turbilhão do tráfico ilegal, alertou a agência de notícias peruana Andina.

Entre as vítimas mais frequentes estão a tartaruga aquática taricaya, a tartaruga terrestre motelo e a emblemática rã gigante do Lago Titicaca, todas presas para satisfazer o mercado de animais de estimação exóticos, detalhou a publicação.

“Temos que entender que a América Latina e o Caribe são duas áreas de biodiversidade e que esses grupos criminosos transnacionais estão se aproveitando dos recursos naturais”, ressaltou Somoza. “Há relatórios públicos de que a alta demanda chinesa, impulsionada pela medicina tradicional e por crenças infundadas, dá origem a uma extensa rede de grupos ilegais que operam na região, contrabandeando a vida selvagem para a China.

De 2012 até o início de 2018, mais de 800 onças-pintadas foram mortas por seus dentes, peles e crânios nas Américas Central e do Sul, para serem contrabandeadas para a China, informa National Geographic.

O Relatório Global sobre Crimes contra a Vida Selvagem 2024, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) mostra que, embora haja sinais positivos de que o tráfico de algumas espécies icônicas tenha diminuído, devido ao desmantelamento de grandes redes de tráfico e à supressão da demanda nos principais mercados, o quadro geral permanece sombrio para milhares de plantas e animais protegidos.

“Os crimes contra a fauna e a flora silvestres causam danos incalculáveis à natureza e também ameaçam os meios de subsistência, a saúde pública, a boa governança e a capacidade do nosso planeta de lutar contra as mudanças climáticas”, declarou Ghada Waly, diretora executiva do UNODC.

É essencial desenvolver estratégias de segurança transfronteiriça e cooperativa na Amazônia, pois os crimes ambientais não respeitam fronteiras, ressaltou Somoza.

“Devemos aumentar a colaboração policial e o intercâmbio de inteligência entre os países da região, para combater esse tipo de ação criminosa que prejudica a vida selvagem e as pessoas que vivem nas zonas amazônicas”, concluiu.

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