Trinidad e Tobago marcou um antes e um depois, quando se tornou o primeiro país do Caribe a declarar oficialmente o Tren de Aragua (TdA) como grupo terrorista. A decisão histórica, adotada em julho de 2025 e apoiada pela Lei Antiterrorismo e pelas resoluções do Conselho de Segurança da ONU, é considerada por muitos como uma necessária declaração de guerra contra uma ameaça regional desestabilizadora.
A resolução, proferida pelo Tribunal Superior e anunciada pela Procuradoria Geral, ordenou o congelamento imediato de todos os ativos do TdA. Prestar apoio logístico ou financeiro ao grupo é considerado agora um crime de terrorismo.
“Estamos comprometidos em proteger a segurança nacional e defender o estado de direito”, declarou a Procuradoria Geral, classificando a medida como um “marco decisivo” na luta contra o crime organizado transnacional.
“A designação do TdA como grupo terrorista reflete a realidade de sua expansão no Caribe. Mas, acima de tudo, tem um componente simbólico de firmeza diante de uma ameaça já presente”, afirmou Douglas Farah, especialista em crime organizado transnacional e presidente da IBI Consultants, em entrevista à Diálogo.
Uma mudança regional em construção
A medida de Trinidad e Tobago não é um fato isolado, mas parte de um crescente consenso hemisférico diante da ameaça do crime transnacional.
Durante a 55ª Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), um mês antes da resolução de Trinidad e Tobago, países como Peru, Argentina, Equador, Panamá, El Salvador, Paraguai e Estados Unidos propuseram uma declaração conjunta para classificar o TdA como organização terrorista. Embora a iniciativa ainda esteja em debate, ela reflete uma maior conscientização regional sobre a magnitude do problema e a urgência de uma resposta coordenada.
“A ação de alguns Estados é um avanço, mas não é suficiente”, ressaltou o internacionalista panamenho Euclides Tapia, em entrevista à Diálogo. Em sua opinião, todos os países, incluindo os do Caribe Oriental, especialmente vulneráveis pelo impacto da migração venezuelana, devem agir com urgência, para evitar que o grupo consolide sua presença na região.
“Já não se trata apenas de gangues locais, mas de redes criminosas complexas, que operam como verdadeiras multinacionais do crime”, alertou Tapia.
O êxodo venezuelano como veículo de infiltração
Originário da prisão venezuelana de Tocorón, o TdA evoluiu de gangue carcerária para rede criminosa transnacional, com presença em vários países da América Latina e do Caribe. Sua expansão foi impulsionada pelo colapso institucional na Venezuela e pelo êxodo maciço de migrantes, que serviu como veículo de infiltração, especialmente para Trinidad e Tobago, localizada a apenas 11 quilômetros da costa venezuelana.
A ameaça que o TdA representa está diretamente relacionada aos mais altos níveis do regime venezuelano. As principais organizações internacionais de segurança e vários governos regionais afirmam que o TdA é uma organização terrorista que recebe apoio material do Cartel dos Sóis, a estrutura criminosa liderada por Nicolás Maduro.
“Onde chegam os migrantes, o TdA também chega. Não é coincidência, faz parte da sua estratégia”, disse Tapia.
A ONG Transparência Venezuela tem relatado atividades do grupo no centro e no leste do país, desde 2017, onde colabora com gangues locais dedicadas ao tráfico de drogas, armas e pessoas. Inclusive, tem usado mulheres e crianças como escudos humanos para contornar controles de segurança e fortalecer suas redes de tráfico.
Um Estado sob assédio
A primeira-ministra de Trinidad e Tobago Kamla Persad-Bissessar descreveu a situação com crueza, ao afirmar que seu país vive há décadas sob a sombra da violência e do crime organizado. “Trinidad e Tobago tem sido assolada pelo sangue e pela violência nos últimos 20 anos. Devido ao tráfico de drogas, pessoas e armas, os países do Caribe, e particularmente Trinidad e Tobago, têm experimentado um aumento maciço da criminalidade transnacional”, disse em uma declaração em 23 de agosto.
Em 2024, o país registrou uma taxa de homicídios de 42 por cada 100.000 habitantes, uma das mais altas do hemisfério. Somente nos primeiros sete meses, foram registrados 350 assassinatos, em sua maioria relacionados a disputas entre gangues pelo controle territorial, informou o Trinidad and Tobago Newsday.
Apesar de dois estados de emergência decretados em 2025, os avanços de redes como o TdA representam um desafio estratégico para a nação caribenha. “Pequenos estados insulares como o nosso simplesmente não têm recursos financeiros e militares para enfrentar os cartéis de drogas”, afirmou Persad-Bissessar, em sua declaração de 23 de agosto.
O caso de Trinidad não é único. Nos últimos dois anos, países como Suriname, Barbados e Ilhas Turcas e Caicos experimentaram um aumento preocupante nas taxas de homicídios, em alguns casos duplicando os níveis anteriores, de acordo com dados da Agência de Implementação da Comunidade do Caribe para o Crime e a Segurança (IMPACS).
A ameaça não se limita ao TdA. Os governos caribenhos também reforçaram seus alertas de segurança contra o Cartel dos Sóis, associado a setores da cúpula militar e da liderança venezuelana. Vários governos do hemisfério, entre eles o da República Dominicana, designaram oficialmente o Cartel dos Sóis como organização terrorista. Na Guiana, as autoridades reforçaram a cooperação internacional, após detectarem a presença do Cartel dos Sóis, o que destaca a profunda infiltração das estruturas criminosas vinculadas a Maduro em toda a região.
“O Caribe se tornou um foco de violência sem precedentes”, alertou Tapia. À medida que a migração forçada se intensifica, muitas ilhas estão sendo absorvidas pelas rotas do crime organizado, expondo sua fragilidade institucional. “Embora alguns países ainda não tenham sentido fortemente o impacto do êxodo venezuelano, o crime transnacional já está minando as estruturas estatais na região”, afirmou.
Um desafio regional urgente
A porosidade das fronteiras e a capacidade institucional limitada dificultam os esforços para conter o avanço do crime organizado na América Latina e no Caribe. Essa situação levanta a necessidade urgente de uma estratégia regional coordenada e sustentada.
“O crime transnacional não respeita fronteiras. Enfrentá-lo exige uma resposta comum”, alertou Farah, que ressaltou que reconhecer a magnitude do problema é apenas o primeiro passo. “Não basta fazer declarações. É necessária uma cooperação real entre os países, não apenas da região, mas de toda a comunidade internacional. É fundamental contar com recursos compartilhados e mecanismos operacionais eficazes, para frear essas organizações”, afirmou.
Farah ressaltou que o que está em jogo não é apenas a segurança cidadã, mas também a estabilidade das instituições democráticas. Ele alertou que a presença de redes como o TdA está desestabilizando governos, enfraquecendo a governabilidade e colocando em risco a democracia na região.
“Estamos diante de uma séria ameaça à institucionalidade regional, que não pode ser ignorada”, concluiu.