Na América Latina, a influência da China se projeta cada vez mais por meio da Frente Unida, um sofisticado aparato político e cultural do Partido Comunista da China (PCC). Muitas vezes mal interpretado, esse aparato é responsável por consolidar a estratégia de soft power de Pequim no exterior. Sob a direção do Departamento de Trabalho da Frente Unida, subordinado a Xi Jinping, busca neutralizar os opositores, controlar a diáspora e reforçar os interesses estratégicos da China.
Na região, opera por meio de uma rede fluida de associações culturais, câmaras de comércio, centros de amizade e meios de comunicação. O objetivo é ganhar legitimidade entre as elites locais, promover os interesses de Pequim e moldar a opinião pública.
“Na prática, a Frente Unida aglutina centenas de organizações sob a influência do PCC, mas sem que isso implique necessariamente uma afiliação direta ou uma ligação formal ao mesmo”, explica à Diálogo Alonso E. Illueca, professor e pesquisador associado da Universidade Santa María La Antigua, no Panamá. Essa estratégia permite que o PCC expanda sua influência de maneira mais discreta, fazendo com que suas operações pareçam iniciativas autônomas e reforçando assim a eficácia do seu poder brando.
O poder da propaganda
Segundo Illueca, a Frente Unida aproveita a diáspora chinesa, cujos meios de comunicação são controlados para divulgar conteúdos alinhados com a narrativa do PCC. Por meio de vigilância e pressão, a Frente Unida garante que essas comunidades não se tornem espaços de dissidência em torno de temas sensíveis, como Taiwan, Tibete ou Falun Gong.
A Frente Unida investe grandes recursos em propaganda dirigida à diáspora. Ela organiza a cada dois anos o Fórum sobre a Mídia Global em Língua Chinesa, que reúne meios de comunicação chineses no exterior e controla o China News Service (CNS), a principal rede de mídia do PCC, com sede latino-americana no Brasil. Por meio do CNS, a Frente Unida colabora com a mídia local das comunidades chinesas, amplificando conteúdos favoráveis a Pequim.
Um relatório da empresa de segurança cibernética Nisos revelou que uma filial do CNS, Sinoing (também conhecida como Beijing Zhongxin Chinese Technology Development ou Beijing Zhongxin Chinese Media Service), desenvolveu 36 sites e aplicativos móveis para uma dezena de meios de comunicação da diáspora. Isso faz parte de uma rede global com presença significativa na América Latina, incluindo South America Overseas Chinese Press Network, com sede no Brasil. De acordo com Nisos, esses aplicativos são especialmente invasivos na coleta de dados pessoais.
O centro de estudos Australian Strategic Policy Institute (ASPI), com sede em Canberra, também ressalta que Sinoing gerencia pelo menos 26 contas de WeChat, como parte dessa rede, algumas delas no Brasil, seguidas por milhares de usuários. Este é um elemento crítico da estratégia da Frente Unida, uma vez que WeChat não é apenas um aplicativo de mensagens, mas uma fonte principal de notícias e um elo vital com a China continental para a diáspora. Essa dependência permite que o PCC estenda suas capacidades de censura e vigilância além de suas fronteiras, monitorando comunidades privadas e utilizando o conteúdo para treinar algoritmos de censura, inclusive para usuários que residem em nações democráticas. Conforme também relataram em 2021 vários serviços de inteligência ocidentais, por meio dessas ferramentas, o PCC exerce um controle capilar, chegando até mesmo a intimidar ativistas e dissidentes da diáspora.
Organizações da Frente Unida
O sistema da Frente Unida atua frequentemente por meio do financiamento ou cooptação de grupos de interesse. Em muitos casos, essas organizações, que incluem corporações comerciais, associações estudantis e de “amizade”, dedicam-se a atividades políticas destinadas a desviar críticas ao PCC ou neutralizar políticas consideradas hostis a Pequim. Essa dependência de grupos semiautônomos e pessoas influentes é uma tática fundamental, que ofusca as linhas entre os interesses privados e os objetivos do PCC.
A influência da Frente Unida se estende muito além da diáspora chinesa. Sua estratégia consiste em cultivar relações estreitas com políticos, líderes empresariais, acadêmicos e jornalistas latino-americanos, para gerar boa vontade e confiança a longo prazo. O objetivo é alinhar as políticas de um país com os interesses de Pequim, fomentando uma profunda rede de influência entre as elites locais.
“Essas organizações têm o objetivo de exercer poder brando por meio de programas de bolsas de estudo e diplomacia cultural, utilizando outras ferramentas, como o financiamento de visitas oficiais e programas de formação para jornalistas, acadêmicos, partidos políticos e servidores públicos”, diz Illueca. Entre os centros ligados à Frente Unida está, segundo ASPI, a Associação de Amizade com o Exterior de Hunan, que na América Latina mantém vínculos com associações locais de amizade, como a Associação de Amizade Colombo-China, na Colômbia, e a Associação de Amizade Equador-China, no Equador. Essas organizações, entre outras atividades, promovem encontros com políticos latino-americanos e representantes de setores estratégicos para o PCC.
Segundo Illueca, “as operações da Frente Unida concentram-se principalmente na arrecadação de fundos, bem como na incursão na política interna e no apoio a funcionários governamentais e candidatos a cargos de eleição popular, com o objetivo de alcançar altos níveis de incidência na formulação de políticas públicas”.
Um passo fundamental foi a nomeação, em 2023, de Yang Wanming como presidente da Associação de Amizade com o Exterior de Hunan. Ex-embaixador no Brasil, entre 2019 e 2022, e conhecido por seu papel na disseminação de desinformação nas redes sociais, Yang impulsionou a expansão da Frente Unida em toda a região.
O interesse tecnológico e econômico
A Frente Unida apoia a estratégia da China de promover interesses econômicos e adquirir tecnologia por meio da coordenação com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Na América Latina, setores como mineração e agricultura são prioritários, mas também o são as infraestruturas e a tecnologia.
O impulso de Pequim para acessar recursos estratégicos, como lítio e cobre, é fundamental para suas indústrias de fabricação de alta tecnologia e veículos elétricos. Ao mesmo tempo, garante produtos agrícolas, como soja e carne bovina, para garantir sua segurança alimentar.
O foco na infraestrutura é igualmente significativo, com investimentos em portos, ferrovias e autopistas projetadas para agilizar a exportação desses recursos. No setor tecnológico, empresas chinesas estão construindo redes 5G e sistemas de vigilância em toda a região. Tudo isso é demonstrado pelo recente acordo assinado no Brasil pela Universidade de Huaqiao, para criar um laboratório de gemas com a participação de investigadores chineses, um exemplo pequeno, mas revelador, de uma estratégia multissetorial muito mais ampla.
Paralelamente, o PCC cultiva grupos de interesse na região que, embora representem interesses privados, apoiam ativamente as políticas econômicas promovidas por Pequim. Um exemplo disso é o Conselho Empresarial China-Brasil (CEBC). Com sedes tanto no Brasil como na China, esta última sob a supervisão do Ministério do Comércio chinês, o CEBC faz parte do Conselho Chinês para a Promoção do Investimento Internacional e funciona como um canal estratégico para a implementação das políticas econômicas chinesas na região.
Para conter a expansão da Frente Unida na América Latina, segundo Illueca, é necessário proteger melhor a diáspora chinesa, considerada o “cavalo de Tróia” usado por Pequim para promover seus interesses. “Reconhecer mais direitos aos membros das diásporas chinesas se traduziria em menos exclusão e um menor espaço de incidência da Frente Unida”, conclui o especialista.


