Mulheres oficiais da Colômbia realizam curso de Estado-Maior

Mais de uma dúzia de mulheres militares colombianas se preparam para ser líderes, com visão estratégica e de nação.
Julieta Pelcastre/Diálogo | 20 março 2018

Capacitação e Desenvolvimento

As mulheres oficiais colombianas, que pela primeira vez fazem parte do curso misto de Estado-Maior, se formarão como líderes estratégicas em temas de segurança e defesa nacional. (Foto: Escola Superior de Guerra da Colômbia)

A Escola Superior de Guerra (ESDEGUE) das Forças Militares da Colômbia tem a oportunidade de contar pela primeira vez com um grupo de 14 oficiais de linha, todas mulheres, no Curso de Estado-Maior (CEM) de 2018. No futuro, elas poderão assumir diferentes cargos como membros do Estado-Maior e comandantes das unidades táticas militares.

“Nove oficiais femininas da Força Aérea Colombiana (FAC) e cinco da Marinha Nacional da Colômbia, que há 20 anos ingressaram nas escolas de formação para se prepararem como militares com especialidades de telecomunicações, logística e voo, fazem parte deste primeiro curso misto, como requisito para a ascensão ao posto de tenente-coronel ou capitão-de-fragata”, disse à Diálogo o General-de-Brigada do Exército Nacional da Colômbia Francisco Javier Cruz Ricci, diretor da ESDEGUE. “Este é um marco histórico.”

Durante um ano, as mulheres oficiais receberão formação integral junto com 378 militares homens da Marinha, do Exército e da FAC. As participantes foram convidadas para fortalecerem suas competências profissionais e tornarem-se líderes integrais, comandantes, administradoras, humanistas e membros do Estado-Maior, com uma visão conjunta da arte militar.

“Fazer parte deste primeiro curso misto é uma grande experiência”, comentou à Diálogo a Capitão-de-Corveta Marcela Ramírez Ramos, membro do Corpo Logístico da Marinha Nacional da Colômbia. “Recebemos boa aceitação não só do comando da escola mas também de nossos companheiros, que se dão conta de que nós chegamos até aqui porque realizamos uma carreira, desempenhamos cargos e atividades que nossas forças armadas exigem de nós.”

Plano rigoroso

O programa acadêmico militar do curso se concentra na natureza da guerra, em fundamentos de lógica estratégica, segurança e defesa nacional, estratégia militar geral, doutrina e operações de força, estratégia militar operacional, teoria jurídica aplicada, administração, processo político, política externa e geopolítica e segurança global e regional. As alunas participaram de seminários e projetos de pesquisa.

“As aspirantes selecionadas tiveram que suportar o rigor dos tempos de combate, de planejamento de operação e de apoio logístico, [igual ao de] um oficial de carreira do sexo masculino”, assinalou o Gen Bda  Cruz. “Essas mulheres têm condições para debater neste ambiente acadêmico. São oficiais que inclusive estão acima de alguns superiores.”

“Graças a Deus e à minha trajetória de 20 anos, em novembro de 2017, fui chamada a realizar os exames para fazer o curso de tenente-coronel”, disse à Diálogo a Major da FAC Liliana Vergara, primeira mulher piloto de combate da FAC. “Estes anos têm sido desafiadores, porém fazemos o curso para sermos líderes com uma visão mais ampla, de acordo com a situação do país.” 

Abrir portas

Pela primeira vez na história da Escola Superior de Guerra da Colômbia, um grupo de 14 mulheres oficiais das Forças Militares da Colômbia se preparam junto com 378 homens, no Curso de Estado-Maior de 2018. (Foto: Escola Superior de Guerra da Colômbia)

“Dentro das forças militares, nós, mulheres oficiais, nos tornamos um bom complemento, que permite que as instituições sejam bem-sucedidas. A contribuição é positiva porque aportamos um papel adicional ao que os homens faziam antes”, ressaltou a CC Ramírez. “O debate acadêmico e os pontos de vista que uma mulher apresenta ao ensino e em salas de aula são um grande benefício e uma contribuição adicional que os [oficiais] e os docentes veem de maneira espetacular”, acrescentou o Gen Bda Cruz.

Desde que as mulheres ingressaram nas forças armadas, abrem-se portas para as gerações seguintes, não só ganhando espaços no âmbito militar, mas também demonstrando ao mundo que possuem as mesmas capacidades que os homens. “É difícil ser uma mulher em todos os âmbitos, porque a Colômbia ainda é um país machista em sua grande maioria”, expressou a Maj Vergara. “Em muitos setores, como nos salários e nos cargos, não conseguimos alcançar essa igualdade de gênero.”

Hoje em dia, cerca de 110 mulheres se formam e se capacitam nos diferentes programas de estudo da ESDEGUE. A escola militar tem 57 convênios firmados em nível internacional e 42 em nível nacional, para fazer intercâmbio tanto de alunos como de docentes, em sua maioria mulheres. As Forças Militares da Colômbia já têm uma general-de-brigada especializada em temas de justiça e uma general diretora do Hospital Militar.

“É um caminho que pouco a pouco se abre com o trabalho que cada uma de nós realiza. Não podemos pretender que isso ocorra da noite para o dia porque é uma carreira que evolui passo a passo”, disse a CC Ramírez. “Na Marinha, contamos com mulheres em todas as funções, exceto nas do Corpo de Fuzileiros Navais; neste caso, estamos presentes apenas como apoio logístico.”

VICA e os planos

A ESDEGUE, fundada em 1909, se depara com um cenário volátil, incerto, complexo e ambíguo (VICA), buscando o processo dinâmico de ensino e profissionalização de líderes militares e estrategistas de segurança e defesa nacional. “Nós estamos diante de um cenário VICA em todos os âmbitos do poder. Estruturar líderes estratégicos com a capacidade de tomar decisões em um ambiente VICA é o maior desafio”, manifestou o Gen Bda  Cruz. “Devemos estar preparados para o que vier.”

“Uma mulher militar não pode perder sua essência como mulher; o mais importante é a sua força, a disciplina e a responsabilidade que deve encarar em cada cargo”, disse a CC Ramírez. “Com esse exemplo, ela pode motivar outras mulheres e contar com um companheiro, sem importar o sexo, que a apoie para cumprir a missão designada em qualquer cenário.”

A ESDEGUE tem dois planos imediatos para dois anos. O primeiro é o de credenciar o doutorado em segurança, defesa e desenvolvimento, previsto para fins de 2019. O segundo é o da virtualização da escola e de seus cursos, para oferecer uma maior abertura com a excelência normal do curso.

“Um fator fundamental e que necessita de maior força é a parte da internacionalização”, concluiu o Gen Bda Cruz. “No próximo ano, a ESDEGUE receberá oficiais da Coreia, Espanha e Itália.”

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