Uma mulher que vale por cinco: a trajetória da Sargento Yane Marques

Prata nos Jogos Mundiais Militares da Coreia 2015, bronze nos Jogos Olímpicos de Pequim 2012 e bicampeã nos Jogos Pan-Americanos, Yane Marques será a porta-bandeira do Time Brasil na Rio 2016. Desde 2009, é terceiro sargento do Exército Brasileiro, como parte do Programa Atletas de Alto Rendimento do Ministério da Defesa.
César Modesto/Diálogo | 4 agosto 2016

Relações Internacionais

Bandeira do Brasil portador Yane Marques leva a delegação durante a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, no dia 05 de agosto de 2016. (Foto: Leon NEAL/AFP)

"As qualidades que eu tenho e que me favorecem são inerentes ao atleta, mas podem ser potencializadas: dedicação, respeito, comprometimento, responsabilidade e objetivo. Afinal sem objetivo, treinar tanto para quê? Acho que são essas as qualidades que me fazem uma atleta com resultados, e minha meta é sempre fazer por merecer tantas coisas boas que têm acontecido na minha vida até hoje." O depoimento é da porta-bandeira do Time Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016, a pentatleta e Terceiro Sargento do Exército Brasileiro Yane Marques, de 32 anos.

Natural de Afogados da Ingazeira, Pernambuco, Yane foi eleita por 49 por cento dos 961.562 votos populares e deixou para trás os campeões olímpicos Serginho (40 por cento), do vôlei, e Robert Scheidt (11 por cento), da vela, para ser a segunda mulher brasileira a conduzir a bandeira durante uma abertura oficial das Olimpíadas. Em Sydney 2000, Sandra Pires, campeã olímpica do vôlei de praia quatro anos antes, conduziu a bandeira na festa de abertura.

“Foram algumas surpresas, primeiro a indicação, agora esse resultado. Carregar a bandeira é uma honra. Quero ser uma porta-bandeira muito alegre e porta-voz do sentimento de que os brasileiros, através do esporte, vão se unir”, disse Marques, em entrevista ao programa de TV Fantástico da Rede Globo.

A vocação para o esporte surgiu em outubro de 2003, quando tinha 19 anos de idade. Mas antes disso, praticou vôlei e até foi campeã brasileira de natação, aos 15 anos.

Após deixar sua cidade natal e mudar-se para a capital pernambucana, aos 11 anos, Marques frequentou a mesma piscina da nadadora brasileira e veterana olímpica Joanna Maranhão. Um dia, foi convidada para participar de uma competição de biatlo, que envolve natação e corrida.

Naquela época, o então Major do Exército Alexandre França, recém transferido e à procura de novos talentos para competir no pentatlo moderno, esporte que envolve cinco etapas: esgrima, natação, hipismo, tiro e corrida, fundava a Federação de Pentatlo do Recife e usou a competição de biatlo como seleção. Atualmente é tenentecoronel e até hoje é um dos treinadores de Marques.

A jovem atleta venceu a competição e foi apresentada ao esporte que mudaria sua vida. “Eu não tinha a menor ideia do que era [o pentatlo moderno]. Quando fui apresentada à modalidade, achei interessante e desafiadora. Topei de cara”, afirma Marques.

Com apenas um ano praticando o esporte, em 2004, Yane foi campeão brasileira de pentatlo moderno, e no ano seguinte recebeu o prêmio do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) de melhor atleta da modalidade, que este ano lidera com 140 pontos.

Uma carreira vitoriosa

Yane Marques será a porta-bandeira do Time Brasil na Rio 2016. Desde 2009, é terceiro sargento do Exército Brasileiro, como parte do Programa Atletas de Alto Rendimento do Ministério da Defesa. (Foto: AFP)

Com as conquistas nacionais e o reconhecimento do COB, Marques se dedicou totalmente ao esporte e se tornou uma das melhores atletas do mundo.

Conquistou o ouro nos Jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro, em 2007, cuja classificação garantiu vaga para os Jogos Olímpicos de Pequim em 2008, onde ficou em 18º lugar.

Em 2009, ingressou no Exército Brasileiro a convite dos seus treinadores para integrar a equipe que disputaria os Jogos Mundiais Militares, em 2011, no Rio de Janeiro, e conquistou uma medalha de ouro (equipes), uma de prata (individual) e uma de bronze (revezamento misto), ajudando o Brasil a conquistar o primeiro lugar geral do evento.

Ainda em 2011, a pernambucana foi prata nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, no México, alcançando a terceira colocação no ranking mundial da modalidade e garantindo vaga para os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, onde conquistou o bronze, tornando-se a primeira atleta latino-americana a subir no pódio do pentatlo moderno na história dos Jogos Olímpicos.

Entre os anos de 2013 e 2015, a terceiro sargento do Exército foi ouro nos Jogos Pan-Americanos de Toronto em 2015; ouro na Copa Kremlin, na Rússia; ouro nos Jogos Sul-Americanos, no Chile; ouro no Campeonato Pan-Americano na Cidade do México; prata nos Jogos Mundiais Militares da Coreia em 2015; prata no Campeonato Mundial, em Taiwan; e bronze no Torneio Campeão dos Campeões, no Qatar.

Nos Jogos Olímpicos Rio 2016, disputará as provas de esgrima, natação, hipismo, tiro e corrida entre os dias 18 e 20 de agosto.

Atualmente, Marques ocupa o 12º lugar geral no ranking mundial, ficou em 7º lugar na copa do mundo da modalidade e em 14º lugar na categoria olímpica.

Atleta militar de alto rendimento

Dos 473 atletas do Time Brasil durante os Jogos Olímpicos Rio 2016, Marques faz parte dos 145 atletas militares que participam do evento e que também se beneficiam do Programa Atletas de Alto Rendimento do Ministério da Defesa.

A rotina de treinamentos é frenética e por ser terceiro sargento usa as instalações do Centro de Capacitação Física do Exército, no Rio de Janeiro, e participa de competições militares representando o Exército Brasileiro.

Além de receber um soldo correspondente às suas patentes, os atletas que fazem parte do Programa Atletas de Alto Rendimento do Ministério da Defesa têm à disposição nutricionistas, fisioterapeutas, médicos, dentistas e treinadores das Forças Armadas.

Segundo Marques, sua admissão às Forças Armadas foi considerada tranquila devido principalmente às semelhanças de seus princípios com os princípios militares.

“Acho que os valores dos militares são muito próximos aos dos atletas, como o respeito, a responsabilidade, o comprometimento e a dedicação. Parece que a gente, enquanto militar, se sente representando mais o nosso país, se sente mais patriota”, destaca a sargento.

As principais cidades onde Yane treina são Recife, em Pernambuco, Curitiba, no Paraná, e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, mas também participa de campings, que são treinamentos realizados no exterior, em especial nos Estados Unidos, França e Itália, a fim de se aprimorar em modalidades pouco comuns no Brasil, como a esgrima.

As origens do pentatlo

O pentatlo é uma modalidade essencialmente militar e foi introduzida aos Jogos Olímpicos da Antiguidade, em 708 a.C.

De acordo com os registros históricos, na Grécia Antiga, os espartanos, povo de grande tradição militar, já usava o pentatlo para selecionar os seus melhores e mais versáteis soldados.

Logo após ser inserida nos jogos, rapidamente ganhou notoriedade devido ao seu aspecto guerreiro e o seu vencedor também era considerado o grande campeão, o vencedor de fato dos Jogos Olímpicos.

Após uma reformulação, a modalidade entrou na agenda olímpica dos Jogos da Era Moderna em Estocolmo em 1912, pelas mãos do sueco barão Pierre de Coubertin, que transformou o pentatlo em pentatlo moderno.

O novo formato, inclusive, simulava uma situação militar onde um soldado deveria levar uma mensagem cruzando as linhas de batalha inimigas montado em um cavalo e armado com um revólver e uma espada. O cavalo, depois de se ferir, obrigaria o soldado a concluir sua missão correndo e atravessando rios.

Nos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996, o pentatlo moderno sofreu uma nova alteração, passando a ser disputado em um único dia.

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