WIMCON 2018: Forças armadas precisam de mais mulheres em todas armas

Coordenada pelo SOUTHCOM e pela Colômbia, a terceira Conferência de Mulheres no Exército e na Segurança destacou a transição da igualdade de gênero para a gestão do talento humano.
Yolima Dussán/Diálogo | 21 dezembro 2018

Relações Internacionais

O Almirante de Esquadra da Marinha dos EUA Kurt W. Tidd (à esq.), em sua última participação como comandante do Comando Sul dos EUA na WIMCON 18, teceu comentários sobre a evolução da abertura das forças armadas para as mulheres durante seu comando. (Foto: Embaixada dos Estados Unidos na Colômbia)

Três temas ficaram claros na terceira Conferência de Mulheres no Exército e na Segurança (WIMCON, em inglês), realizada entre os dias 6 e 8 de novembro de 2018, em Bogotá, Colômbia. Em primeiro lugar, o aumento da participação feminina nas forças militares obedece às suas capacidades e não à sua condição de mulheres. Em segundo lugar, é o momento da gestão do talento humano para aproveitar ao máximo as capacidades de mulheres e homens e, em terceiro, são necessárias mais mulheres em todas as armas.

Representantes de 28 países participantes da WIMCON 18 tiveram um diálogo aberto sobre a formação de equipes mistas em todas as operações militares. (Foto: Yolima Dussán, Diálogo)

“Não abrimos as portas às mulheres para atender a uma agenda social, mas sim porque nos preocupa o êxito das nossas equipes, que serão mais efetivas se rompermos as barreiras para a entrada de quem tem as capacidades de que necessitamos; as mulheres as têm”, disse o Almirante de Esquadra da Marinha dos Estados Unidos Kurt W. Tidd, em uma das suas últimas participações como comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM). O Alte Esq Tidd foi enfático ao afirmar que as forças militares não podem excluir arbitrariamente o ingresso de pessoas que possuem alta possibilidade de liderança.

“Para nos destacarmos em operações militares excepcionais, devemos nos certificar de que todos tenham a oportunidade de mostrar seu caráter, sua competência e seu talento nas missões. Isso exige visibilidade, compromisso, disponibilidade e vontade para formar as melhores equipes. A história já nos mostrou que as forças armadas podem mudar para obter sucesso. As nações da nossa região são líderes na integração efetiva das mulheres em todas as instituições militares”, disse o Alte Esq Tidd. 

União de habilidades diferentes

Depois das conferências anteriores em Trinidad e Tobago (2016) e na Guatemala (2017), o evento realizado na Colômbia marcou um avanço significativo. A edição de 2018 convocou líderes das mais altas patentes e suboficiais seniores de diversas armas das forças armadas e de segurança de toda a região.

“Eu estive na primeira WIMCON e pude sentir o apreço das participantes por terem uma conferência própria. Ao mesmo tempo, percebi sua incerteza quanto às possibilidades reais de tornar essa inclusão cada vez maior”, disse à Diálogo a Contra-Almirante da Marinha dos EUA Martha Herb, diretora do Colégio Interamericano de Defesa, com sede em Washington, D.C.

“Sou mergulhadora em águas profundas, sempre fui uma mulher operacional e já na reserva desempenhei funções de grande importância. As atitudes dos homens para com o gênero feminino mudaram, apesar do preconceito inconsciente para tratar e julgar a mulher de forma diferente. Vivemos em uma época de transformações e as equipes mistas aumentam”, acrescentou a C Alte Herb.

Mudança em direção à gestão do talento humano

Representantes das forças armadas da Colômbia, da Guatemala e de Belize conversaram com Diálogo sobre o avanço da mulher militar graças às suas capacidades e destrezas, e não devido à sua condição de mulheres. (Foto: Yolima Dussán, Diálogo)

Além de definir os indicadores, avaliar o progresso e determinar as ferramentas para alcançar os objetivos, a finalidade da conferência foi evoluir no discurso. “Passamos da igualdade de gênero para um tema novo: a gestão do talento humano. A complexidade dos desafios que enfrentamos nos ensina que devemos explorar 100 por cento do talento da população para obter melhores forças, equipes mais efetivas e exércitos mais capacitados”, disse o Alte Esq Tidd.

Honduras, nação líder na região no avanço da mulher militar, concorda com a mudança de conceito. “Na América Central, fomos pioneiros no ingresso das cadetes na Academia Militar de Aviação. Agora estamos em todas as armas. Nosso avanço foi pautado na legalidade e não na igualdade”, garantiu à Diálogo a Coronel do Exército de Honduras Irma Baquedano Canales, diretora de Saúde das Forças Militares. “A igualdade é uma luta constante da mulher para ocupar cargos, mas nas forças armadas conseguimos os cargos a partir das oportunidades iguais para homens e mulheres, mediante o cumprimento de requisitos, e não por sermos mulheres.”

Com 19.000 membros em todas as forças militares, a participação feminina em Honduras é de quatro por cento, cifra que aumentará com a atualização dos regulamentos da estrutura militar. “Já são muitas as mulheres militares no corredor de promoção”, disse a Cel Baquedano. “O interesse do SOUTHCOM é a base dos programas de incorporação feminina na região. Seu apoio envolve a visão no futuro. A responsabilidade e a trajetória do Exército dos Estados Unidos gozam de muito respeito em todo o mundo. Sua abertura ocorreu porque viram a capacidade, a contribuição, o profissionalismo e a entrega das mulheres. Estas qualidades devem ser exploradas não como um favor ao sexo feminino, mas sim pela necessária incorporação de ambos os gêneros em todas as instituições militares e policiais.”

Destrezas para aproveitar

Os testemunhos das representantes dos 28 países participantes da WIMCON 18 têm em comum o avanço do processo de inclusão em suas forças. A Capitão de Fragata da Marinha de Guerra do Peru Ingrid Fernández Gauri, chefe de Imprensa e Imagem do Comando Conjunto das Forças Armadas, reconhece que o processo no seu país tem sido lento, porém decisivo. “No princípio, a convivência foi difícil, mas após 20 anos o resultado é satisfatório, ainda mais quando foi necessário modificar um universo estruturado para os homens”, disse à Diálogo. “Posso dar um exemplo: o uniforme que eu visto precisou ser modificado várias vezes, porque os alfaiates tinham moldes para os uniformes masculinos. Projetar para as mulheres era difícil para eles. Foi uma mudança estrutural enorme.”

Dez por cento dos 18.000 militares que integram as armas de terra, mar e ar na Guatemala são mulheres. A Capitão de Engenheiros do Exército da Guatemala Andrea Araujo disse à Diálogo que a abertura no seu país é total. “Estamos capacitadas para cumprir qualquer missão e falta pouco para alcançarmos todas as patentes e cargos. Está claro que nossos comandantes entenderam as vantagens das nossas habilidades: disciplina, concentração, exatidão, organização e sensibilidade. Incluir-nos é uma necessidade para que se alcancem melhores resultados.”

A Capitão-Tenente da Guarda Costeira de Belize Alma Marcelo Pinelo trouxe uma visão jovem. “As mulheres pensam diferente e isso se reflete nas operações militares. Nosso enfoque diferente daquele dos homens traz bons resultados e agora é valorizado”, disse à Diálogo.

A 2º Tenente da Força Aérea Colombiana Edna Avendaño Castiblanco, do Departamento Estratégico de Assuntos Jurídicos e Direitos Humanos, considera a mudança de conceito um avanço. “É uma questão de liderança; falamos de reconhecimento de capacidades e não de igualdade. O termo ‘gênero’ é agora empregado para se referir tanto aos homens quanto às mulheres e acelerará os processos”, disse à Diálogo.

As conclusões da WIMCON 18 foram resumidas nas reflexões do Alte Esq Tidd em sua despedida. “É a primeira vez em décadas que o setor da defesa fala sobre este tema para aprender como superar as barreiras. Trata-se de um processo sem volta. O SOUTHCOM tem consciência da efetividade das equipes onde há homens e mulheres. Não podemos prescindir desse grande talento. Caráter, competência, trabalho em equipe, isto é o que devemos fazer para cumprir todos os desafios de segurança do século XXI”, concluiu.

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