Destaque: Uma conversa com nossos líderes

WHINSEC pretende ser o melhor instituto para treinamento e educação em defesa e segurança nas Américas

O comandante do Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança pretende revolucionar a instituição com o apoio de sua Junta de Visitantes, do Comando Sul dos EUA e do Comando Norte dos EUA.
Marcos Ommati/Diálogo | 26 julho 2018

O Coronel do Exército dos EUA Robert F. Alvaro assumiu o comando do WHINSEC no dia 19 de julho de 2017. (Foto: Lee Rials, Relações Públicas do WHINSEC)

A Câmara dos Deputados e o Senado da Geórgia reconheceram oficialmente o dia 7 de fevereiro como Dia de Columbus, não em homenagem a Cristóvão Colombo(nome de Colombo nos EUA), mas à cidade oriental do estado norte-americano. “O objetivo é reconhecer e homenagear o estabelecimento de Fort Benning no centenário de sua criação”, disse a prefeita de Columbus, Teresa Tomlinson, em discurso no Capitólio da Geórgia, em Atlanta, no dia 7 de fevereiro de 2018.

Fort Benning é a sede do Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança (WHINSEC, em inglês), criado em janeiro de 2001. Após 17 anos aprimorando as capacidades de defesa e das forças de segurança nas Américas, o Coronel do Exército dos EUA Robert F. Alvaro, comandante do WHINSEC, acredita que chegou o momento de elevar a instituição ao próximo patamar. Para falar sobre isso e outros desafios, Diálogo conversou com o Cel Alvaro em seu gabinete no campus do WHINSEC. 

Diálogo: O dia 19 de julho de 2018 marca seu aniversário de um ano no comando do WHINSEC. Seus objetivos e metas continuam os mesmos?

Coronel do Exército dos EUA Robert F. Alvaro, comandante do WHINSEC: Chegar aqui após 18 anos atuando como oficial de ligação no exterior, ou trabalhar em diferentes países nas Américas me deu uma boa noção sobre o que estamos tentando realizar neste hemisfério. Primeiramente, eu estudei o ambiente. O que estamos fazendo? O que nossas partes interessadas em Washington D.C. – o Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) e o Comando Norte dos EUA (NORTHCOM) – querem de nós? E o que precisamos fazer para sermos relevantes, conhecidos e confiáveis nas Américas? Esses são os três pilares da nossa visão. Em cooperação com nossos líderes, nós criamos uma nova visão e uma nova direção para o futuro do WHINSEC, o que fará com que sejamos o melhor instituto de treinamento educacional nas Américas para segurança e defesa, de cadetes a coronéis. Este é o nosso objetivo principal. Para que isso seja possível, discutimos nossa visão com nossos diretores em novembro passado [2017], com o que eles concordaram e contribuíram. De agora em diante, trabalharemos para atingir este objetivo.

Diálogo: Por que o WHINSEC ainda é relevante? 

Cel Alvaro: Neste exato momento estamos realizando 15 cursos e desempenhamos muitas atividades nas Américas, como por exemplo os intercâmbios entre especialistas em assuntos específicos (SMEE, em inglês), que precisam todos ser relevantes para o país, bem como relevantes para as demandas de nossas partes interessadas em Washington D.C., no NORTHCOM, no SOUTHCOM etc. Se continuarmos a ministrar os mesmos cursos todos os anos, isso pode não atender às necessidades de nossas nações parceiras, então precisamos manter um diálogo constante com nossos parceiros para conhecermos suas demandas em capacidades de defesa e segurança, e nos atualizarmos para garantir a oferta de um currículo acadêmico que atenda tanto às demandas das partes interessadas quanto às necessidades das nações parceiras.

Diálogo: O senhor mencionou defesa, mas a instituição cita somente a segurança em seu título. Por quê?

Cel Alvaro: Esta é apenas uma convenção de nomenclatura, mas somos primordialmente defesa. No entanto, para deixar claro, trabalhamos com segurança e defesa, porque temos autoridade para treinar policiais e militares de todas as instituições, bem como civis que trabalham nos ministérios da Segurança e da Defesa em toda essa região. Entendemos que alguns países mantêm segurança e defesa separadamente, como o cone sul – que não gosta de misturá-las. Algumas nações, por necessidade, precisam trabalhar segurança e defesa juntas. Entretanto, entendemos essas sensibilidades e trabalhamos para ajudar as nações parceiras tanto em segurança como em defesa, ou em ambas. 

Diálogo: Qual é o grau de dificuldade para se lidar com um currículo tão vasto que inclui uma grande variedade de temas, tais como logística conjunta, interagências, temas legais, engenharia, inteligência, planejamento e direitos humanos?

 Cel Alvaro: Primeiramente, eu diria que não é difícil quando há grandes líderes para ajudar a formar o futuro do WHINSEC, em virtude do quadro de visitantes, que inclui os comandantes do SOUTHCOM e do NORTHCOM. Nossa supervisão é altamente eficiente, o que pode nos ajudar a traçar o futuro da instituição. Em segundo lugar, porque tenho grandes líderes das Américas selecionados criteriosamente por seus exércitos, ou seus ministros de Defesa, ministros da Segurança, designados ao WHINSEC. Eles são os principais candidatos de suas respectivas nações; são os futuros generais de seus países, portanto estou cercado por enormes talentos. Tenho assessoria dos melhores conselheiros que poderia haver, inclusive do Congresso. Nossa situação é muito privilegiada. O melhor instrutor de exército há dois anos era chileno, porque veio do WHINSEC. No ano passado, o melhor oficial instrutor do exército era salvadorenho, porque veio do WHINSEC. Este ano, o melhor educador do Exército dos EUA é brasileiro – também do WHINSEC. Assim, eu acho importante demonstrar que temos um bom programa de educação que leva nossos instrutores de nações parceiras a treinar na doutrina dos EUA – eles aprendem e passam então por um processo educacional onde treinam para ser instrutores no nível dos demais do Exército dos EUA, para que possam ser competitivos, e já vimos os resultados durante três anos consecutivos. É o tipo de talento que temos. Todos os nossos cursos são validados pelo Comando de Treinamento e Doutrina do Exército dos EUA, atendendo aos critérios de credenciamento. Não criamos nada aleatoriamente. Eles também são certificados pela ONU ou por nossas operações de manutenção da paz. Na verdade, tão logo finalizamos as inspeções, já nos deram um “sinal de positivo” verbal de que nossa certificação estaria válida pelos próximos três anos. Trabalhamos também com universidades como a Troy, a Emory e outras. Somos uma das três organizações do Exército dos EUA aptas a outorgar diplomas de mestrado. Assim sendo, não é tão difícil.

Diálogo: Aproximadamente 10 por cento do corpo discente do WHINSEC é formado por mulheres. O que vocês estão fazendo para melhorar a integração de gêneros na instituição?

Cel Alvaro: Muitas coisas. Nós obedecemos às leis de integração de gênero dos EUA; temos seminários sobre esse tópico. No último que realizamos, trouxemos mulheres que haviam participado de combates para falar sobre como desempenharam seu papel de combate como líderes no Afeganistão e no Iraque. Convidamos ainda mulheres das Américas para falar em nossos seminários. Temos realizado painéis acadêmicos abertos através de nossa mídia social para que nossos parceiros das Américas possam ver o que estamos fazendo no WHINSEC, com a participação de muitas mulheres. O último evento online que fizemos sobre mulheres em operações de paz e segurança foi visto por 6.000 pessoas. Por fim, encorajamos nossos parceiros a incluir mulheres quando trazem alunos e instrutores para o WHINSEC. Na verdade, se incluirmos os docentes e equipe, 25 por cento dos membros do WHINSEC são mulheres.

Diálogo: Por que é tão importante e relevante ter a academia de NCOs tão próxima?

Cel Alvaro: O WHINSEC tem quatro escolas e uma delas é a academia de NCOs, comandada por meu subtenente. Ela apoia diretamente os fundamentos do SOUTHCOM voltados para a profissionalização e o desenvolvimento do NCO. Esses quatro fundamentos se alinham basicamente para ajudar a profissionalizar as forças armadas nas Américas. Algumas delas são melhores que outras, mas todos nós podemos nos beneficiar da ajuda do melhor exército que o mundo tem no momento: o Exército dos EUA. Eles entendem que se beneficiam com nossa experiência. Uma das áreas onde a maioria dos exércitos das Américas pode obter alguma ajuda é no desenvolvimento de um corpo de NCOs, e estamos trabalhando com afinco para aumentar nossa capacidade de treinar subtenentes, suboficiais e sargentos. Estamos realizando eventos e seminários [na região] para ajudar a profissionalizar e temos parceria com o SOUTHCOM e outras unidades militares para aumentar nossa profissionalização de NCOs. Trata-se de um excelente programa. O curso básico para nossos novos sargentos (E4s e E54s, nos Estados Unidos) foi credenciado agora para militares do Exército americano. Assim sendo, um militar do Exército dos EUA pode agora frequentar uma escola regular do Exército americano ou ir para o WHINSEC. Se for para o WHINSEC, ele obterá o mesmo diploma que se tivesse ido para a escola do Exército. Não há nenhuma diferença. A única diferença é que aqui no WHINSEC existe um ambiente interagências multinacional que proporciona um grau de conhecimento e experiência a compartilhar com todos os NCOs nas Américas, e nós ministramos o curso em espanhol. Eles precisam aprender espanhol. É o idioma que oferecemos a nossos parceiros. Mas é o mesmo curso que ministramos a nossos próprios militares dos EUA.

Diálogo: O que o senhor diz aos opositores ou críticos que alegam que os oficiais e NCOs que chegam ao WHINSEC estão sendo doutrinados pelos militares dos EUA?

Cel Alvaro: Não sei, porque não tenho conhecimento de qualquer crítica. Todos os países que chegam aqui querem aprender com o melhor exército do mundo, o mais resiliente, capacitado para combate e experiente, pronto para se adaptar a qualquer terreno; assim é o Exército dos EUA. Não há outro no mundo que se compare à nossa experiência e somos também o exército mais treinado que existe, então para eles é muito importante estar aqui. Nunca ouvi falar de opositores. 

Diálogo: Estou falando de países que não mandam alunos para cá...

Cel Alvaro: Os países que não mandam alunos para cá são aqueles que não convidamos. Não os convidamos porque estamos tentando ajudar a profissionalizar as forças de segurança e defesa que se baseiam nos mesmos valores que partilhamos. Valores de princípios democráticos, direitos humanos e subordinação de autoridades militares e civis. Essos parceiros convidados ajudam a estabelecer um parâmetro de segurança e defesa onde os países podem progredir economicamente, mitigar a pobreza, mas um parâmetro é necessário para que o progresso aconteça. Ajudaremos apenas os países que compreendem esses valores e os compartilham conosco. Não compartilharemos nossas técnicas e doutrinas e não orientaremos militares que não compartilhem nossos valores, onde eles poderiam acabar por utilizar essas capacidades para subjugar seu próprio povo. Por isso eles não são convidados.

Diálogo: O que está faltando para que o senhor leve o WHINSEC ao próximo patamar? E qual é este próximo patamar?

Cel Alvaro: O próximo passo é transformá-lo no melhor instituto para treinamento e educação em defesa nas Américas. Esse é o objetivo que buscamos. Vamos concretizá-lo nos tornando conhecidos, relevantes e confiáveis. Quando se trata de ser conhecido, há uma série de coisas que podemos fazer para elevar o instituto ao próximo patamar, e cito como exemplo que temos nossa página na internet escondida debaixo da página do Ft. Benning, e somente em inglês. Recebemos recursos e autorização para ter nossa própria página, que publicaremos em inglês e espanhol, o que permitirá que os alunos ou qualquer pessoa interessada em aprender sobre o WHINSEC tenham uma página bilíngue melhor. Além disso, vamos transmitir nossos painéis acadêmicos, o que já estamos fazendo, ao vivo, em inglês e espanhol, nos dois canais. Dessa forma nossos parceiros nas Américas e nossas instituições acadêmicas irmãs poderão participar dos painéis para fazer perguntas aos panelistas, como fizemos para as mulheres em operações de paz e segurança.

Para sermos relevantes, trabalharemos com nossos parceiros para compreender suas necessidades e capacidades para que eles possam lidar com suas próprias ameaças e trabalhar em cooperação com os demais parceiros da região, para enfrentar as redes transnacionais e dar soluções regionais para os problemas regionais. O WHINSEC pode apoiar esse esforço em cooperação com nossos parceiros. Podemos também responder rapidamente à nossa Junta de Visitantes e àquilo que Washington D.C. quer que façamos a fim de promover o avanço dos interesses dos EUA. Assim sendo, há um equilíbrio entre o que a região necessita e o que nossas partes interessadas nos orientam a fazer para desenvolver um programa acadêmico que nos mantenha relevantes e faça com que o WHINSEC se transforme no que ele precisa ser. Uma das coisas que estamos transformando é a participação dos órgãos de segurança pública no WHINSEC. Nesse exato momento, cerca de 25 por cento de nossos alunos são agentes da lei, mas podemos melhorar. No entanto, isso não significa que perderemos nossa identidade como instituição militar. A maioria das ameaças nas Américas está sob a responsabilidade dos órgãos de segurança pública e da polícia. Eles são o principal esforço para solucionar as ameaças nas Américas. Tentamos dar respostas rápidas e relevantes ao esforço principal, trabalhando com o Departamento de Estado dos EUA e com as embaixadas para termos um programa que também beneficie as polícias das Américas. Vamos também trabalhar com os departamentos de Segurança Interna dos EUA, de Investigações de Segurança Interna e de Patrulha de Fronteiras para termos um programa que capacite aqueles que combatem as ameaças cotidianamente. É o que estamos fazendo para elevar o curso ao próximo patamar.

Quanto ao último pilar, o de sermos confiáveis, seremos mais transparentes do que nunca; nossas formaturas são transmitidas ao vivo, nosso pessoal pode de fato assistir aos nossos painéis e debates acadêmicos e nossas publicações estão sendo mais divulgadas. Assim, estamos tentando abrir um pouco mais as portas, mostrar mais transparência. Acredito que os opositores que mencionou, os quais eu ainda não vi, podem de fato ver o que estamos fazendo. Recebemos pessoas como adidos de Washington D.C., comandantes de exércitos, comandantes de forças armadas, por exemplo. Todos eles podem ver o que estamos fazendo e dar sua contribuição, dizendo em quais capacidades eles gostariam que o WHINSEC ajudasse. Temos muito trabalho pela frente, mas para que possamos seguir adiante, precisamos ter certeza de sermos conhecidos, relevantes e confiáveis. Muitas pessoas não sabem o que ou quem nós somos, ou que cursos oferecemos, então precisamos educar não apenas nossos parceiros, mas também a população daqui dos EUA para que atinjam os objetivos do governo americano. Muitas embaixadas não sabem ao certo o que oferecemos aqui. Se monitorarmos essas três coisas, sendo relevantes, confiáveis e conhecidos, acredito que poderemos levar o WHINSEC ao próximo patamar e atingir nosso objetivo de sermos o melhor instituto de treinamento educacional das Américas.

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