Suboficiais dos EUA e da América do Sul se reúnem em Buenos Aires para discutir desafios comuns

O Seminário de Suboficiais Superiores foi realizado no âmbito da Conferência Sul-Americana de Defesa 2018.
Eduardo Szklarz/Diálogo | 9 setembro 2018

Relações Internacionais

A Argentina foi a sede do Seminário de Suboficiais Superiores 2018, realizado no âmbito da Conferência Sul-Americana de Defesa 2018, entre os dias 27 e 29 de agosto, em Buenos Aires. (Foto: Eduardo Szklarz, Diálogo)

A Argentina foi a anfitriã do Seminário de Suboficiais Superiores 2018, que reuniu militares de onze países entre os dias 27 e 29 de agosto, em Buenos Aires. O evento foi realizado no âmbito da Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC) 2018, que aconteceu pela primeira vez na capital argentina, e cujo tema foi Contribuições Militares Sul-Americanas para a Paz Global. Ambas as iniciativas foram patrocinadas pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM).

Além dos coanfitriões – Estados Unidos e Argentina – participaram suboficiais do Brasil, do Chile, da Colômbia, do Equador, da Guiana, do Paraguai e do Peru. O Canadá e a Espanha estiveram presentes como observadores.

“Esse seminário é muito importante para fortalecer as relações entre as nossas nações. Ele também nos mostra o que os suboficiais podem fazer pelos seus respectivos países e suas forças armadas”, disse à Diálogo o Suboficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA Bryan Zickefoose, suboficial com a mais alta patente do SOUTHCOM. “Nós nos reunimos nas Américas e o evento cresce a cada edição. A Argentina é um dos nossos parceiros mais fortes, e o fato de ser a anfitriã deste ano fortalece o seminário ainda mais.”

O SO Zickefoose se mostrou satisfeito com a dinâmica das apresentações. “Foi uma experiência excelente. Os participantes se sentem muito à vontade para perguntar”, afirmou. “Todos querem aprender mais sobre a realidade dos outros países.”

Redes sociais

O Suboficial-Mor da Marinha da Argentina Enzo Cornacchini ressaltou o fato de o seminário ter sido realizado paralelamente à SOUTHDEC 2018, que reúne os oficiais dos países participantes. “A conferência existe há alguns anos, mas sempre se dedicou exclusivamente aos chefes de Estado-Maior Conjunto. A partir de 2017, quando foi sediada pelo Peru, pela primeira vez se abriu a oportunidade de uma agenda paralela para as graduações de suboficiais ou subtenentes de comando”, explicou o SO Cornacchini. “Essas discussões são positivas, porque sem dúvida todos nós temos problemas e desafios similares. É importante saber o que cada um de nós está fazendo para solucioná-los.”

Um dos desafios abordados foram as redes sociais. Os militares dos diversos países explicaram como eles lidam com as novas tecnologias. “Nossos jovens têm uma mentalidade muito diferente da nossa. Nós ingressamos [na força] há pelo menos 35 anos, quando para falar ao telefone tínhamos que ir até a esquina para usar um telefone público. Hoje qualquer jovem com um celular tira uma foto – e às vezes não tem noção do perigo que uma imagem inocente pode causar”, explicou o SO Cornacchini. “Uma pessoa que tira uma foto inocente posando perto de um barco pode estar revelando algumas características de uma unidade militar. Assim sendo, a ideia é tentar fazer com que os jovens entendam os riscos que pode implicar a publicação nas redes sociais de materiais sensíveis às forças armadas.” 

Operações de paz

No primeiro dia de exposições, os participantes falaram sobre as contribuições militares sul-americanas às operações de manutenção da paz. “Mostramos as instalações de que dispomos, o plantel dos nossos instrutores, como o treinamento para as missões de paz está estruturado e quais foram as missões mais importantes das quais já participamos”, disse o SO Cornacchini. “A Argentina tem muita experiência nesse campo. Hoje, por exemplo, temos pessoal destacado em Chipre e tivemos suboficiais trabalhando no processo de desarmamento das FARC [Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia], na Colômbia.”

O SO Zickefoose destacou as excelentes colaborações realizadas entre os países sul-americanos e a Organização das Nações Unidas. “Os suboficiais são importantes para ajudar a estruturar as operações de paz e ensinar aos demais militares. Eles são a base, a coluna das forças. Sem eles, é difícil desenvolver uma força militar profissional”, afirmou. “Com suboficiais como os que a Argentina possui, o país tem uma força militar profissional para ajudar a organizar as coisas e cooperar com os outros parceiros nas operações de paz.”

O Suboficial do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA Bryan Zickefoose (centro), suboficial superior do SOUTHCOM, e o Suboficial-Mor da Marinha da Argentina Enzo Cornacchini (dir.), foram coanfitriões do evento. (Foto: Eduardo Szklarz, Diálogo)

A agenda do segundo dia deu destaque especial às carreiras dos suboficiais nas academias da Argentina e dos Estados Unidos. “Aqui na Argentina, as três forças têm academias diferentes, com planos de estudo também distintos. Assim, mostramos como cada uma das três forças vê o tema da educação e os nossos projetos para melhorar o currículo e otimizar a educação militar”, disse o SO Cornacchini.

Suboficiais: a coluna vertebral das forças

O Subtenente Adjunto de Comando do Exército da Colômbia Argemiro Posso, suboficial com a mais alta patente do Comando Conjunto, destacou a importância que o SOUTHCOM dá ao desenvolvimento profissional dos suboficiais da América do Sul. “Isso nos permite fazer com que o nosso corpo de suboficiais entenda que precisamos educar-nos e capacitar-nos muito mais para podermos zelar pelo cumprimento da missão, sob a liderança dos nossos oficiais”, afirmou o S Ten Posso, lembrando que o seminário é um espaço para sensibilizar as nações parceiras quanto à formação profissional dos suboficiais.

“Na Colômbia, os suboficiais fazem parte da coluna vertebral da nossa instituição. Nós nos consideramos um corpo biológico: o cérebro são os nossos oficiais; nós somos a coluna vertebral; e nossos soldados são as extremidades superiores e inferiores”, explicou o S Ten Posso. “Sob a sua liderança, os nossos oficiais nos dizem o que desejam para que possamos, com nossos membros, cumprir a missão.” 

“Conjuntês”: a ação coordenada

O S Ten Posso acrescentou que a edição 2018 do seminário deixou muito clara a importância de integrar as forças para poder enfrentar as ameaças comuns e transnacionais. “O que eu ressalto é essa ‘conjuntês’, para que o Exército, a Marinha e a Força Aérea entendam que, se nos unirmos, poderemos ser bem-sucedidos no cumprimento das tarefas contra essas ameaças”, explicou.

Para ilustrar esse conceito, o S Ten Posso citou um exemplo muito claro que aprendeu com o Subtenente Adjunto de Comando do Exército dos EUA John W. Troxell, suboficial com a maior patente do Estado-Maior Conjunto do Exército dos EUA. “Ele dizia que é muito difícil lutar com um só dedo. Um dedo é o Exército. O outro dedo é a Marinha. O outro é a Força Aérea. O quarto dedo, em alguns países, é a Polícia ou a Guarda Nacional. Se juntarmos esses dedos já teremos um punho, e com o punho podemos atingir [a ameaça] com mais força”, afirmou. “Essa ‘conjuntês’ foi o que permitiu que fôssemos bem-sucedidos na Colômbia ao enfrentarmos as FARC. Entendemos que se integrarmos as nossas capacidades de maneira conjunta, sem perder a identidade de cada força, poderemos ser o punho da mão direita.”

Direitos humanos

O Suboficial-Mor da Força Aérea do Chile Sady Tarque Vega, suboficial da mais alta patente do Estado-Maior Conjunto do Chile, disse que o seminário mostrou os pontos de vista das diferentes forças armadas quanto aos direitos humanos. O evento também resgatou a discussão sobre o impacto que as técnicas de informática e comunicação (TIC) tiveram na segurança das operações militares. “Hoje tudo é informatizado: as TIC, as redes sociais, os ataques cibernéticos. Esse tema foi discutido aqui para que pudéssemos ver de que maneira poderíamos ter maior segurança”, disse à Diálogo o SO Vega.

“Nós também discutimos a respeito da liderança, da carreira militar técnica, da igualdade de gênero e do fortalecimento da cultura conjunta nos níveis mais baixos”, acrescentou o SO Vega. “O que isso significa: que a pessoa em formação já saiba que sua atuação imediata e minuciosa, seja na Marinha, no Exército ou na Força Aérea, convergirá para uma atuação conjunta, em nível nacional, e combinada, em nível internacional. Essa é a cultura conjunta.”

Já o Suboficial-Mor da Marinha do Brasil José Nascimento lembrou que a conferência foi um espaço para o intercâmbio de experiências sobre a liderança dos suboficiais. “Devido à sua experiência, o suboficial deve exercer a liderança pelo seu próprio exemplo. Ele deve desempenhar sua função com base naquilo que os oficiais determinam e dar o exemplo aos subalternos”, concluiu o SO Nascimento.

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