Estados Unidos certificam instituto da Força Aérea Brasileira

Representantes do Conselho Nacional de Aeronavegabilidade visitaram as instalações do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial, em 2017.
Taciana Moury/Diálogo | 10 maio 2018

Capacitação e Desenvolvimento

O IFI é o responsável, juntamente com a Agência Nacional de Aviação Civil brasileira, pelo processo de certificação da aeronave KC-390, novo cargueiro da Embraer. (Foto: Segundo-Sargento da FAB Bruno dos Santos Batista)

Em fevereiro, o Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI) da Força Aérea Brasileira (FAB) recebeu um importante reconhecimento da sua capacidade técnica: o Certificado de Reconhecimento de Autoridade de Aeronavegabilidade Militar. O título foi concedido pelo Conselho Nacional de Aeronavegabilidade (NAC, em inglês), órgão do governo norte-americano que reúne as autoridades técnicas das Forças Armadas dos Estados Unidos e atesta a atuação do IFI nas atividades de aeronavegabilidade continuada, inspeção, certificação e produção nas aeronaves militares sob sua competência.

Para o Coronel Aviador da FAB José Renato de Araújo Costa, diretor do IFI, o certificado é um indicador do nível de competência brasileiro em todas as fases do ciclo de vida de produtos aeroespaciais e de defesa. “Em termos práticos, facilita o intercâmbio de informações relativas aos produtos mutuamente operados, contribuindo para a garantia do desempenho, da segurança e da disponibilidade de nossas aeronaves”, reforçou o Cel Araújo.

O oficial explicou à Diálogo que o reconhecimento do NAC ratifica o prestígio do instituto como autoridade certificadora, facilitando a celebração de acordos de reciprocidade internacionais na área de certificação com outros institutos e organizações similares pelo mundo, bem como o surgimento de contratos ou acordos de cooperação entre a base industrial de defesa brasileira e forças armadas ou indústria de defesa estrangeiras. “As vantagens da certificação estendem-se não apenas aos comandos da Aeronáutica, do Exército e da Marinha, mas também a toda a indústria aeroespacial e de defesa [brasileira], uma vez que os certificados emitidos pelo instituto podem ser reconhecidos pelo NAC de modo mais célere. Isso beneficia a indústria nacional em eventuais aquisições e operações de produtos nacionais pelo mercado norte-americano”, explicou o Cel Araújo.

Critérios de avaliação

Para a avaliação do NAC foram consideradas as condições materiais e de recursos humanos disponíveis, o acervo documental e o arcabouço normativo, além da metodologia de inspeções de organizações de manutenção e supervisão de linhas de produção. Os critérios avaliados incluíram também o trabalho do IFI durante a certificação das frotas do Exército Brasileiro (EB), e da Marinha do Brasil (MB), com base no que é realizado para as aeronaves de asas rotativas EC-725 (H-36 Caracal) das três forças armadas.

O processo de certificação teve início em 2015 e levou em conta a análise de documentações técnico-administrativas e visitas técnicas nos dois países. O primeiro encontro aconteceu em 2016 nos Estados Unidos, quando uma equipe precursora do IFI realizou reuniões com os integrantes do NAC com o objetivo de iniciar o procedimento para o reconhecimento mútuo.

Em 2017, foi a vez de o NAC visitar as instalações do IFI. “Na oportunidade, um grupo técnico, altamente qualificado, verificou que o IFI, complementado pelas atividades de aeronavegabilidade continuada, sob a responsabilidade da Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico da FAB, possui processos, procedimentos, nível de expertise, capacidade e autoridade necessários para ser reconhecido como Autoridade de Aeronavegabilidade Militar”, contou o Cel Araújo.

Em julho de 2018, um corpo técnico do IFI vai aos Estados Unidos para conhecer a forma de trabalho do NAC. A visita tem como objetivo a auditoria de autoridades técnicas de aeronavegabilidade militar dos EUA para firmar o reconhecimento mútuo entre autoridades brasileiras e norte-americanas na área de certificação aeronáutica. Durante a visita, serão adotados os mesmos critérios utilizados pelo instituto americano no Brasil. “O foco principal estará nas atividades gerenciadas pelas autoridades técnicas: Direção de Engenharia da Aviação do Exército dos EUA, Comando de Sistemas Aeronáuticos Navais da Marinha dos EUA e Autoridade Técnica de Aeronavegabilidade da Força Aérea dos EUA”, explicou o Cel Araújo.

O IFI é o responsável, juntamente com a Agência Nacional de Aviação Civil brasileira, pelo processo de certificação da aeronave KC-390, novo cargueiro da Embraer. (Foto: Segundo-Sargento da FAB Bruno dos Santos Batista)

Trajetória de qualidade

Para o Cel Araujo, o certificado é resultado da trajetória do instituto desde sua criação, em 1971. O diretor destacou a importante contribuição do IFI para o desenvolvimento da base industrial de defesa nacional, a partir da certificação civil da aeronave Bandeirante da Embraer e de diversas outras ações que propiciaram o crescimento daquela empresa, com a incessante busca da segurança de voo das aeronaves que compõem a frota militar nacional.

“O IFI está subordinado ao Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial e está sediado em São José dos Campos, interior de São Paulo”, declarou a Agência Força Aérea. No Brasil, cabe ao instituto certificar as aeronaves de uso militar e à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) certificar as aeronaves de uso civil. O processo de certificação de uma aeronave de uso militar segue os mesmos princípios adotados pelas principais organizações certificadoras ao redor do mundo. A unidade conta com um efetivo de 280 pessoas, entre civis e militares. O IFI é responsável pela certificação de aeronaves utilizadas pela FAB, pelo EB e pela MB, como o helicóptero H-36 Caracal (EC-725), a aeronave de caça Gripen NG e o cargueiro KC-390, novo avião construído pela Embraer no Brasil.

KC 390: fase final de certificação

O Cel Araujo revelou que o processo de certificação do KC-390 segue a filosofia corrente na aviação militar mundial: tão civil quanto possível, tão militar quanto necessário. “Considerando-se que uma aeronave militar esteja em grande parte do tempo operando sobre áreas densamente povoadas e em aeródromos e espaços aéreos de uso compartilhado com a aviação civil, é factível que ela absorva ao máximo os conceitos de projeto, segurança e operação vigentes na aviação civil”, declarou.

De acordo com o oficial, a certificação civil da aeronave está avançada junto à ANAC, com a emissão do certificado provisório. Quanto à parte militar, em 2018 foram iniciadas as demonstrações e verificações do cumprimento de requisitos, baseados em análises e ensaios de laboratório e em solo. “Uma vez finalizadas, permitirão ao requerente apresentar as evidências do cumprimento de requisitos militares, a fim de fazer jus à obtenção do Certificado Militar pelo IFI”, disse.

Para o Cel Araujo, os maiores desafios na certificação do KC 390 tiveram início na composição das equipes por membros treinados e qualificados, dada a característica multidisciplinar e inovadora do projeto. “Foi necessário estruturar um processo de certificação que estivesse alinhado com as melhores práticas existentes no mundo, como a utilização do conceito de ‘organização de projeto credenciada’ junto ao requerente e a utilização ao máximo de conceitos da certificação civil”, afirmou.

O trabalho realizado pelo IFI é reconhecido também pela Coordenação Geral de Acreditação do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, signatária do Acordo de Reconhecimento Multilateral do Fórum Internacional para a Acreditação. O Instituto mantém ainda acordos, convênios e memorandos de entendimento com diversos países, como a Suécia, o Canadá, a França e a Espanha.

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