Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Exércitos do Chile e dos EUA trabalham em conjunto em projetos científicos

O General-de-Brigada Hernán Araya Santis fala de seus desafios como diretor de Projetos e Pesquisa do Exército do Chile, além dos projetos conjuntos entre seu país e os Estados Unidos.
Marcos Ommati/Diálogo | 8 maio 2017

O General-de-Brigada Hernán Araya Santis é o diretor de Projetos e Pesquisa do Exército do Chile. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

O General-de-Brigada Hernán Araya Santis está em seu terceiro ano como diretor de Projetos e Pesquisa do Exército do Chile. Talvez a razão se deva a seus antecedentes acadêmicos. O Gen Brig Araya tem licenciatura em Ciências da Engenharia Militar da Academia Politécnica Militar, é mestre em Sistemas de Armas e Veículos da Universidade de Cranfield do Reino Unido e mestre em Ciências Militares com menção em preparação, avaliação e gestão de projetos privados, sociais e de defesa da Academia Politécnica Militar do Exército do Chile. A Diálogo visitou o Gen Brig Araya em seu escritório em Santiago para falar dos atuais e futuros projetos em desenvolvimento, em particular os desenvolvidos entre o Exército do Chile e o Comando de Engenharia, Desenvolvimento e Pesquisa (RDECOM, por sua sigla em inglês) do Exército dos Estados Unidos.

Diálogo: Qual é a principal função da Direção de Projetos e Pesquisa do Exército do Chile?

General-de-Brigada Hernán Araya Santis: A Direção de Projetos e Pesquisa é uma organização dentro do Estado-Maior Geral do Exército, cuja função principal é a de assessorar o comandante-em-chefe através do chefe do Estado-Maior Geral do Exército, em duas áreas principais: a implementação de capacidades militares por meio de projetos e, a segunda, a coordenação da pesquisa e do desenvolvimento aplicados a novas capacidades militares a serem incorporadas à Força Terrestre.

Diálogo: Qual é seu principal desafio como diretor de Projetos e Pesquisa do Exército do Chile?

Gen Brig Araya: Basicamente, é um desafio de planejamento e de coordenação para que os órgãos executivos desempenhem as funções específicas. Por exemplo, nesta organização se dirige todo o planejamento para implementar uma capacidade militar, um sistema de armas no Exército. Existe outro órgão que executa a entrada desse sistema no Exército, ou seja, o projeto é formulado neste órgão e implementado em outro. O mesmo acontece em relação à área de pesquisa: nesse órgão são geradas as diretrizes, dadas as normas e as coordenações para que os centros de pesquisa, que não dependem desta direção, executem os estudos ou as pesquisas que interessam ao Exército para contribuir para algum sistema específico, que está presente, ou que se esteja buscando implementar no Exército.

Diálogo: O senhor poderia citar alguns projetos em desenvolvimento neste momento?

Gen Brig Araya: Há vários projetos. Em geral, são projetos de comunicações, comando e controle e guerra eletrônica; outros projetos são de equipamentos dos soldados, equipamentos para instalações de saúde, centros clínicos e também hospitais de campanha modulares que são montados no campo. Basicamente, estamos trabalhando nisso hoje em dia nesta Direção de Projetos e Pesquisas, no planejamento de projetos que, em um futuro próximo, devem se concretizar. Estamos também trabalhando para implementar na Força Terrestre alvos para tiro virtual e também alvos para tiro de combate em centros de treinamento. Além disso, há algumas outras iniciativas que se referem à infraestrutura, construção de quartéis militares em zonas isoladas do território, principalmente na zona sul austral do nosso país.

O Gen Brig Araya (à esq.) reuniu-se, em março, com o General-de-Brigada Anthony Potts, subcomandante do RDECOM do Exército dos Estados Unidos, para discutir projetos conjuntos. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

Diálogo: Vocês têm algum contato com outros exércitos da região para desenvolver projetos de maneira conjunta?

Gen Brig Araya: Em termos de compartilhar instalações, compartilhar conhecimentos ou experiência de uso, temos muito contato com a Argentina por meio de uma força standby para as Nações Unidas, chamada Cruz del Sur, que é uma força de nível de brigada conjunta combinada, na qual há capacidades que são compartilhadas entre os dois exércitos.

Diálogo: E com os Estados Unidos?

Gen Brig Araya: Eu diria que é um dos países com o qual há maior intercâmbio em pesquisa, capacitação e treinamento, incluindo na área da saúde. Por exemplo, nos últimos anos, o Comando Sul veio dar cursos sobre trauma para o nível de enfermeiros de combate e médicos. Há muita assistência e suporte por parte do Comando Sul para o Chile na área da saúde. Esse treinamento é realizado na Escola dos Serviços, onde se formam os enfermeiros de combate no Exército do Chile e onde esperamos progredir na área de simulação para treinamento médico, com o RDECOM do Exército dos Estados Unidos.

Diálogo: As Forças Armadas do Chile estão muito envolvidas com a ajuda humanitária, principalmente quando ocorre um desastre no país, inclusive em países vizinhos. Vocês estão desenvolvendo algo nessa área, principalmente porque sofreram muito nestes últimos anos, com terremotos, tsunamis...?

Gen Brig Araya: Sim. Todos sabem que o Chile é um país que está sujeito aos rigores da natureza desde sempre e eu diria que em todas as áreas. No Chile, temos todo tipo de desastres naturais: tremores de terra, deslizamentos, neve, inundações, avalanches, incêndios - como os que tivemos agora em janeiro e fevereiro no país - tsunamis, entre outros. A verdade é que temos de tudo e, efetivamente, o Exército, como uma instituição permanente da República e dependente do Ministério da Defesa, sai em ajuda da população, de seus compatriotas, cooperando quando se declara uma emergência e também em algumas etapas posteriores. O Exército conta com a capacidade de dar apoio em caso de emergências e/ou catástrofe por meio das Unidades de Armas Combinadas, que estão distribuídas ao longo do Chile. Por exemplo, existem postos de assistência sanitária, que são implantados com meios da unidade, com pessoal, médicos, enfermeiros e todos os seus elementos de assistência. Nossos sistemas funcionam de forma polivalente, atendendo à força militar, em sua zona de emprego, e também à população civil, em caso de emergência. Trabalha-se em estreita coordenação com o Ministério da Saúde para prever e preparar os meios antes que ocorram os desastres. Trabalha-se também em estreito contato com o Escritório Nacional de Emergência, que é o organismo do Estado que dirige e coordena todos os órgãos relacionados quando é preciso enfrentar uma catástrofe; trabalha-se nisso de forma permanente, com coordenações, treinamento, apoio na tomada de decisões e, posteriormente, no emprego desses meios. Com relação a isso, em temas de ajuda humanitária, o Exército está preparando sistemas de engenheiros e de saúde, tal como anunciou a presidente da República no fórum das Nações Unidas, há um ano e meio, para serem utilizados sob o comando das Nações Unidas na África. Ainda não está decidido o lugar específico e a data, mas possivelmente será depois do ano 2018, como parte da contribuição que o país faz para a segurança mundial, por meio das Nações Unidas.

Diálogo: A Direção de Projetos e Pesquisas é exclusiva do Exército ou as outras armas também possuem algo similar?

Gen Brig Araya: Cada instituição da defesa possui uma organização que dirige a implementação de capacidades navais ou aéreas, como é o caso da Marinha e da Força Aérea. Não são exatamente iguais, porém são similares, preocupando-se com os estudos para implementar novas capacidades. Por outro lado, na área específica de estudos de pesquisa, para apoiar a implementação de capacidades, em relação aos Estados Unidos, as Forças Armadas contam com um intercâmbio permanente de informações. Vemos isso no nível conjunto durante as reuniões periódicas do Subcomitê de Ciência e Tecnologia, organismo que funciona ao amparo das reuniões bilaterais no nível de defesa, entre o Departamento de Defesa norte-americano e o Ministério de Defesa Nacional do Chile. Tanto nesse subcomitê como em nível institucional, o Exército do Chile se relaciona com seu homólogo norte-americano, especificamente com o RDECOM do Exército norteamericano. Temos trabalhado em várias áreas, com maior ênfase nos últimos quatro ou cinco anos e com perspectivas muito boas para o futuro próximo. Isso acontece porque os dois países, os Estados Unidos e o Chile, estabeleceram acordos que permitem que essas boas intenções sejam concretizadas. Já faz mais de 10 anos que há acordos entre o Departamento de Defesa norte-americano e o Ministério de Defesa Nacional do Chile, como o acordo para o intercâmbio de engenheiros e cientistas entre os dois países, conhecido como ESEP. Nessa área, o Exército do Chile é que gerou maior intercâmbio com seu homólogo norte-americano. De fato, recebemos até agora cinco profissionais do Exército dos Estados Unidos. Foram trabalhar no RDECOM, até o momento, três engenheiros politécnicos militares, em três centros de pesquisa: ARL, CERDEC e ATSD. Estamos prontos para enviar o quarto neste ano de 2017, idealmente ao TARDEC. Existe também um Acordo Principal que permite o intercâmbio de informações entre centros de pesquisa e desenvolvimento. Até agora, o Exército já implementou dois acordos de intercâmbio de informações e outros dois anexos estão em revisão. Finalmente e há pouco tempo, o Chile estabeleceu o acordo mais importante no âmbito da defesa, o acordo de Pesquisa, Desenvolvimento, Provas e Avaliação, firmado em outubro de 2016 pelo secretário de Defesa norte-americano e o ministro de Defesa Nacional chileno. Este acordo transcendental permitirá gerar não só intercâmbios de informações em áreas específicas, mas também permitirá que as conversas que se iniciaram em alguma área passem ao nível seguinte, que é o de criar projetos de pesquisa conjuntos que permitam realizar desenvolvimentos em uma determinada área entre os dois exércitos, como potencializar a área da simulação médica, simulação de construção e sistemas de treinamento virtual, entre outros.

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