Destaque: Uma conversa com nossos líderes

Confiança entre parceiros é chave para desenvolver esforços regionais conjuntos

A Força do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA Sul trabalha com seus parceiros da América Latina e do Caribe para criar confiança e combinar esforços para garantir a segurança regional.
Claudia Sánchez-Bustamante, Diálogo | 29 maio 2018

O Contra-Almirante do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA David G. Bellon, comandante da Força do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA Sul, fala sobre o grande potencial dos povos da América Latina e do Caribe. (Foto: Claudia Sánchez-Bustamante, Diálogo)

O Contra-Almirante David G. Bellon, comandante da Força do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, Sul (MARFORSOUTH, em inglês), desde maio de 2017, estreitou os laços de amizade com as marinhas e os corpos de fuzileiros navais das nações parceiras da América Latina e do Caribe. Diálogo conversou com o comandante durante sua preparação para supervisionar o destacamento da Força-Tarefa Terra-Mar-Ar para Fins Específicos de 2018, para fornecer assistência humanitária, resposta a desastres e apoio de engenharia à América Central, à Colômbia e ao Caribe.

Diálogo: Qual é o foco principal do MARFORSOUTH na América Latina e no Caribe em 2018?

Contra-Almirante David G. Bellon, comandante do MARFORSOUTH: Temos dois focos prioritários, e eu diria que temos um trabalho diário e uma responsabilidade de resposta a crises. Para as tarefas de resposta a crises, damos apoio durante um semestre a uma força, a pedido do comandante combatente [Almirante-de-Esquadra da Marinha dos EUA Kurt W. Tidd, comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM)], chamada Força-Tarefa Terra-Mar-Ar para Fins Específicos (SPMAGTF, em inglês). Como fuzileiros navais, nós organizamos a tarefa para cada trabalho e nossa filosofia é a de autodeslocamento. Temos tudo o que é necessário para realizar o trabalho que nos foi designado. Fomos organizados como uma Força-Tarefa Terra-Mar-Ar com fins específicos. No SOUTHCOM, temos uma SPMAGTF que foi projetada, treinada e equipada para responder a crises, oferecendo assistência humanitária e ajuda em desastres. É para os povos da região, nossos parceiros e amigos, que temos uma força preparada e pronta para aliviar o sofrimento humano na eventualidade de um desastre natural ou de um desastre humano, seja ele um furacão ou um terremoto, ou alguma outra coisa. Estamos preparados e prontos para partir durante seis meses do ano, especialmente durante a temporada de furacões. Essa força é enviada para Soto Cano, em Honduras, mas está distribuída por toda a América Central, a Colômbia e o Caribe. Os membros da força também têm um trabalho diário, portanto, quando não estão operando em resposta a crises, eles trabalham com nossos parceiros, ouvindo suas necessidades dentro de suas próprias forças, para ajudar a criar suas capacitações e para que possamos contribuir para as condições e estabelecer o estado de direito.

Diálogo: Os fins específicos mudam ou são sempre focados em esforços de assistência humanitária e ajuda em desastres?

C Alte Bellon: Quanto ao elemento de resposta a crises, estamos organizados primeiramente para fornecer assistência humanitária e resposta a desastres. Mas pode haver outras missões designadas para nós, nunca se sabe. Os membros da força têm um conjunto de habilidades bastante amplo, mas são na verdade treinados para assistência humanitária.

Diálogo: Qual é a sua maior preocupação em termos de segurança regional na América Central, na América do Sul e no Caribe?

C Alte Bellon: A segurança regional se resume verdadeiramente no estado de direito. O foco não é tão grande em drogas, mas, usando as drogas como exemplo, a maioria das pessoas nos Estados Unidos percebem problemas como uma rota em direção ao norte, o que significa que as drogas, pessoas e coisas ruins vêm para o norte em direção aos Estados Unidos. O que eles não entendem é que o subproduto desse fluxo para o norte é um monte de armas e dinheiro que vão em direção ao sul. Isso é fomentado pelo crime organizado transregional. O fluxo de dinheiro e essas redes criminosas organizadas dificultam sobremaneira o estabelecimento do estado de direito dos nossos parceiros. É o que impede que o hemisfério avance, sendo a principal ameaça aos nossos amigos e parceiros na região.

Diálogo: Qual é a importância da colaboração regional conjunta entre as nações parceiras para alcançar a segurança na região? Quais são as estratégias regionais conjuntas atuais para atingi-la?

C Alte Bellon: Desde a perspectiva do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, investimos na América Latina e no Caribe por décadas, e com isso quero dizer que temos criado parcerias muito próximas com os fuzileiros navais colombianos, chilenos, brasileiros e peruanos, e todos eles evoluíram e se tornaram forças do primeiro mundo, primordiais, muito capazes e profissionais. No momento presente, estamos vendo que eles assumem papéis significativos de liderança regional. Tanto o Chile como a Colômbia destacam equipes de treinamento para a América Central conosco. O México está preparado e pronto para assumir um papel de liderança regional, treinando e destacando forças. No momento presente da nossa história, essa é a ocasião para ser colaborativo, compartilhar a responsabilidade e a liderança, para que escutemos uns aos outros e ofereçamos as melhores condições possíveis para que nossos parceiros sejam capazes de estabelecer o estado de direito e seguir adiante.

Diálogo: Quais são as estratégias conjuntas atuais para atingir esse objetivo?

C Alte Bellon: Do mesmo modo que reconhecemos as óbvias posições de liderança do Chile, da Colômbia e do México, nesse verão [boreal de 2018] será a primeira vez que oferecemos compartilhar o comando da SPMAGTF com esses países. A Colômbia, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais colombiano, será o subcomandante da SPMAGTF pela primeira vez. O Chile terá um oficial, pelo menos um, participando neste verão com a Força-Tarefa Terra-Mar-Ar (MAGTF, em inglês), e esperamos que o México participe também. É um primeiro passo histórico e um reconhecimento pelo profissionalismo das suas forças. Sabemos que somos melhores trabalhando com eles.

Também é importante mencionar que a Marinha do Brasil está assumindo um papel de liderança observando como UNITAS, um dos exercícios mais antigos da Marinha dos EUA, está mudando o paradigma. Eles superaram o modelo tradicional de treinamento dos últimos 60 anos, durante os quais nos reunimos a cada dois anos. Essas marinhas e esses fuzileiros navais avançaram a tal estágio que estão prontos para serem operacionais. Nós fomos ao Brasil para aproveitar uma oportunidade e criar uma força capaz de fornecer assistência aos nossos amigos na região. O Brasil está liderando a iniciativa de um exercício teórico no qual não há tropas, mas estamos trabalhando juntos nos cenários. Eles estão buscando potencialmente converter o UNITAS Anfíbio em 2019 de uma força de exercício para uma força que é projetada e que está pronta e preparada para fornecer assistência no evento de outra ocorrência de furacão no Caribe, por exemplo. Essa é uma mudança radical para a qual o Brasil está assumindo um papel histórico de liderança na nossa região, assim como o Chile, a Colômbia, o México e o Peru já estão fazendo.

Diálogo: Como eventos, tais como a Conferência dos Líderes de Fuzileiros Navais das Américas 2018, ajudam a fortalecer nossos laços e beneficiar a colaboração entre o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA e do México com nossas nações parceiras da região?

C Alte Bellon: Primeiramente, os líderes se reúnem para algo mais do que uma simples reunião. Com isto quero dizer que os líderes ficam juntos vários dias durante as viagens e com isso as relações pessoais crescem de verdade. Essas relações entre líderes são essenciais porque fomentam uma atmosfera de honestidade. Quando se pode falar honestamente e expressar as equidades de cada país e do seu povo, também pode-se ver onde elas coincidem para trabalharmos juntos. Por sorte, temos muito mais coincidências do que diferenças. Quando podemos passar tempo suficiente para estabelecer relações pessoais e reconhecer a confiança e os interesses comuns de nossos povos, podemos encontrar soluções reais. Isso fica mais difícil quando são feitas visitas de um só dia aqui e ali, porque não estamos todos juntos. Essa é uma oportunidade para os líderes se reunirem a cada dois anos para discutir. “É assim que vejo a região. Esses são os interesses do meu povo. Estou ouvindo os interesses do seu povo e como você vê a região, para podermos juntos discutir sobre o que fazer conjuntamente.” O Brasil está se destacando e assumindo um papel de liderança com o UNITAS. A Colômbia, o Chile e o México estão se destacando e assumindo um papel de liderança na América Central. Esses são os subprodutos da confiança que flui entre esses países.

Diálogo: Foram feitos acordos significativos na Conferência dos Líderes de Fuzileiros Navais (MLAC, em inglês) em 2018?

C Alte Bellon: Sim, em geral, temos grandes reuniões onde estamos todos juntos, e também há pequenas reuniões paralelas, bilaterais e trilaterais, onde se discutem assuntos específicos. Nelas o México, por exemplo, pode vir e dizer: “Queremos ter um papel mais importante como treinadores regionais. Temos escolas muito boas e gostaríamos que vocês viessem mais às nossas escolas.” São esses tipos de conversas que acontecem nesses eventos. A Colômbia tem conhecimentos importantes em operações ribeirinhas e tem uma escola muito boa em Turbo. Eles se ofereceram para receber outros países em sua escola; assim, essas conversas aconteceram. Também conversamos sobre o compartilhamento da liderança da SPMAGT e talvez realizá-las a bordo dos navios, como o Brasil irá fazer com o UNITAS. Esses são os tipos de acordos que estão em fase inicial de desenvolvimento, majoritariamente baseados na confiança e nas relações pessoais.

Diálogo: Estando nessa função desde maio de 2017, como a sua perspectiva da região mudou desde que assumiu o comando?

C Alte Bellon: Em linhas gerais, baseado na minha experiência em outros lugares onde estamos em guerra, o melhor que se pode esperar conseguir em um ambiente de combate é um alinhamento temporário baseado nas necessidades imediatas. Entretanto, aqui não estamos em guerra e conseguimos conversar entre gerações. O que se tem nas nossas regiões é esse alinhamento baseado em valores que já existe em função da nossa história e herança comuns. Na realidade, considerando os valores, a orientação e a herança dos nossos povos, temos muito mais coisas em comum do que diferentes. Isso é uma realidade do Alasca até Punta Arenas; por isso, quando se começa assim, abre-se um enorme potencial. Isso é cultural. Quanto aos fatos, o que se tem nessa região são economias e populações em expansão, acesso a recursos naturais e um valor cultural da educação. Todos esses países, esperemos que os Estados Unidos também estejam incluídos, estão avançando e farão parte do futuro deste planeta de uma forma importante. O interessante é que agora conversamos sobre problemas, tais como deter a pesca ilegal. A pesca ilegal é um problema global que irá afetar nossos netos. Qual é o nosso papel nisso? E o desmatamento? E a mineração ilegal? E o fluxo de drogas e armas que não vai só em ambos os sentidos, mas também vai para o norte, para o sul, para o leste e para o oeste? Quando há pessoas com futuros brilhantes, eles se empenham mais em solucionar os problemas para a próxima geração.

Diálogo: Quais são as singularidades e diferenças dos problemas de segurança na América Latina e no Caribe em relação aos problemas encontrados nas suas funções anteriores?

C Alte Bellon: Na minha história pessoal, em outros lugares como Iraque e Afeganistão, há uma guerra aberta. Na América Latina e no Caribe, é mais uma questão de tentar definir condições para o estado de direito. Os povos querem viver livremente e também ter direitos individuais que são comuns nas democracias. Eles querem ter economias abertas, querem ter comércio. Mas o que realmente põe isso em perigo é a vasta quantidade de redes criminosas que se estendem por toda a região. Com a quantidade de dinheiro que flui por essas redes, há uma quantidade equivalente de violência. Esse dinheiro compra assassinos. A difícil realidade é que essa região, a nossa região, tem a maior taxa de homicídios do mundo, por uma grande diferença. É bastante difícil promover seu povo e pensar nas gerações se o que todos estão tentando é fazer com que os filhos sobrevivam até a idade adulta. Esse é o panorama do problema que temos aqui, em contraposição à guerra aberta que existe em algum outro lugar.

Diálogo: Qual é a importância da visão de longo prazo da SPMAGTF como mencionada acima?

C Alte Bellon: Quando falo da nossa própria marinha, a Marinha dos EUA, o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, reconhecemos que existem marinhas como as do Peru, do Chile, da Colômbia, do Brasil, do México e de Honduras que estão construindo e comprando navios, e que têm aspirações de ser uma força bastante regional. Porém, as marinhas são bastante caras, e talvez eu seja capaz de comprar e construir um navio, mas por isso temos que ver esse navio trabalhando em parceria com um navio de um dos nossos parceiros, sendo capaz de trabalhar juntos. Falar é fácil, fazer é difícil. A única maneira de fazer isso é ter uma missão comum e navegar juntos para fornecer uma capacidade comum. É por isso que o Brasil está se voluntariando e oferecendo explorar a possibilidade de liderar o UNITAS, não como um exercício já delineado, mas sim como uma força capacitada de missão que navega potencialmente como uma força-tarefa, tal como outras que já existem em outros lugares do planeta. Isso é um nível muito superior de sofisticação, mas se pudermos conseguir isso dentro da região, podemos trabalhar juntos para solucionar problemas que não conseguimos individualmente. Essa é a chave do nosso futuro.

Diálogo: A ideia é tornar isso uma força-tarefa de ajuda humanitária, como a Promessa Contínua?

C Alte Bellon: Esse é um conceito em desenvolvimento e é necessária uma marinha sofisticada para ser um líder pensante. O Brasil tem uma marinha bastante sofisticada. O que eles estão explorando é exercitar o conceito para que possamos determinar corretamente qual é o potencial. A ideia inicial é a de que essa força se una, particularmente durante uma temporada com risco de furacões, por exemplo, e que essas marinhas modernas de primeiro mundo e bastante capacitadas embarquem capacidades de assistência humanitária e as projetem para aliviar o sofrimento humano na região, caso o furacão surja novamente, como ocorrido no ano passado (2017) e no ano anterior. Sabemos que isso vai acontecer. As pessoas simplesmente estão assumindo seus papéis de liderança de direito na região e dizendo: “Temos essa capacidade. Vamos trabalhar juntos para tornar esse um lugar melhor para todos os nossos povos.”

Diálogo: Gostaria de acrescentar algo para nossos leitores regionais?

C Alte Bellon: O melhor que pude tirar do meu tempo aqui é que a região tem potencial. Quando se começa com um denominador comum de valores, onde as famílias de um país concordam com os valores básicos das famílias de um outro país e de outros países também, temos um alinhamento cultural. Existe uma consideração real em relação à educação, à ciência, à tecnologia e ao desenvolvimento. Além dessa apreciação essencial, as pessoas também sentem uma responsabilidade global nessa região. Isso é manifestado nos seus exércitos, e [isso é verdade] para mim e para muitos de nós em nossas marinhas e em nossos corpos de fuzileiros navais. Quando você ouve esses exercícios de conceitos e pessoas trabalhando juntas, isso é um reflexo direto do povo do seu país. Estou muito confiante. Como me preparo para eventualmente assumir um outro trabalho, a mensagem que levo é a de que há grande potencial nos povos dessa região.

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