Destaque: Uma conversa com nossos líderes

“As redes de ameaças transnacionais e transregionais são a maior ameaça ao Hemisfério Ocidental”

O Gen Brig Clarence K.K. Chinn do Exército dos EUA conversou com a Diálogo sobre a importância de trabalhar junto com outros países na região para nos mantermos todos seguros.
Marcos Ommati/Diálogo | 19 abril 2017

O Gen Brig Clarence K.K. Chinn do Exército dos EUA (à dir.) visita com o Gen Brig Oscar S. Mojica, chefe do Estado-Maior do Exército da Nicarágua, durante a Conferência Regional de Líderes da América Central 2016, em Fort Sam Houston, no Texas, em 10 de março de 2016. (Foto: Robert R. Ramon, Relações Públicas do Exército Sul dos EUA)

O Exército Sul dos EUA (ARSOUTH, por sua sigla em inglês) está sediado em Fort Sam Houston, no Texas, e é o componente de serviço do Exército do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM, por sua sigla em inglês). Sua missão é realizar e dar apoio a operações multinacionais e fornecer cooperação de segurança em 31 países e 15 áreas de soberania especial na América Central e do Sul e no Caribe. O Gen Brig Clarence K.K. Chinn do Exército dos EUA assumiu o comando do ARSOUTH em 4 de junho de 2015. Ele se formou em 1981 na Academia Militar dos EUA em West Point e recebeu o título de Mestre em Estudos Estratégicos do Colégio de Guerra do Exército. A Diálogo visitou o Gen Brig Chinn para falar sobre os desafios que ele enfrenta ao combater as ameaças transnacionais e reforçar a segurança regional na defesa do solo pátrio.

Diálogo: Estando no cargo de comandante do ARSOUTH há quase dois anos (desde 2015), como mudou a sua perspectiva da área de operações desde que o senhor assumiu o comando?

General-de-Brigada Clarence Chinn, comandante do Exército Sul dos EUA: Estou realmente impressionado com nossas nações parceiras, pois não estaríamos onde estamos hoje sem o seu enorme apoio. As pessoas não percebem onde nos encontrávamos antes. Almocei com um jovem oficial (de 25 anos de idade) outro dia e ele me disse: “Senhor, eu não entendo. Eu não nos vejo fazendo qualquer progresso. Não sei se estamos causando algum efeito.” E um dos colegas, que estava na ativa há 40 anos, disse: “Você não entende porque não sabe como era nas décadas de 1980 e 1990. Nós tínhamos as botas no chão; tínhamos soldados em muitos países. Eles é que travavam a luta.” Já não fazemos isso hoje. Nossas nações parceiras estão protegendo sua própria soberania e, não só isso, elas têm a visão. Elas estão olhando as tendências e as redes transnacionais e estão tentando descobrir como vão desestruturá-las ou derrotá-las. Eu acho que esta é uma região muito forte e estável. Os líderes militares querem a mesma coisa que nós: estabilidade, segurança e oportunidade econômica. Eles entendem que não conseguem fazê-lo sozinhos. Eles devem trabalhar com outras nações e devem compartilhar informações para que sejam rápidos e transparentes para derrotar as redes criminosas que estão operando em seus países.

Diálogo: O senhor acha que os valores de democracia são mais fortes na América Central e do Sul agora em comparação ao que vimos em anos recentes?

Gen Brig Chinn: Sim. Acho que as forças armadas querem ter forte estabilidade e segurança dentro do seu país, mas isso só acontece porque temos pessoas que vieram antes de nós e tinham essa visão. No nosso país, é isso o que queremos e acho que esse é o segredo – que eles valorizem as instituições democráticas. Então, veja o que aconteceu aqui [na América Central e do Sul] em um curto período de tempo. Uma presidente sofreu impeachment [no Brasil]; outro presidente renunciou [na Guatemala]. Em anos anteriores, isso desencadearia um golpe militar. Contudo, isso não aconteceu depois desses dois incidentes e é porque eles têm instituições fortes que foram construídas ao longo do tempo, não só dentro do país, mas também por meio dos relacionamentos, da educação e do entendimento de todos sobre como deveria ser o processo democrático. O papel das forças armadas é o de fornecer segurança para permitir que o processo democrático continue.

Diálogo: O que o senhor vê como o seu maior desafio como comandante do Exército Sul?

Gen Brig Chinn: A principal função para nós é proteger nossas fronteiras meridionais, bem como proteger a nação contra as redes de ameaças transregionais e transnacionais. Essas redes sempre vão ser o desafio. Nós deveríamos sempre nos concentrar nas diferentes redes que existem por aí, porque essa é realmente a ameaça para os Estados Unidos. E felizmente temos excelentes nações parceiras que realmente acreditam nas mesmas coisas que nós, ou seja, elas também não querem que essas redes de ameaças transregionais e transnacionais operem em seus países, porque isso afeta sua soberania e sua segurança. Se você não puder ter segurança, então não haverá investimentos. Portanto, na minha opinião, o que nos interessa no geral é assistir aos nossos parceiros de forma que possam continuar a fortalecer sua capacidade de sustentar sua própria soberania. Então, quando necessário, eles podem desestruturar ou destruir redes que estiverem operando dentro de seus países.

Diálogo: A que tipo de redes o senhor está se referindo?

Gen Brig Chinn: Vemos redes que transportam mercadorias, pessoas, armas, dinheiro e drogas de maneira ilícita no hemisfério ocidental, como, por exemplo, uma gangue como a MS-13 [Mara Salvatrucha], que é uma rede que opera em El Salvador e outros países da América Central. Temos de entender essas redes se quisermos ter êxito e é preciso uma rede forte para derrotar outra rede. Assim, com esse entendimento e o apoio de nossas nações parceiras, podemos criar nossa própria rede para compartilhar informações e, por sua vez, sermos mais abertos, mais transparentes e mais rápidos. Podemos nos infiltrar nos ciclos de decisões e no meio dos indivíduos responsáveis pelas redes – não importa quem seja, ou onde a rede esteja.

Diálogo: Que papel a Conferência dos Exércitos Americanos desempenha na luta contra essas redes e em outras questões de segurança e defesa na região?

Gen Brig Chinn: Eu diria que é um papel muito importante. Há 20 comandantes de exércitos parceiros que participam dela. Eles se reúnem a cada dois anos e, exatamente agora, o Exército dos Estados Unidos é o anfitrião desta Conferência. A última vez que fomos anfitriões foi em 1991. Isso mostra de alguma maneira como operamos, em termos de exércitos, para que todos tenham uma oportunidade de liderar e ser anfitriões. Assim, nós somos os anfitriões neste ano, além de uma das conferências onde discutimos as ameaças emergentes do século XXI. Haverá diálogo entre os comandantes de exército a respeito do que cremos serem as ameaças e, então, cada um de nós volta para seus respectivos países oferecendo auxílio, por exemplo, para a polícia, porque, em alguns países, a polícia faz parte das forças armadas. Em outros países ela não faz parte das forças armadas, ela opera separadamente. O que acontece quando eles têm de trabalhar juntos e criar essa sinergia para que possam compartilhar essas informações, sendo, ao mesmo tempo, transparentes e compreensivos? Não é uma competição. É uma questão de proteger nossos países.

Diálogo: Mas é importante para as pessoas entenderem que o exército, nesses casos, não está fazendo trabalho de polícia, certo?

Gen Brig Chinn: Exatamente. Muitas pessoas acham que o exército está lá com a polícia, portanto, eles estão policiando. Não, eles não estão policiando. Eles não estão treinados para fazer o trabalho da polícia, mas, em situações de contingência, eles podem apoiar a polícia. Eles não estão prendendo pessoas; eles não têm essa autoridade, nem a Constituição deles permite isso. Então, o segredo importante é que não há nação parceira ou país que eu tenha visto ou com o qual eu tenha trabalhado, que não obedeça à sua Constituição quando ela diz que o exército pode dar apoio à polícia e, além disso, todas têm uma Constituição que diz que, se o presidente ordenar ao exército que apoie a polícia, ele deverá fazê-lo. Isso é subserviente à autoridade civil. Se não for ilegal, imoral ou antiético, se o presidente disser para fazê-lo, então você tem de fazê-lo. Contudo, não há um único comandante com quem eu tenha falado que não tenha virado e dito – quando lhes perguntei onde gostariam de estar em dois ou três anos – que não querem estar apoiando a polícia.

Diálogo: Não é a missão deles...

Gen Brig Chinn: Exato, e eles também estão preocupados com isso. Como um bom comandante de exército, eles deveriam estar preocupados com isso, porque sabem que não são necessariamente treinados para isso – para apoiar a polícia. No entanto, é isso que eles me contam. Esse é o desafio deles.

Diálogo: E eles provavelmente também estão preocupados a respeito de violações dos direitos humanos, certo?

Gen Brig Chinn: Certo. Eles não querem se ver envolvidos em nenhum tipo de potenciais violações de direitos humanos, porque não querem perder a confiança das pessoas. Em todos os países, como aqui nos Estados Unidos, você vê que a instituição com maior confiança e respeito é a das forças armadas. Em alguns países, a polícia está no mesmo nível, enquanto em outros a polícia não é tão conceituada como as forças armadas. Mas isso realmente não importa em qualquer dos casos. O que é importante entender é que os militares estão entre os de maior confiança e respeito. Isso se deve à liderança, correto? Você não se torna a pessoa de maior confiança e respeito em uma sociedade a menos que esteja fazendo o que é certo. Isto significa que você não está facilitando violações dos direitos humanos. É impressionante o quanto eles são respeitados. Mas, parte disso também volta ao porquê de eles serem tão respeitados. Quando o presidente lhes pede para fazer algo, geralmente eles se saem muito bem.

Diálogo: Os membros das forças armadas que participam de atividades de ajuda em desastres também gozam de grande respeito e credibilidade junto às diferentes populações, correto?

Gen Brig Chinn: Sim, porque é aí que eles têm a maior interação com as pessoas. Quando há um desastre, ou algo acontece e o governo civil não tem a capacidade ou capacitação para enfrentar sozinho esses desafios por vezes enormes, eles precisam de assistência militar. Diferente dos Estados Unidos, onde temos a Guarda Nacional, eles [a maioria dos países na América Central e do Sul e no Caribe] não têm uma Guarda Nacional, nem reservistas. Então, o presidente não tem as opções que temos aqui. Eles têm de chamar as forças armadas. Assim, de novo, você entra nesse problema de os militares não serem treinados para prestar assistência humanitária ou auxílio em desastres, mas finalmente o fazem e o fazem muito bem. Essas são missões muito difíceis que pedimos aos nossos líderes militares nas nações parceiras e eles as cumprem. Fico realmente impressionado com suas capacitações.

Diálogo: Por fim, o que o senhor tem a dizer sobre o histórico das forças armadas dessa região de participarem de missões de paz no mundo inteiro?

Gen Brig Chinn: Essa é outra parte interessante. Eu fiquei agradavelmente surpreso em constatar que há 14 diferentes missões de paz nas quais nossas nações parceiras estão envolvidas atualmente. Isso é bastante. Eu fiquei surpreso, mas em muitos casos, eles vêm fazendo isso há muito tempo. A Colômbia vem participando da missão no Sinai desde o início. Muitas pessoas não percebem que a Colômbia continua envolvida nisso, porque eles são profissionais silenciosos. Eles simplesmente vão lá e o fazem sem muito alarde. A Missão de Estabilização da Organização das Nações Unidas para o Haiti [MINUSTAH] é liderada pelo Brasil, tendo o Chile como adjunto. As missões de paz das Nações Unidas são importantes porque colocam as nações parceiras num cenário global. Eles não são apenas regionais, mas globais, e estão granjeando reconhecimento por serem uma força profissional. Além disso, as pessoas não percebem que El Salvador fornece helicópteros ao Máli, na África, ou que o Peru está exatamente agora na República Centro-Africana, em sua segunda participação, com uma companhia de engenharia. No entanto, há muitas operações desse tipo ocorrendo e as pessoas realmente não se dão conta de que temos excelentes nações parceiras lá, realizando coisas excelentes. El Salvador lutou conosco no Iraque e no Afeganistão. A República Dominicana, Honduras e a Nicarágua tinham forças no Iraque. A Colômbia lutou conosco na Coreia, onde sofreu baixas, e uma vez por ano realiza uma cerimônia in memoriam. Então, vejam os brasileiros que lutaram conosco na Segunda Guerra Mundial. Em suma, temos um relacionamento muito forte com muitas das nossas nações parceiras.

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