Atentado terrorista atinge Colômbia

O atentado terrorista do ELN envolve países signatários do processo de paz com o grupo insurgente.
Yolima Dussán/Diálogo | 5 fevereiro 2019

Ameaças Transnacionais

As Forças Armadas da Colômbia patrulham a região onde um carro-bomba explodiu na Escola de Cadetes de Polícia General Santander, em Bogotá, no dia 17 de janeiro de 2019. (Foto: Juan Barreto, AFP)

O terrorismo recrudesceu na Colômbia após o atentado do dia 17 de janeiro de 2019 em Bogotá, quando um carro-bomba explodiu dentro da Escola de Cadetes de Polícia General Santander, deixando um saldo de 21 mortos, 68 feridos e uma infraestrutura atingida na circunferência do atentado. O ato foi reivindicado pelo grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (ELN), que havia suspendido as conversações de paz com o governo da Colômbia, em Cuba, onde a cúpula do grupo insurgente permanece.

“Peço a todos os governos que entendam que o ocorrido na semana passada não é uma discrepância de posições políticas”, enfatizou o presidente colombiano Iván Duque, em Davos, Suíça, no dia 23 de janeiro de 2019. “Trata-se de um crime internacional que tirou as vidas de muitos jovens indefesos, desarmados, que estavam se preparando para servir como policiais da Colômbia.”

De acordo com os organismos de inteligência da Colômbia, Venezuela e Cuba estão abrigando os membros do ELN. Na Venezuela, se encontrariam os líderes Rafael Sierra, conhecido como Ramiro Vargas; Eliécer Herlinto Chamorro, vulgo Antonio García; e Gustavo Aníbal Giraldo, vulgo Pablito.

O chanceler colombiano Carlos Holmes Trujillo solicitou ao governo de Nicolás Maduro que verificasse a presença desses e de outros membros do ELN e desse uma resposta contundente. “O governo da Colômbia espera que, caso essa presença seja confirmada, sejam expedidas ordens de prisão para que os criminosos sejam entregues às autoridades colombianas, como deve ser”, disse Trujillo em uma declaração oficial. Os dias passam e não há uma resposta.

Necessidade de apoio internacional

Duque se encarregou de fazer a mesma solicitação a Cuba. “Apelo respeitosamente ao governo cubano para que proceda com as ordens de extradição e possa entregar às autoridades colombianas os responsáveis por essa organização, para que paguem por esse atentado contra a Escola de Cadetes de Polícia General Santander. Fazemos esse apelo ao governo cubano para que nos ajude a fazer justiça na Colômbia.”

Além disso, a Interpol emitiu uma circular vermelha contra dois dos integrantes da delegação de paz do ELN em Cuba: Israel Ramírez Pineda, conhecido como Pablo Beltrán, atual chefe da delegação da guerrilha e integrante do Comando Central, e Víctor Orlando Cubides, vulgo Aureliano Carbonell ou Pablo Tejada, que participou de um massacre em 1998, onde o ELN detonou explosivos nos dutos de combustível que passavam pela localidade de Machuca, no município de Segovia, em Antioquia. O atentado causou a morte de 70 pessoas enquanto dormiam, entre adultos e crianças.

Respaldo de organismos internacionais

Agentes da Polícia Metropolitana de Bogotá montam guarda na Escola de Cadetes de Polícia General Santander, após a explosão de um carro-bomba em suas instalações. O principal suspeito pelo atentado é José Aldemar Rojas Rodríguez, membro do ELN há 25 anos. (Foto: Daniel Muñoz, AFP)

A Organização das Nações Unidas (ONU) manifestou seu repúdio. “O Secretário Geral [António Guterres] condena o atentado com carro-bomba em uma academia de polícia em Bogotá. Os responsáveis devem ser levados aos tribunais”, disse à imprensa Stéphane Dujarric, sua porta-voz.

“O terrorismo em todas as suas formas e manifestações constitui uma das ameaças mais graves à paz e à segurança internacionais”, acrescentou José Singer Weisinger, presidente do Conselho de Segurança da ONU. “Todo ato de terrorismo é criminoso e injustificável, independente de sua motivação, onde, quando e quem quer que o cometa.”

Continuação do conflito armado

“Na Colômbia, conseguimos terminar um conflito armado que nos deixou centenas de milhares de mortos e milhões de vítimas e desalojados”, declarou o então-presidente da Colômbia Juan Manuel Santos perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia 19 de setembro de 2017. No entanto, a Colômbia ainda sofre atos terroristas.

Os acordos de paz de 2017 implicaram um acordo entre o governo e a cúpula das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), que abandonou suas fileiras na selva e perdeu a influência que exercia sobre elas. Os terroristas remanescentes que não aderiram aos acordos de paz se reagruparam ou formaram novos grupos armados, financiados pelo combustível do narcotráfico.

“A Colômbia tinha duas posições radicais: ou iríamos direto ao Castro-Chavismo e nos tornaríamos outra Venezuela, ou com a assinatura do acordo com as FARC nos transformaríamos numa Suíça”, disse à Diálogo Néstor Rosania, diretor do Centro de Estudos em Segurança e Paz, uma organização não governamental sediada em Bogotá, Colômbia. “Não somos nem uma coisa nem outra. Estamos na transição da violência na Colômbia. Hoje estamos em um ponto de ruptura, onde a violência política fica para trás e nos afundamos em cheio na violência do narcotráfico e da mineração, que rendem toneladas de dinheiro.”

O transbordamento do conflito colombiano nas regiões de fronteira é preciso e influente. Existe uma diversidade de grupos criminosos nas fronteiras com a Venezuela, o Equador e o Brasil, cujas ações envolvem inclusive a América Central, pela forma como controlam as rotas de saída da droga.

“A realidade na Colômbia é que temos um ELN que ocupa os espaços das FARC e um espiral de violência que não se deterá, porque enquanto a droga continuar representando tanto dinheiro, apenas mudaremos o nome dos grupos e o conflito continuará o mesmo”, garantiu Rosania. “Caso os diálogos de paz com o ELN continuem, suas dissidências ativarão o conflito porque não lhes interessa abandonar o negócio do narcotráfico e da mineração ilegal. Esse é o verdadeiro problema da violência que a Colômbia enfrenta atualmente”, finalizou.

Compartilhar:
Comente:
Gosta dessa história? Sim 241
Carregando conversa